Nutrição

Guardiã da sanidade

Alimentação associada às defesas orgânicas diminui degradação celular e potencializa desempenho nos momentos mais desafiadores do ciclo

Júlio Barcellos1 , Marcela Kuczynski da Rocha2 , Vanessa de Lima3 , Helena Xavier Fagundes4

A criação de gado de corte passa por processos cada vez mais intensivos para otimizar o uso dos recursos produtivos. É reconhecido que, com os avanços genéticos, há ampliação do potencial produtivo animal, com melhoria na conversão alimentar e respostas à intervenção humana, originando novos desafios. Mas a busca pelo máximo desempenho está alicerçada no equilíbrio de todas as suas funções orgânicas, que asseguram o funcionamento adequado de todas as suas atividades. Nesse sentido, a alimentação vai muito além de atender às exigências nutricionais das diferentes categorias e dos seus objetivos produtivos. Ela é a guardiã e a base para as efetivas defesas imunológicas do animal frente às anomalias de saúde presentes na produção (Figura 1). São os alimentos que fornecem energia, proteína, vitaminas e minerais em quantidade e qualidade suficientes para garantir um bom desempenho individual e a sanidade do rebanho.

O sistema imune é formado pelo conjunto de elementos (células, órgãos e moléculas) que interagem entre si com o objetivo de proteger o corpo contra bactérias, vírus ou substâncias prejudiciais aos tecidos saudáveis. A resposta imunológica pode ser inata e adquirida. A primeira linha é limitada aos estímulos externos e é representada por barreiras biológicas, físicas e químicas, células e moléculas presentes na pele, nos leucócitos e nos fluidos corporais, como lágrima, saliva, muco e suco gástrico. A imunidade adquirida é específica e ativada vaca, durante a síntese do colostro, essencial para a sobrevivência e o crescimento saudável do bezerro.

Figura 1 - Atuação da nutrição nas defesas imunológicas do animal

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Os minerais e as vitaminas afetam a saúde do rebanho (Figura 3), principalmente pela importante função na atividade enzimática associada ao metabolismo energético e síntese de proteínas celulares. Os principais macrominerais para o gado são cálcio, fósforo, sódio, cloro, magnésio, potássio e enxofre. O cálcio e o fósforo são os mais abundantes no corpo do animal, encontrados em ossos e dentes. O cálcio é essencial para a coagulação do sangue, a contração dos músculos, incluindo a transformação de músculo em carne, e o funcionamento de inúmeras reações bioquímicas. Dietas ricas em grãos normalmente requerem suplemento de cálcio, assim como dietas com fenos de leguminosas exigem suplemento de fósforo. A falta de um desses minerais pode levar ao raquitismo, queda na produção de leite e baixo desempenho reprodutivo. A deficiência em fósforo afeta o desempenho reprodutivo dos bovinos. Sódio, cloro e potássio servem para manter a acidez nos fluídos corporal e a pressão nas células do corpo. O potássio também contribui para reações enzimáticas no metabolismo de carboidrato e na síntese de proteínas. O magnésio é necessário para a utilização de energia no corpo e para o crescimento ósseo. Pastagens imaturas podem ter baixa concentração de magnésio e resultar em convulsões, espasmos musculares e morte. Já o enxofre é um componente de proteínas corporais, algumas vitaminas e vários hormônios.

