Caprinovinocultura

Informação e pesquisa a favor da sanidade

Caprinovinocultura

Ferramenta digital criada pela Embrapa Caprinos e Ovinos auxilia no estabelecimento de estratégias para prevenção, tratamento e controle de doenças

Francisco Selmo Fernandes Alves¹ e Raymundo Rizaldo Pinheiro²

A sanidade animal é um tema relevante e transversal nas cadeias produtivas de alimentos de origem animal, além de estratégica para qualquer país, principalmente para o Brasil, que é líder na produção de alimentos. As notícias da incidência de surtos de doenças nos animais causam preocupação à saúde pública e prejuízos aos mercados nacional e internacional.

É fundamental ter um plano e uma agenda estratégica em sanidade animal, composta por normativas, laboratórios adequados, técnicos treinados, bem como tecnologias e insumos para o diagnóstico precoce de enfermidades nos animais. Essa agenda deve ser ampla, envolvendo a cooperação das instituições nacionais e internacionais frente a problemas na agropecuária e interfaces com a saúde humana. Para isso, é necessário ampliar a base de conhecimento sobre as enfermidades nas espécies animais frente aos novos desafios quanto aos aspectos ambientais, novos agentes e de mudanças climáticas, o que permitirá entender os complexos de doença e agente, sua viabilidade, transmissão e agressão à espécie afetada, no sentido de melhorar métodos de controle, prevenção e erradicação.

Caprinovinocultura

Desenvolvimento de soluções em saúde animal deve considerar as realidades das diferentes regiões

A Embrapa Caprinos e Ovinos tem desenvolvido estudos zoossanitários e de doenças com referência a epidemiologia, análise de risco, métodos de diagnóstico e impacto econômico das principais enfermidades na caprinocultura e ovinocultura no Brasil. Em 2019, foi lançada uma ferramenta digital chamada CIM Zoossanitário, com informações sanitárias e da prevalência sorológica de quatro doenças de ovinos e caprinos prevalentes na Região Nordeste: Artrite Encefalite Caprina (CAE), Maedi-Visna, Linfadenite Caseosa e Brucelose Ovina. O objetivo é estabelecer melhores estratégias de controle e prevenção.

A ferramenta integra o Centro de Inteligência e Mercados de Caprinos e Ovinos (CIM), um sistema de inteligência territorial que permite compartilhar informações sobre pequenos ruminantes em nível mundial. O módulo CIM Zoossanitário busca também organizar informações e planejar ações para avaliação de programas de controle de enfermidades de caprinos e ovinos nas diferentes regiões; desenvolver métodos de diagnóstico; capacitar técnicos e agentes multiplicadores; treinar produtores; e apoiar a formação de estudantes de graduação e pós-graduação. A plataforma está sendo continuamente alimentada também com dados de outras doenças de caprinos e ovinos.

Conhecimento estratégico

No ambiente do CIM Zoossanitário, os agentes da cadeia produtiva podem ter acesso, inicialmente, ao zoneamento da prevalência das quatro doenças citadas anteriormente em sete estados do Nordeste (MA, PI, CE, RN, PB, AL e SE). Posteriormente, serão disponibilizadas informações sobre leptospirose, clamidiose, micoplasmose, toxoplasmose e neosporose. O zoneamento zoossanitário é uma ferramenta utilizada para determinar quais regiões, dentro de um determinado espaço geográfico, apresentam problemas sanitários e enfermidades, com o objetivo de se estabelecer estratégias de manejo, prevenção e controle. A antecipação às perguntas e a investigação do futuro, no que tange à questão da epidemiologia das enfermidades, é um processo contínuo em sanidade animal para caprinos e ovinos.

Os dados são fruto do trabalho de pesquisa realizado pela Embrapa Caprinos e Ovinos entre os anos de 2013 e 2019, que analisou 19.471 amostras sorológicas em 433 propriedades localizadas em 90 municípios de sete estados do Nordeste. A estruturação das informações, para que fossem disponibilizadas ao público, foi realizada pela Embrapa Territorial (Campinas/SP).

Necessidade de investimentos

carnes bovina, suína e de aves, cadeias que contribuem fortemente para o superávit da balança comercial. No País, metade (62/121) das enfermidades listadas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) são endêmicas (ocorrem habitualmente e com incidência significativa), causando prejuízos aos produtores e à economia. Algumas dessas doenças podem levar à imposição de barreiras não tarifárias ao comércio nacional e internacional. Dessa forma, pode-se afirmar que é barato investir em prevenção de enfermidades no Brasil, pois o benefício supera em muito o montante do investimento necessário. Em algumas cadeias produtivas já bem estabelecidas, como a de bovinos, suínos e aves, os produtores investem no uso de tecnologias, de insumos e de manejos inovadores. Em outras cadeias não consolidadas, ainda existe necessidade de avaliação/adoção e validação de soluções tecnológicas adequadas a cada realidade, além da integração das cadeias de valor, inclusão de pequenos e médios produtores e estabelecimento de políticas públicas eficientes em saúde animal.

