Reprodução

Sintonia fina

Manejo nutricional influencia diretamente na capacidade reprodutiva das matrizes e deve começar antes da estação de monta

Fernanda Nunes Marqui1

Sabemos que o sucesso da reprodução de um rebanho é de origem multifatorial e podemos considerar que, entre os fatores ambientais, a nutrição é o que influencia de maneira mais direta nesses resultados. É por meio da dieta que o animal irá receber nutrientes específicos, ne cessários para o desenvolvimento de seus gametas e também para a ovulação, a fertilização, o desenvolvimento do embrião e a manutenção da gestação, bem como para a síntese e a manutenção de concentrações de hormônios e metabólitos indispensáveis nesses processos citados. Ainda que façamos seleção genética para precocidade, por exemplo, se não garantirmos condições de manejo e nutrição adequadas, os animais não expressarão todo o seu potencial genético, principalmente porque características reprodutivas possuem baixa herdabilidade e, portanto, sofrem grande influência do ambiente.

No cenário brasileiro, os dados mostram que os fatores de maior impacto negativo sobre a eficiência reprodutiva e produtiva dos bovinos são o manejo nutricional inadequado e a baixa disponibilidade de alimentos de qualidade em determinadas regiões e estações do ano. O fornecimento de dietas em quantidade adequada, mas de baixa qualidade, é um dos principais fatores de redução da eficiência reprodutiva na pecuária. Baseado nisso, adota-se a estratégia de concentrar a estação reprodutiva (estação de monta) do gado de corte no período de maior disponibilidade e qualidade das forrageiras (primavera e verão).

É imprescindível destacar que a nutrição adequada das nossas futuras reprodutoras deve começar antes mesmo de seu nascimento: matrizes que recebem dietas de baixo nível nutricional durante a gestação produzem bezerras com primeira ovulação tardia e menor taxa de ovulação média devido ao efeito direto no desenvolvimento do ovário fetal. Após o nascimento, o efeito materno ainda se mantém, visto que, se a matriz recebe uma dieta adequada no período pós-parto, sua progênie terá maior ganho de peso e redução da idade à puberdade. O mesmo acontece quando as bezerras recebem dieta de elevado nível nutricional durante sua fase de crescimento. Ou seja, devemos sempre nos lembrar de que o planejamento da reprodução de nosso rebanho começa muito antes da estação de monta.

A idade à primeira ovulação é influenciada pela genética e pela nutrição. No entanto, é importante ressaltar que os cuidados com novilha que atinge a puberdade e torna-se gestante precocemente não devem parar por aí. O fato de não ter completado o seu crescimento corporal, necessitar garantir simultaneamente o desenvolvimento do feto e, após o parto, a lactação, tornam essa categoria animal extremamente exigente. Quando mantidas em pastagem sem suplementação adequada, as primíparas são as fêmeas com maior período de anestro pós-parto e menor taxa de concepção/inseminação artificial. Ainda que subjetivo, o escore corporal (EC) é um bom indicador do status nutricional e desempenho reprodutivo em fêmeas bovinas. Inclusive, já foi demonstrada sua correlação com a ciclicidade ovariana e taxa de prenhez em vacas de corte. Quando submetidas aos protocolos de inseminação artificial em tempo fixo (IATF), o escore de 2,5 (escala de 1-5) é o mínimo para se obter resultados aceitáveis de prenhez em vacas zebuínas. Abaixo disso, não há reservas de gordura e de energia para que o animal mantenha seu metabolismo e ainda destine à reprodução (o último sistema do organismo para o qual a energia é destinada). Quando inseminadas com escore >3, as fêmeas emprenham mais cedo na estação de monta e são obtidas melhores taxas de prenhez e manutenção da gestação aos 45 e 90 dias. Porém não se engane pensando que, quanto mais gorda a reprodutora, melhor será o resultado de prenhez: EC >4 é prejudicial à reprodução em razão da elevada deposição de gordura nos ovários.

O EC ao parto é também bastante utilizado por ser considerado um fator determinante no intervalo entre o parto e o primeiro cio pós-parto, bem como na taxa de prenhez desse ciclo. Nas últimas semanas de gestação e nas primeiras após o parto, é comum que vacas com maior produção de leite apresentem um período de balanço energético negativo (BEN) devido à elevada demanda de energia para a produção de leite, associada à redução na ingestão de alimentos. Esse período é caracterizado por baixa concentração sérica de glicose, insulina e fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-I), o que pode alterar a pulsatilidade de LH e geralmente se reflete em alterações da função ovariana, com consequente redução da fertilidade e atraso na primeira ovulação pós-parto. Esse período de BEN coincide com o desenvolvimento dos oócitos disponíveis para a próxima ovulação, que, nessas condições, crescem em um ambiente folicular com composição bioquímica adversa em razão das alterações nutricionais, resultando na ovulação de estruturas de qualidade e na capacidade de desenvolvimento inferiores.