Figura 2 - Linhas de defesa mediada pela nutrição

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Entre os principais microminerais que influenciam a imunidade do rebanho estão zinco, cobre, selênio e cromo. Zinco é cofator para mais de 300 enzimas que modulam muitos processos fisiológicos, além de possuir funções imunológicas como integridade do tecido, síntese de proteínas e mediação do combate à inflamação. Deficiência de zinco no organismo pode levar a limitações da atividade enzimática e ao potencial de resposta do sistema imunológico. Cobre é fundamental na produção de anticorpos, inflamação e ação de neutrófilos. O selênio é um componente importante do sistema antioxidante por meio da enzima glutationa peroxidase. A deficiência de selênio pode contribuir para o estresse oxidativo em animais. O estresse oxidativo é prejudicial ao metabolismo celular, podendo danificar o DNA e afetar as membranas e a integridade celular. Cromo afeta o crescimento, a eficiência alimentar, a taxa de morbidade e a resposta imune, auxiliando no aumento sérico de imunoglobulinas do tipo M e G. Aqui, cabe destacar que aqueles microminerais – em particular, zinco, cobre, manganês e selênio, nas suas formas associadas a moléculas orgânicas – são reconhecidamente melhores ativadores dos sistemas de proteção de mucosas e de defesas em situações de estresse. Portanto, em situações prévias ao desafio pelo animal, é crível afirmar que dietas ricas em minerais “orgânicos” são recomendáveis.

Vitaminas essenciais

As vitaminas são necessárias em pequenas quantidades pelo organismo, porém deficiências vitamínicas induzem a distúrbios do sistema imunológico, pois quase todos os aspectos desse sistema dependem de um suprimento adequado de uma ou de várias vitaminas. Elas também são componenteschave do sistema antioxidante porque inativam espécies reativas de oxigênio, que, por sua vez, podem destruir membranas celulares e proteínas. A proteção contra espécies reativas de oxigênio é importante para todos os tecidos do corpo e, especialmente, para as células imunes.

Figura 3 - Minerais e vitaminas que interferem na saúde do rebanho

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A vitamina A atua no desenvolvimento ósseo, na visão e na manutenção dos tecidos epiteliais. Sua deficiência pode reduzir a imunidade, e a falha reprodutiva, além da integridade inadequada das membranas, permite maior oportunidade de invasão bacteriana e viral. A vitamina E funciona como parte do mecanismo antioxidante, geralmente com o selênio, para inibir a formação de radicais livres e danos celulares.

A vitamina B é essencial para o metabolismo do proprionato, uma fonte de energia produzida por fermentação ruminal, replicação celular por ácidos nucléicos e metabolismo de proteínas. Como resultado, a deficiência de vitamina B12 diminui a formação de anticorpos e a replicação de glóbulos brancos. A vitamina D está envolvida na absorção de cálcio e fósforo, de modo que sua deficiência resulta em raquitismo, taxa de crescimento reduzida nos animais jovens e ossos fracos nos animais mais velhos. A vitamina C é um componente-chave do sistema antioxidante, atuando para proteger o corpo contra os radicais livres e interagindo com a vitamina E.

Bem-estar animal

Outra maneira de maximizar a imunidade do rebanho é o gerenciamento do estresse. Eventos de estresse esgotam as reservas naturais de nutrientes, como minerais e vitaminas. Maneiras de reduzir o estresse durante desmame, transporte e manejo com o gado auxiliam na manutenção de uma resposta imunológica adequada. Por fim, cabe salientar que, para os sistemas mais intensivos de produção, nos quais sempre há um limiar de ocorrência de estresse, é fundamental olhar para a dieta não pensando exclusivamente nas exigências para atender ao ganho de peso ou à reprodução, mas para que seja uma dieta com ingredientes enriquecidos em determinados componentes. Estes fazem parte das exigências, mas atuarão num outro caminho que assegura a manutenção de barreiras para uma enfermidade, garantindo um funcionamento mais harmônico do animal, e o resultado é a maximização do desempenho. Tudo isso será essencial numa pecuária que vislumbra novos patamares de eficiência e produtividade, associada ao asseguramento de uma das liberdades dos animais – que é estar livre de doenças – e, por outro lado, à alta qualidade do seu produto final – a carne.

1 Professor no Departamento de Zootecnia da UFRGS, coordenador do NESPro 2 Doutoranda em Zootecnia na UFRGS/NESPro 3 Mestranda em Zootecnia na UFRGS/NESPro 4 Graduanda em Medicina Veterinária na UFRGS/NESPro