Leite

Estímulo ao consumo

Rações aromatizadas podem ser alternativas para para manter o desempenho de vacas leiteiras durante períodos de transição alimentar

Henrique Freitas1

Em cenários de elevação no preço das commodities, a estratégia de adicionar aroma às rações pode ser uma boa alternativa para aumentar a aceitabilidade das vacas à substituição de tradicionais alimentos, como farelo de soja e milho. A estratégia pode ser usada para minimizar rejeição às modificações em fórmulas de rações ou, até mesmo, para driblar a inserção de coprodutos no cocho, aumentando a aceitabilidade e garantindo o desempenho dos animais, que são extremamente sensíveis a mudanças na dieta. Também pode ser adotada para estimular sua procura pelas cabines de ordenha mais vezes ao dia.

Isso acontece porque a permanência prolongada da ração na boca do animal favorece a solubilidade e percepção dos agentes aromatizantes através do sistema retronasal, uma vez que 80% do que é percebido como gosto de um alimento é, na realidade, seu cheiro. Odores desagradáveis ou os sabores amargos podem, sim, levar a uma baixa ingestão de ração, afetando consequentemente a produção e o desempenho.

Atualmente, cerca de 20% de todo aroma e palatabilizante utilizados na indústria de ração animal são destinados para ruminantes. Esses aditivos não nutricionais são utilizados em rações, minerais e sucedâneos lácteos em sua maioria. E podem modificar o comportamento animal (ex: seleção de alimentos) de forma a afetar sua saúde e seu desempenho. Veja como o produtor de leite pode se beneficiar com a utilização dessa tecnologia:

Consumo de matéria seca

O consumo de matéria seca é de fundamental importância na nutrição de vacas leiteiras, pois estabelece a quantidade de nutrientes disponíveis para sua saúde e produção. Fatores como sabor, odor, textura, aparência visual de um alimento, status emocional do animal, interações sociais e o aprendizado podem modificar a intensidade de consumo (Mertens, 1994). Assim, o uso de aromatizantes pode ter efeitos benéficos sobre o consumo de matéria seca e saúde ruminal. Nos ruminantes, o consumo é influenciado por agentes externos (ex: clima, manejo, etc), características do próprio animal (peso vivo, lactação, idade) e finalmente pelas características físicas e químicas da dieta. Tamanho de partícula, dureza do pellet e quantidade de forragem na TMR são exemplos de características físicas que podem afetar o consumo dos animais. Já o sabor e odor da dieta, são características químicas que impactam na atração pelo alimento.

Balanço energético negativo

As vacas leiteiras de alta produção necessitam imediatamente após o parto, ingerir grande quantidade de nutrientes, particularmente energia e proteína para serem capazes de sustentar a síntese de leite, que aumenta linearmente até atingir um pico entre as 4 e 8 semanas pós-parto. No entanto, o pico de ingestão de matéria seca ocorre somente por volta das 10 a 12 semanas pós-parto. Este atraso no pico de ingestão de matéria-seca relativamente ao de produção leiteira resulta num balanço energético negativo (BEN) que dura cerca de 60 dias. Assim, o BEN é particularmente importante na vaca recém-parida.

O uso dos aromatizantes ajuda a estimular o consumo de alimento destes animais, diminuindo o déficit de nutrientes. Nessa fase que o animal se encontra, estratégias que estimulem um maior consumo de matéria seca irão ajudar a reduzir doenças metabólicas (ex: fígado gorduroso ou esteatose hepática), melhorar o escore de condição corporal e facilitar o retorno a reprodução, fator extremamente importante para o sucesso das fazendas leiteiras.

Frequência de alimentação e controle do pH ruminal

Estudos têm demonstrado que a utilização de aromatizantes faz aumentar a frequência de alimentação dos animais, o que tende a incrementar a produção de leite e reduzir problemas de saúde (NRC 2001). Ao ingerir menores porções de alimento e mais vezes ao dia, as oscilações de pH no rúmen tendem a diminuir, promovendo, assim, maior saúde ruminal (Figura 1).

Quando há maior controle do pH ruminal, há maior proliferação de populações de bactérias benéficas que degradam fibra, o que, por sua vez, melhora a digestão de FDN (fibra solúvel em detergente neutro), aumentam produção de propionato no rúmen e incrementa a produção de gordura no leite. Em uma revisão de 35 experimentos de frequência alimentar em vacas leiteiras, Gibson (1984) relatou que o aumento da frequência alimentar para quatro ou mais vezes por dia, aumentou em 7,3% a gordura no leite e 2,7% a produção de leite.

Em dietas ricas em amido (rica em carboidratos de rápida fermentação ruminal, como o amido do milho), o aumento da frequência alimentar se torna ainda mais benéfico para saúde e desempenho do animal. Esse tipo de dieta tem alto poder acidogênico no rúmen e, com aumento na frequência de alimentação, há maior capacidade de tamponamento do rúmen e produção de saliva, tornando o ambiente ruminal mais estável, prevenindo desordens metabólicas (OWEN citado por BORGES et al., 2009).

Bem-estar e confiança

O estudo do comportamento animal (etologia) vem se intensificando nos últimos tempos e têm sido considerados como ferramentas úteis para avaliar as condições de bem-estar animal, dando acesso a informações não disponíveis por indicadores biológicos, por exemplo, emoções positivas em relação ao ambiente que podem ser observadas através de testes de satisfação e preferência dos animais (Dawkins, 2004).

A utilização de aromas em rações estimula sentimentos, cria emoções e memórias, que podem gerar sensação de confiança e bem-estar animal. Depois do contato de moléculas aromáticas com os sistemas olfativos, receptores específicos são expressos no epitélio, especificamente, nos cílios dos neurônios olfatórios, que promovem uma sinalização química e transmite a percepção dos aromas para o cérebro.

A escolha certa do produto e definição da estratégia é fundamental para garantir que tenhamos sucesso na adoção desta tecnologia. Por isso, a decisão de utilizá-lo ou não deve

1 Gerente de Produtos Especialidades Nutricionais e Aditivos Bovinos de Leite Nutron/Cargill