Caindo na Braquiária

Parceria ou arrendamento

Alexandre Zadra

Havia-se passado duas luas e 15 léguas resumidas em quase 18 dias da dura jornada da comitiva quando Zé Preto, conhecido no Pantanal como o mais confiável ponteiro daquelas bandas, avistou a tão esperada placa da Fazenda Rifaininha, destino final para os 1.500 garrotes que saíram da Fazenda Mutum para ficarem no arrendamento de Terras Altas, longe da enchente que atinge a Rifaininha de novembro a maio. Pela contagem final, feita com prática e rapidez, a comitiva havia perdido apenas cinco animais pelo caminho, sendo, então, entregues 1.495 bois. Aqueles que olham Zé Preto não imaginam que aquele franzino caboclo, vestindo seu chapéu Carandá e machete na cintura, tem sua própria boiada com mais de 800 animais engordando em parceria nas terras de terceiros.

Como haviam chegado na Rifaininha pelo almoço, a comitiva preparou um tereré para umas boas risadas aguardando Biguá, o cozinheiro, aprontar a boia. E foi nessa hora que Joãozito Gomes, jovem e esperto culatreiro da comitiva, quis saber mais sobre as parcerias feitas por Zé Preto a fim de seguir os passos daquele experiente líder e, quem sabe, ter também, um dia, quase mil bois.

Joãozito, curioso, perguntou a Zé Preto: “Zé, como funciona esse negócio de arrendamento ou parcerias de gado na terra dos outros ? Sobra quanto para quem põe o gado e para o dono da terra?”.

De prontidão, Zé Preto devolveu a cuia vazia de tereré a quem estava servindo, dando atenção merecida ao jovem rapaz ávido por informações importantes para seu futuro, explicando como funcionava: ““João, tem um punhado de jeito de mexer com gado sem ter terra. Ou você paga para o dono da terra mensalmente com um valor fixo por cabeça, ou faz parceria”.

E Zé continuou: “Antes de tudo, você tem que saber que tipo de gado vai colocar na terra de outro. Pode ser boi magro e novilha para engordar ou vaca criadeira. Caso a terra você vai colocar seu gado não tenha mão de obra boa, sugiro que coloque categorias para engorda, pagando um valor fixo por cabeça, que fica em torno de 12% a 15% do valor da arroba/cabeça/mês. Nesse modelo, você fica responsável pelo sal e pela mão de obra para cuidar do gado. Caso seja um gado bom de genética e a fazenda tenha bastante pasto, seus animais ganharão de [email protected] a [email protected]/ano, sobrando [email protected] a [email protected] por cabeça/ano.

Sem tomar fôlego, Zé foi explicando: “Por vezes, o dono da terra prefere parceria, sugerindo rachar o ganho de peso ou dividindo a produção de bezerros. Algumas vezes, o dono da terra fica responsável pela manutenção da fazenda e da mão de obra, ficando para o dono do gado o custo do sal mineral e produtos gastos com o gado; outras vezes, pode ocorrer o inverso. Tanto em um quanto em outro, é rachado o ganho de peso no período que o gado ficou no arrendamento. Bom para os dois lados, pois, nesse caso, um tem o gado e o outro tem a terra sem ninguém colocar dinheiro”.

E, finalizando, Zé Preto emendou: “A parceria mais difícil, para mim, é quando tenho vacas parideiras e não tenho arrendamento que posso cuidar, pois, como estamos lidando com reprodução, temos que zelar desde a parição até a desmama para que a produção seja dividida. Entre 20 e 25 bezerros machos/100 vacas ficam para o dono da terra, e o restante dos bezerros produzidos, para o dono do gado. Nesse sistema, novamente, ninguém coloca dinheiro, o dono da terra recebe 20 a 25 bezerros machos/100 vacas (seria entre R$ 35mil e R$ 40 mil/100 vacas no pasto). O detalhe é que a vacada deve ser fértil, desmamando, pelo menos, 75% de bezerros para que compense para o dono do gado, que entrou com as vacas e os touros, restando, para ele, 50 bezerros desmamados. Se posso dar um conselho que vai te servir para você errar menos é sempre colocar o gado em terra de gente boa, mesmo que a terra não seja de primeira, pois, normalmente, perdemos dinheiro quando lidamos com gente desonesta”.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected] Conheça www.crossbreeding.com.br