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A cadeia produtiva da carne bovina diante da COVID-19

Guilherme Cunha Malafaia*

Mesmo que a pandemia do novo coronavírus, no que se refere à crise de saúde, seja estimada de curto prazo, não há perspectivas precisas quanto ao tempo de repercussão da mesma nas atividades econômicas. Entretanto, torna-se relevante entender os seus desdobramentos, há temas que necessitam de maior atenção para um debate aprofundado por parte dos agentes envolvidos na cadeia produtiva da carne bovina brasileira neste momento de pandemia.

Torna-se imperativo entender que esta pandemia colocará no topo do debate global a preocupação com a sanidade animal. As exigências e consistência sobre os sistemas de vigilância e controle de doenças que atingem animais e humanos devem crescer. Esta pode ser uma oportunidade para a cadeia da carne bovina mostrar ao mundo, de forma transparente, como os processos produtivos, tanto no campo como na indústria, são confiáveis.

A preocupação com a segurança alimentar estará fortemente presente na agenda global, já que a recessão e os desajustes nas cadeias de suprimentos podem causar crise de abastecimento, volatilidade de preços e instabilidade social. Restrições ao comércio internacional de alimentos, especialmente, de proteína animal, deverão crescer, por meio de controles rígidos de fronteiras e uma provável preferência por produção local e/ou com indicação de procedência. O Brasil pode mostrar que é um fornecedor confiável de carne bovina, tanto em constância como em segurança.

É de fundamental importância a criação e o fortalecimento dos diálogos entre stakeholders em rede no setor de carne bovina. A integração e a coordenação da cadeia, neste momento, são extremamente necessárias e estratégicas. Talvez seja oportuno romper com a cultura demarcada pela falta de relacionamentos sistêmicos e avançar em modelos colaborativos em rede, já realizado com êxito por países como Austrália, Canadá, China, Estados Unidos, Reino Unido e Uruguai. A Câmara Setorial da Bovinocultura de Corte do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento pode ser um fórum propício para germinar uma ação.

Em relação às políticas públicas, vale pleitear junto à China a negociação de alguns critérios técnicos quanto à exportação, pois o país asiático continuará sendo comprador de carne bovina. Diante disso, a alteração da barreira técnica que impõe idade limite de meses para os animais destinados às exportações viabilizaria a inclusão de sistemas de produção pecuários. Acredita-se, também, ser importante a inserção de linha de crédito aos pecuaristas no próximo Plano Safra, não esquecendo de estimular e aperfeiçoar ferramentas de seguro rural.

A onda digital impacta toda a cadeia produtiva da carne bovina. A maior transformação será no processo de distribuição, seja de insumos, gado ou da carne. A relevância da sanidade, qualidade e sustentabilidade crescerá via interação digital com o consumidor final. Entretanto, é fundamental melhorar o sistema de conectividade no território brasileiro, especialmente no campo.

Por fim, diante das reflexões, busca-se apresentar elementos que contribuam para qualificar os debates dos gestores públicos e privados sobre os desafios da cadeia produtiva da carne bovina neste momento crítico pelo qual passamos.

* Pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do Centro de Inteligência da Carne Bovina. email: [email protected]