Sobrevoando

Produtividade

Toninho Carancho
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Esses dias, estava lendo uma notícia que achei interessante, falava sobre o aumento de produtividade do gado de corte no Brasil. Trabalho feito pelo Cicarne (Centro de Inteligência da Carne), do pessoal do MS em conjunto com a Embrapa. Legal.

Mostra um comparativo dos números de quantidades de cabeças e do peso das carcaças no Brasil nos anos de 1978 e 2018. Todos aumentaram bastante, além de haver um deslocamento da pecuária do Sul/Centro-Oeste para o Centro-Oeste/Norte, mostrando o dinamismo da pecuária, tida como um negócio mais tradicional e que hoje, cada vez mais, se assemelha à agricultura, para o bem e para o mal.

Para o bem no sentido de ser cada vez mais profissional, de exigir cada vez mais tecnologia, mais empenho, mais cobrança, mais manejo, mais investimentos, mais máquinas, mais sementes, mais controles etc.

E para o mal exatamente pelos mesmos motivos anteriores.

Antes, você podia ser um amador, ter um gadinho pastando descompromissadamente no campo nativo ou numa pastagem degradada. O gado não engordava muito, nem dava muito dinheiro, mas estava ali, dando algum para a sobrevivência do pecuarista. Baixo investimento, baixo custo, pouco trabalho, pouco controle, pouco ou nenhum maquinário, manejo próximo do zero, enfim, uma beleza. Excelente. Não se fazia quase nada e ainda tirava algum, bons tempos aqueles...

Agora, não. Nem se você quiser fazer da mesma forma que antes você vai conseguir. Os seus amigos e vizinhos vão te cobrar mais dinamismo, mais empreendedorismo, profissionalismo e tudo o mais. Como você vai postar fotos do seu gado magro numa pastagem rapada? Não, você, agora, tem que ser um empresário do gado, um profissional. Tem que trabalhar mesmo, se arriscar, investir. Tratar da sua pastagem como se fosse uma lavoura de soja ou milho.

E assim foi acontecendo, como mostram os números do Cicarne. E ainda temos muito a aumentar esses números. Notem que escrevi aumentar os números, não melhorar. Porque melhorar nem sempre quer dizer aumentar.

Talvez, em alguns casos, melhorar seja diminuir os números, levar mais light. Diminuir o investimento e, por sua vez, o risco. Não sei, talvez, você que sabe.

Não se deixe levar pelo rebanho, você não é uma ovelha nem uma vaca.

A produtividade é uma coisa inerente ao ser humano e também ao setor pecuário, vamos aumentando com o passar dos anos, não tem como segurar na média geral, mas, se você quiser ou achar que deve diminuir, diminua. Se puder conciliar a pecuária com um bom passeio a cavalo, com a pescaria, com um bom churrasco, com tempo para fazer outras coisas, ótimo. Ou você quer se transformar num agricultor? E falo de um agricultor brasileiro, o cara que mais trabalha no mundo. Um doido, que não tem descanso nunca. Que faz três safras por ano, que colhe uma e já planta outra. Eu não.

Admiro muito esses caras, mas não quero ser eles. Talvez o meu estilo seja mais para o agricultor americano, que dá um duro danado nos meses de primavera e verão e, depois, descansa no inverno e vai pra Flórida. Parece uma boa ideia.

Eu tento fazer isso. Bastante tecnologia no campo, mas com tempo para outras coisas. Ajudo o gado a me ajudar, não fico de escravo dele, pelo menos não o tempo todo.

Claro que, no Brasil, temos uma figura em extinção, mas que ainda existe, o funcionário rural. Em outros países já não existe mais. Talvez, enquanto tivermos esses caras, poderemos trabalhar na pressão total, mas se, um dia, eles sumirem do mapa, talvez tenhamos que rever nossos conceitos.

Terminou meu espaço e, agora, vou ter que pescar. Fui!