Num horizonte de curto a longo prazo, a produção de alimentos de origem animal deve superar alguns desafios, como investir na inteligência epidemiológica; produzir insumos para o diagnóstico precoce e eficiente; prevenir as enfermidades; aperfeiçoar os programas de controle; além de investir em pesquisa científica para dar suporte à escolha das melhores estratégias sanitárias para os vários estados e regiões brasileiras

Em termos de produção de insumos, o avanço da indústria de saúde animal no Brasil é pujante nas cadeias consolidadas (bovinos, aves, suínos e pets). Entretanto, para as outras cadeias em desenvolvimento, existe ainda uma grande lacuna de investimentos. Os pontos cruciais da sanidade animal que requerem mais atenção estão relacionados a formação e capacitação de equipes; maior interação entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), instituições de pesquisa, universidades, indústria e agências de defesa; detecção precoce de enfermidades emergentes e reemergentes; prospecção e pesquisas de novos insumos e formas de prevenção e controle das doenças; intercâmbio de técnicos no âmbito nacional e internacional; e avanço nas abordagens técnicas para auxiliar a vigilância epidemiológica e a defesa sanitária animal.

Caprinovinocultura

Pesquisador Francisco Selmo Alves afirma que saúde dos rebanhos envolve segurança dos alimentos e dos consumidores

Prevenção como prioridade

É fato que a saúde animal caminha para a prevenção em detrimento da cura e do controle, porque prevenir é sempre menos oneroso. O tratamento e o controle de determinadas doenças apresentam custos elevados e algumas vezes ineficazes ou economicamente inviáveis. Portanto, deve-se considerar a prevenção como investimento. Como exemplo, cita-se a vacinação contra a febre aftosa. O caso de aparecimento de um surto no Brasil pode impedir as exportações de carnes bovina e suína, inviabilizando essas cadeias produtivas. Além das barreiras mercadológicas aos outros produtos.

A indústria oferece soluções eficientes para a prevenção das principais doenças animais para a maioria das situações, com a oferta de insumos. Todavia, é preciso entender que esse é um processo complexo e dinâmico. Micro-organismos e parasitas, por exemplo, estão em constante evolução, podendo dar origem ao desenvolvimento de variantes genéticas resistentes aos princípios ativos já desenvolvidos pela indústria. As mudanças climáticas, bem como as alterações produzidas pelo homem no meio ambiente, também têm o potencial de causar desequilíbrios que podem propiciar a emergência de novas enfermidades ou a reemergência de antigas enfermidades até então sob controle.

Nesse contexto, novas expectativas, cenários e demandas quanto aos modelos e aos sistemas de produção visando à saúde e ao bem-estar animal, à valorização do uso de tecnologias adequadas ao local/território e à qualidade dos alimentos estão sendo cada vez mais exigidos pela sociedade. Dado esse aspecto dinâmico, há a necessidade de constante investimento em pesquisa para o desenvolvimento de novas moléculas, vacinas, estratégias de manejo e controles epidemiológicos, entre outros, para assegurar a manutenção da saúde dos rebanhos e a segurança dos alimentos e dos consumidores.

Caminhos para o avanço

É fundamental pesquisar, desenvolver e gerar novos produtos para a saúde animal. A avaliação sistemática do impacto das mudanças climáticas e ambientais, além da complexidade dos sistemas de produção animal sobre as doenças, os hospedeiros e os agentes patogênicos quanto à sua transmissibilidade e à viabilidade no ambiente, requer estudos contínuos sobre novos produtos que possam melhorar a prevenção, o controle e o tratamento.

Para intensificar as pesquisas e o desenvolvimento de soluções, são necessários recursos financeiros contemplados via editais específicos; modernização da infraestrutura laboratorial; contratação de pessoal qualificado; formação de redes e parcerias de pesquisa multidisciplinar; facilitação e melhoria na formação de parcerias público-privadas entre universidades, institutos de pesquisa e indústria farmacêutica; ampliação dos esforços em inteligência epidemiológica em saúde animal; maior intercâmbio entre pesquisadores/professores no Brasil e no exterior; além de estudos de viabilidade técnica, comercial e econômica de novos produtos