Caprinovicultura

Suplementação favorece a produtividade

Estratégias como o creep feeding contribuem para o ganho de peso dos cordeiros e para a função reprodutiva das matrizes

Denise Saueressig [email protected]

A alimentação diferenciada dos pequenos ruminantes nas primeiras semanas de vida pode ajudar a incrementar a produtividade do rebanho. A estratégia chamada de creep feeeding é uma suplementação à mamada e exclusiva aos animais jovens. A oferta do alimento sólido em uma estrutura específica para esse manejo normalmente começa entre o sétimo e o décimo dia de vida, explica o zootecnista Fernando Reis, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos no Núcleo Centro-Oeste, que fica na Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS. “A partir do momento em que a instalação está pronta, o criador pode inicialmente induzir a entrada dos animais, mas com o passar dos dias, esse processo ocorre naturalmente”, detalha.

Durante o período da suplementação, o produtor pode optar entre deixar o alimento à vontade, o dia todo, ou ofertar em horários pré-determinados. Na fase inicial, é comum que o consumo seja menor, mas a média calculada é de cerca de 200 gramas/cabeça/dia. Além de uma ração adequada à faixa etária e com boa aceitabilidade, o pesquisador recomenda que as estruturas sejam instaladas próximas aos bebedouros ou cochos de sal, onde as ovelhas permanecem agrupadas por mais tempo. Em períodos chuvosos, o ideal é providenciar a cobertura dos comedouros. “O creep deve ser de fácil acesso, iluminado, limpo e seco. As dimensões sugeridas de entrada são em torno de 25 cm a 30 cm de altura e 15 cm a 17 cm de largura. O cocho deve ter 30 cm de largura, com acesso pelos dois lados, profundidade de 20 cm e altura dos pés de 10 cm”, orienta Reis, lembrando que podem ser aproveitados materiais da própria fazenda para a construção do comedouro.

Além do benefício direto no desempenho das crias, o creep também auxilia no retorno mais rápido das matrizes à condição reprodutiva pela redução da frequência das mamadas. O pesquisador cita um trabalho apresentado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), que indica que a suplementação influenciou o retorno ao estro das matrizes, com antecipação de 14 dias, e melhor escore de condição corporal no desmame. “O ganho médio diário dos cordeiros em creep feeding foi de 210,5 g/dia, superior em 64 g/dia, quando comparado aos animais não suplementados, proporcionando um desmame antecipado em 21 dias”, observa.

Importância do acompanhamento

Na Fazenda Alto das Figueiras, em Encruzilhada do Sul/RS, o criador André Camozzato utiliza o creep feeding desde 2015, quando passou a intensificar o processo de terminação de cordeiros. A estratégia é adotada de formas diferentes e que seguem determinadas variáveis. Em épocas de deficiência de pastagem, ovelhas com partos gemelares recebem suplementação e, portanto, os recém-nascidos acompanham as mães ao cocho.

A partir dos 30 dias de vida, os cordeiros passam a receber a suplementação em estrutura com ingresso restrito, ou seja, em ambiente separado das matrizes. “É um momento excelente para a conversão alimentar”, justifica. O produtor ressalta que o sistema foi essencial este ano, quando uma severa estiagem atingiu o Rio Grande do Sul durante todo o verão. “Foi a garantia de que os cordeiros teriam acesso a uma nutrição adequada para o seu desenvolvimento”, resume.

Em anos de clima favorável e de oferta forrageira satisfatória, mesmo os animais de partos múltiplos têm acesso ao creep a partir dos 30 dias. No caso de partos simples, a suplementação inicia em torno dos 60 dias, já que tanto as mães quanto os cordeiros estarão sobre pastos de boa qualidade. Todo o processo é conduzido com acompanhamento de ganho de peso desde o dia do nascimento e, se necessário, são realizadas adaptações ao manejo nutricional. “Nosso objetivo é conseguir, pelo menos, 300 gramas de ganho de peso ao dia e cordeiros que chegam aos 40 quilos por volta dos 130 dias de vida. Nesse sistema, os machos estão prontos para o abate e as fêmeas entram em preparação para o encarneiramento aos oito meses”, descreve.

Equilíbrio no ganho de peso

O produtor André Camozzato, que também é coordenador da Câmara Setorial da Ovinocultura da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, considera a relação custo/benefício do creep feeding bastante favorável devido aos ganhos de produtividade. “Com um produto de qualidade, com cerca de 20% de proteína bruta, podemos converter de 2,5 a 3 quilos de suplemento, em 1 quilo de cordeiro. O mercado oferece diversos produtos, e o que utilizamos tem 21% de proteína bruta e custa cerca de R$ 1,80/kg”, afirma.

O criador explica que a oferta de alimento é realizada duas vezes ao dia para cada lote. “É importante ter largura de cocho para que todos os animais tenham acesso ao mesmo tempo e evitar problemas com a dominância. Procuramos manter um cordeiro a cada 20 cm e dividimos os lotes conforme a faixa etária, o que faz com que o ganho de peso se mantenha equilibrado. Marcamos os cordeiros com um spray animal e, assim, conseguimos identificar se algum deles não estiver comendo para fornecer o alimento de forma separada”, relata. É interessante que a estrutura possa ser regulada para que o espaço seja ampliado à medida que os animais crescem. Um galpão de apoio de manejo também serve para a oferta do alimento específico em épocas chuvosas.

Camozzato vem adotando o creep feeding, a suplementação das fêmeas e a terminação dos machos. O criador conta que no ano passado ainda utilizou a estratégia da mamada controlada. “Deixamos os cordeiros com as mães somente à noite para uma recuperação de escore mais rápida e entrada em reprodução ao mesmo tempo do que o restante do rebanho. Para as matrizes que pariram no final, fizemos o desmame com pouco mais de 60 dias, para que pudessem voltar à reprodução no período normal”, informa.

Este ano, com a adoção da terminação, a Fazenda Alto das Figueiras produziu 250 cordeiros com uma média de 42,43 quilos aos 170 dias, tempo que se prolongou devido aos efeitos da estiagem sobre as pastagens. “O projeto, para os próximos anos, é manter o foco em todas as etapas do ciclo ovino anual e aumentar a escala sem abrir mão da qualidade”, salienta. O objetivo é alcançar a produção de 10 mil quilos (equivalente animal vivo), e ainda comercializar cordeiras para reprodução.