Na Varanda

É o CONHECIMENTO que engorda o boi!

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

Frequentemente, nos perguntamos: “Qual deve ser nosso foco? Será o lucro, ou o boi?”. A resposta depende da nossa atividade. Se formos um empresário industrial que, no final da semana, gosta de conviver com a natureza e produzir algo que enobrece, como criar algo admirável, cuidar de um animal de boa genética providencia uma satisfação extraordinária, mesmo se essa atividade representar um investimento com resultado negativo. Mas, penso eu, a maioria de nós trabalha na fazenda para ganhar a vida. Com essa perspectiva, e considerando que o setor se torna, cada ano, mais competitivo, devemos ampliar nossa atenção do animal para os números. O Agro 4.0, a Pecuária de Precisão e, mais importante ainda, a (ILPF) são expressão dessa mudança do “físico” para o contábil.

Quem aproveitou a avalanche de webinários, lives e conferências virtuais durante o ritmo de uma vida pausada durante a quarentena viu, com muita clareza, que a tecnologia está explodindo. Novas realidades, como inteligência artificial, automação de processos de rotina, bem como informação universal e instantânea, se tornaram realidade sem que tivéssemos percebido. Nos bons velhos tempos, frequentávamos feiras e congressos anuais para conhecer as novidades. Hoje, tudo muda e evolui com velocidade assustadora. E, mais importante ainda, a atividade de produzir, transformar, comercializar e consumir alimentos se tornou tão transparente que a dona de casa quer, ou pelo menos pode, conhecer a fazenda de onde veio o produto. Por outro lado, o pecuarista pode (quase) olhar na panela dela para ver como ela prepara (ou maltrata) a carne que ele produziu com tanto esforço, tecnologia e paixão.

A verdade é que estamos todos mais juntos. Produtores, através das suas entidades representativas que nos informam, acompanham e, às vezes, aborrecem através de inúmeros grupos de WhatsApp. As autoridades de sanidade, que controlam a distância, como e onde guardamos as embalagens das seringas. O fornecedor de insumos, que monitora nosso estoque de remédios e defensivos para avisar das datas de validade ou até para informar sobre a necessidade de reposição. E, finalmente, o consumidor, educado pela mídia e inspirado por uma maior consciência com saúde após a pandemia, que procura fornecedores alinhados com sua nova filosofia de vida.

Ou seja, tudo que estava no campo físico, presente e dentro do nosso controle, tornou-se, de repente virtual, fluido e muito mais complexo. Os ensinamentos durante a quarentena mostraram novos temas e uma ampla gama de ferramentas para nossa atualização contínua. Em vez de cuidar do rebanho diariamente, circulando com nosso cavalo entre os piquetes para aplicar a prática milenar do “olho do dono”, nosso filho engenheiro, lá do seu escritório da cidade, fará o mesmo trabalho com drone. Ou seja, gastando bem menos tempo e colhendo imagens e dados muito mais completos do que nosso olhar. Então, se essa é a tendência, está na hora de nos juntarmos aos nossos filhos e/ou filhas, bem como aos mais interessados da nossa equipe do campo para criar uma filosofia de modernização. Depois, desenhar um programa de mudanças e, finalmente, exercitar, diariamente, nossos cérebros para incorporar aqueles conhecimentos que o mercado exige e que nossa realidade aguenta. Seria interessante copiar a prática dos produtores europeus, muitos deles proprietários de BMWs e outros símbolos do bem-estar. Lá todos trabalham juntos. O pai coordena a produção, a mãe, agora apoiada pela filha que acabou um curso técnico de contadora e o filho, mecânico especializado em máquinas agrícolas, cuida dos equipamentos. Todos estão interconectados através de uma rede integrada de aplicativos que permite enxergar a qualquer momento qualquer performance ou problema dos múltiplos processos necessários para criar e engordar boi, plantar e armazenar milho ou produzir leite.

Lembro aqui o que já abordamos uma vez. A cada final de dezembro, devemos fazer um balanço dos ativos e passivos do nosso negócio e definir um preço de venda da fazenda dentro dos critérios objetivos do mercado. Passado o reveillon, nós mesmos vamos “comprar a nossa fazenda” pelo valor que foi estabelecido no balanço do ano anterior. A seguir, definimos nosso plano operacional do ano com previsão da margem de lucro operacional (ou seja, sem incluir riscos e vantagens da oscilação de preços de insumos e do boi) para definir o que vamos fazer técnica, operacional e administrativamente para navegar nessa linha que nos levará até o próximo balanço com a margem pretendida. Tudo isso implica em informação sobre nossa realidade, conhecimento de novas tecnologias que podemos – e precisamos –, incorporar e aplicativos de controle e comunicação para termos uma visão realista em cada momento. Com essa nova atitude gerencial e geracional, estamos ajustando e integrando a prática tradicional do “olho do dono” ao “drone do nosso negócio”. Não é fácil, mas não podemos escapar. Vamos conversar com os jovens, que, certamente, gostarão desse novo olhar!