O Confinador

Tratamento em massa e ANTECIPADO

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Medidas sanitárias realizadas na chegada ao confinamento evitam enfermidades de animais expostos a condições estressantes de manejo

Octaviano Pereira1

Nos sistemas de confinamento de bovinos, os principais investimentos são em dieta e na aquisição de animais de bom nível zootécnico, pois comida e potencial de ganho determinarão a capacidade de converter nutrientes em peso de carcaça (carne).

Com os anos, os sistemas de cria e recria migraram para estados nos quais as terras são abundantes, tendo parte dos estabelecimentos confinadores ficado concentrada em São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso. Isso levou à adoção de transporte rodoviário de longa duração, com reflexos sobre o status sanitário dos bovinos.

Nessas viagens rodoviárias, os animais permanecem em pé por longos períodos, sofrem com desidratação e fome, passando por mudanças térmicas, o que gera estresse e alterações nos níveis de imunidade. Esse quadro de “adaptação forçada” favorece a ocorrência de diversas enfermidades tão logo os animais chegam aos currais de terminação. Quanto mais prolongado e desconfortável for esse translado, mais impactante será para o organismo do animal.

Porém, a sanidade é um componente elementar para o sucesso na terminação de bovinos, favorecendo seu desempenho com lucratividade. Mas suas falhas resultam em impactos negativos ao sistema de produção. Infelizmente, o investimento em saúde animal é banalizado, representando, em geral, menos de 3% dos custos totais do sistema, acarretando perdas de desempenho decorrentes de enfermidades, entre elas: pneumonias, problemas de cascos, clostridioses, encefalites, distúrbios nutricionais etc.

Figura 1 - Animais acometidos por DRB apresentam febre, prostração e corrimento nasa

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Medidas sanitárias básicas

Os animais chegam ao confinamento e são agrupados conforme seu biotipo. Como vêm de diferentes propriedades, têm históricos sanitários variados e trazem potenciais riscos de disseminação de doenças. Portanto, faz-se necessária a adoção de medidas sanitárias tão logo sejam introduzidos aos sistemas, tais como: vacinação (profilaxia) contra doenças virais (Rinotraqueíte Infecciosa Bovina – IBR; Doença Viral Bovina – BVD; Parainfluenza 3 – PI3) e de origem bacteriana (clostridioses e pasteurelose); e uso de parasiticidas (externos e internos), moduladores orgânicos e antibióticos.

Figura 2 – Lesões no sistema respiratório por DRB levam o animal ao óbito. Os sobreviventes perdem tecido pulmonar e sofrem queda de desempenho pelo resto da vida

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A profilaxia tem por objetivo proteger o indivíduo e prevenir a circulação de agentes de doença. O ideal para obter uma “imunidade de rebanho” é que os animais apresentem titulação de anticorpos entre 83% a 94% para uma determinada doença, sendo essa uma premissa básica para sua proteção em programas de vacinação coletiva. O recomendado, para uma boa resposta imune, seria que a primeira dose ocorresse de 14 a 21 dias antes do embarque e fosse repetida (reforço) logo na chega ao confinamento, porém, na prática, isso não ocorre. O uso dos parasiticidas é fundamental, removendo a maior parte possível de parasitas internos e externos, que prejudicam o desempenho animal. E adoção de produtos licenciados e com período de carência adequado ao tempo de engorda previne resíduo de pesticidas na carcaça.

A doença mais importante e causadora de morte nos confinamentos é a pneumonia ou Doença Respiratória Bovina (DRB), tanto local como mundialmente. O estresse da viagem e a aglomeração de animais são fatores predisponentes de surtos de DRB, com quadros que vão desde o subclínico ao fatal, podendo ocorrer por vírus, bactérias ou micoplasmas, associados a fatores ambientais e práticas de manejo. A maioria dos casos ocorre nos primeiros 45 dias do período de terminação.

Há estudos contendo relatório de que o diagnóstico baseado em sinais clínicos (febre, inapetência, fraqueza, alteração ruminal e depressão – Figura 1) pode ser bastante falho, detectando apenas 62% dos casos. Há também pesquisas que atribuem às falhas de monitoramento e diagnóstico as perdas significativas no desempenho animal (lesões pulmonares) verificado após abate (Figura 2). No entanto, casos graves podem não ser detectados pelas rondas, gerando perdas no ganho de peso e na produtividade, conforme também prova a literatura especializada

Diagnóstico e prevenção

As DRB provocam lesões crônicas no tecido pulmonar, as quais afetam o desempenho dos bovinos e provocam redução no ganho de peso e na qualidade de carcaça, na deposição de gordura e na área de olho de lombo. Animais com lesão pulmonar ganham de 80g a 150 g por dia a menos do que os que apresentam pulmões normais.

O tratamento da DRB, especialmente das bacterianas, deve ser adotado o mais precocemente possível, evitando o comprometimento do parênquima pulmonar, a dificuldade respiratória extrema e o óbito. A escolha do antibiótico correto, a duração do tratamento e a análise da evolução do paciente são críticos para o sucesso do tratamento. Tudo isso demanda tempo e envolvimento dos funcionários do confinamento.

Uma prática para prevenir essas falhas de detecção é a metafilaxia, a qual visa ao tratamento em massa e antecipado de animais expostos a condições estressantes de manejo, principalmente transporte prolongado e adaptação ao sistema (dieta, hierarquia social etc.). A ação deve ser adotada na chegada ao confinamento, e não antes, pois é importante a presença dos fatores de risco para justificar a prática.

A metafilaxia visa facilitar a vida do confinador e de seus colaboradores, reduzindo a carga bacteriana do trato respiratório e o número de casos clínicos por curral, bem como a sua gravidade. Alguns autores constataram que a metafilaxia com tilmicosina subcutânea ao início do confinamento reduziu a colonização de Mannheimia haemolytica da cavidade nasofaríngea de bovinos, comparados com indivíduos não tratados.

Antibióticos parenterais na chegada dos animais tratam os casos iniciais, enquanto reduzem a disseminação das doenças respiratórias aos demais. Estudos provam, inclusive, que bezerros medicados na chegada ao confinamento, ganham até 110 g/dia a mais do que os não tratados.

Assim, mais relevante que a redução das taxas de morbidade (número de doentes) ou de mortalidade (número de óbitos), a metafilaxia favorece que animais sob risco não adoeçam e possam obter boa conversão alimentar. Os candidatos à técnica são os bovinos de baixo peso corporal, múltiplas origens, histórico sanitário incerto e transportados em viagens de longa duração. Pollreisz, J., Bechtol, D. e Upson, propuseram um guia de tomada de decisão para adoção de medidas metafiláticas (Quadro 1), com análise de cada lote para uso ou não da metafilaxia contra DRB, variando segundo a época do ano, as condições ambientais e os casos específicos de um determinado desembarque.

Em resumo, a metafilaxia não influencia apenas a morbidade e a mortalidade por DRB, mas previne que os animais sofram perdas de desempenho por comprometimento respiratório. O produtor fica mais tranquilo, e inúmeros casos que passariam desapercebidos à ronda serão prevenidos e/ou tratados de forma eficaz, sem a necessidade de intervenção direta dos funcionários. Os materiais que serviram de referência para este artigo estão à disposição pelo e-mail octaviano. [email protected]

1 Consultor técnico Sênior - Ruminantes Elanco Saúde Animal – Brasil