Energia

A energia é o principal nutriente que afeta a reprodução das fêmeas bovinas, e seu consumo em níveis insuficientes está relacionado com atraso na idade à puberdade, maior intervalo entre parto e primeiro cio pós-parto, além de reduções nas taxas de concepção e de prenhez. A adição de gordura na dieta aumenta a disponibilidade energética em, aproximadamente, duas vezes à liberada por carboidratos e deve ser considerada em todas as fases da vida da fêmea, uma vez que altera os mecanismos metabólicos e hormonais, levando a um aumento na capacidade funcional dos ovários, bem como a uma redução no período anovulatório pós-parto.

Nas fases de pré e pós-inseminação, a dieta hiperlipidêmica contribui para o aumento do número e tamanho dos folículos ovulatórios e, indiretamente, para a formação de corpos lúteos maiores e com maior capacidade esteroidogênica, resultando em maior produção de progesterona. Essa maior concentração de progesterona plasmática parece ser benéfica em vacas de corte e leite por contribuir para o processo de fertilização e sobrevivência do embrião. Adicionalmente, a suplementação com ácidos graxos poli-insaturados pode auxiliar na redução de perda embrionária e, assim, aumentar a vida útil do corpo lúteo.

A inclusão de dietas ricas em ácidos graxos de cadeia longa pode auxiliar positivamente na retomada da atividade ovariana pós-parto, pois aumenta a gliconeogênese hepática e, assim, as concentrações de insulina no plasma sanguíneo e de IGF-I no fluido folicular, hormônios conhecidos por beneficiar a população de folículos médios. Assim, o fornecimento de gordura na dieta pode acelerar o intervalo entre o parto e a primeira ovulação ao reduzir a vida útil do CL após o parto e elevar o número e o tamanho das estruturas foliculares, aumentando a taxa de concepção no primeiro serviço.

Proteína

Administrar níveis adequados de proteína na dieta das matrizes gestantes e das fêmeas em crescimento é fundamental para garantir o completo desenvolvimento ovariano e uterino, e em todas as demais fases para promover o desenvolvimento folicular. A nutrição deficiente em proteínas tem sido associada ao atraso na idade à puberdade, à redução na manifestação de cio e na taxa de concepção ao primeiro parto, bem como a uma ocorrência maior de morte embrionária. Por outro lado, o fornecimento proteico em excesso é igualmente prejudicial à reprodução, resultando em redução na taxa de concepção e em aumento no intervalo entre o parto e a primeira ovulação.

Apesar de haver correlação positiva entre o consumo de elevadas quantidades de proteína bruta (PB) na dieta e a produção de leite, essa prática tem sido associada à redução no desempenho reprodutivo das vacas. A suplementação com excesso de PB (>19%), especificamente com elevadas concentrações de proteína degradável no rúmen (PDR), pode resultar no aumento da concentração de ureia, amônia ou qualquer outro metabólico tóxico de proteína em nível plasmático e comprometer a reprodução. Esse efeito negativo ocorre como resultado do acúmulo de elevadas concentrações de ureia e amônia no sangue e também nos fluidos folicular e uterino, provocando queda do pH e efeito tóxico sobre os oócitos, espermatozoides e embriões no útero. Estudos mostram que a presença de ureia acima de 20 mg/dl no sangue reduz a taxa de prenhez de 60% para 20% em vacas. Em vacas leiteiras de alta produção, é recomendado o fornecimento de 17% de PB, das quais 65% devem ser formadas por PDR e 35%, por proteína não degradável no rúmen. Além disso, o excesso de ureia no útero torna a progesterona incapaz de manter o pH local e, com isso, afeta negativamente a funcionalidade do corpo lúteo gestacional e o desenvolvimento/a sobrevivência embrionária.

Por último, mas não menos importante, a relação negativa entre o consumo de proteína e a eficiência reprodutiva é o custo energético para a metabolização do excesso de nitrogênio: a conversão de 1 g de nitrogênio em ureia requer 7,3 kcal, ou seja, a quantidade necessária para a produção de 1,5 litros de leite ou à perda de 200g de gordura corporal. Essa elevada necessidade energética contribui ainda mais para aumentar o BEN e alterar negativamente o desempenho reprodutivo.

Por fim, é importante ressaltar que a nutrição, assim como a reprodução e a sanidade, deve ser acompanhada de perto por um profissional da área, pois tudo o que dissemos anteriormente não é uma receita que se aplica a todos os rebanhos. Temos que considerar os efeitos de diversos fatores, tais como genética, raça, manejo, categoria animal e os objetivos de criação.

1Médica-veterinária (UENP/Bandeirantes), mestre e doutora em Biotecnologia Animal com ênfase em Reprodução Animal (UNESP/ Botucatu) e supervisora técnica de Serviços na CRV Lagoa