Do Pasto ao Prato

Comprei um touro no MERCADO LIVRE

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

Há males que vêm para piorar tudo”, dizia um amigo pessimista. Acho graça no ditado adaptado, mas não o acompanho no raciocínio. A crise que estamos vivendo da Covid-19 está trazendo grandes avanços digitais em muitas áreas. Fala-se isso por todos os lados e em vários setores. Na pecuária de corte, estão ocorrendo transformações importantes na comercialização de animais por força do momento. Da compra dos insumos à venda do produto final (terneiros, reposição, animais para abate e reprodutores).

Na venda de terneiros, migramos das Feiras de Terneiros presenciais para muitos leilões virtuais em função do impedimento de aglomeração de pessoas. O Projeto Comercialização Virtual de Terneiros no RS, conduzido pelo NESPro (UFRGS), já totaliza o acompanhamento de mais de 40 mil animais vendidos em leilões virtuais no outono de 2020 e trará importantes informações ao mercado gaúcho. Saberemos, com mais precisão, que tipo de produto foi mais valorizado (raça, peso, castrado/inteiro etc.), em que tamanhos de lotes, em que época, localização etc. A continuidade desse trabalho por algumas temporadas trará informações muito úteis para a compreensão do mercado. Já está ocorrendo o mesmo para a venda de reprodutores em leilões virtuais, e tentarei abordar algumas questões e recomendações neste texto.

Alguns promotores de leilões de touros já vinham oferecendo parte de sua produção em leilões virtuais (somente com transmissão de vídeos) nos últimos anos, mas não era a modalidade preferencial e também não substituía os seus leilões principais que ainda eram realizados de forma presencial. Os leilões virtuais de touros, usualmente realizados no outono, eram considerados como uma segunda oferta das cabanhas e numa segunda época. Os reprodutores superiores ou com maior possibilidade de venda por maiores valores eram destinados aos leilões tradicionais e presenciais. Em 2020, tudo mudou, e os leilões virtuais não são mais segunda opção. A perspectiva de realização de leilões presenciais na primavera é cada vez mais distante. Inicialmente, imaginávamos que o pico do coronavírus ocorreria no primeiro semestre e que a temporada de leilões de primavera não seria afetada pela pandemia. Estávamos errados. Tudo indica que a maioria dos leilões do ano seguirá sendo virtual.

Nesse outono, ocorreram alguns leilões virtuais importantes na área que mais atuo, reprodutores taurinos, entre eles: Revolution, Liquidação Brangus Olhos D’Água, Conexão Pampa, Brangus Boitatá, RPK Genética, Angus São Marco, Virtual GAP Produção, CB Genetics Embryo etc.

Mas é necessário repetir esse assunto se é o mesmo fenômeno ocorrido com os terneiros? Sim, porque é mais um degrau que avançamos e porque a compra de um touro é uma decisão de maior impacto ao pecuarista. No quadro muito simples que apresento aqui (Tabela 1), vamos lembrar o impacto de um touro em número de produtos (filhos) e tempo de sua influência no rebanho.

Fica bem claro perceber que é grande o impacto (para o bem ou para mal) da escolha de um touro, pois ele deverá deixar 100 filhos ou mais no rebanho e terá filhas em reprodução até 2033. Convém dedicar um pouco de tempo e atenção para uma compra tão importante. Diferentemente de um lote de terneiros para engorde, teremos que administrar os resultados dessa decisão por longo prazo. Os leilões virtuais de reprodutores nos trazem um aprendizado novo: como escolher e comprar da melhor forma touros nesse sistema.

As recomendações técnicas ou sugestões seguem basicamente as mesmas usadas para a compra de reprodutores na fazenda ou no leilão presencial, mas se torna mais importante a observação dos dados dos animais, pois as imagens (fotos e vídeos) não conseguirão substituir a pleno a apreciação visual que fazemos presencialmente. Veja algumas dicas simples na Figura 1.

Os leilões virtuais acelerarão mais ainda a importância comercial dos dados técnicos dos animais (índices de fazenda, DEPs , avaliação genética, dados de ultrassonografia de carcaça, genômica etc.). Os vendedores de touros que ainda estão resistentes em disponibilizar essas informações nos leilões devem fazer a sua reflexão. Agora, a Covid-19 nos atropelou. Dizem que “beleza não põe mesa”, e, nos leilões virtuais de touros, a beleza vai ficar bem relegada ao segundo plano. A boa reputação do vendedor e os bons dados técnicos do produto é que vão definir a boa venda ou até a não venda. Em nosso “Mercado Livre” de leilões de touros, ainda não temos avaliação do vendedor, mas logo teremos. O jeito é lutar por cinco estrelas.