Mercado

É hora de PLANEJAR

O Brasil agrícola continua a todo vapor. Exportações em alta, novos mercados internacionais, produção firme no campo. Segundo a ministra de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, o fato do país exportar cada vez mais alimentos não irá prejudicar o abastecimento interno. É isso que esperamos. O país em crise depende de alimentos de qualidade para amenizar o problema.

No setor de carnes não é diferente. A China continua comprando a carne brasileira, embora sinalizando que não deve aumentar as aquisições além do que já vem fazendo. Ainda temos, ocasionalmente, a paralisação de um ou outro frigorífico, mas nada que afete a produção de forma significativa.

Enfim, os produtores brasileiros devem ficar atentos a tudo o que acontece por aí, mas é dentro da propriedade que as principais ações devem ser tomadas. O caos vai passar e aquele que se planejar melhor vai sair da crise mais fortalecido.

No quadro Preços do Boi Gordo no Mundo, podemos observar os valores da arroba do boi gordo, em Dólares Americanos, em quatro dos principais países exportadores mundiais, no período compreendido entre os dias 16 de abril e 15 de maio de 2020

No período avaliado, houve queda no valor da arroba no mercado internacional para os quatro países citados. A queda foi bastante acentuada, da ordem de 9,8%, tornando o produto bem mais barato em escala mundial. A exceção ficou por conta da Austrália, cuja desvalorização foi de apenas 0,83%, mostrando inclusive, ao final do período avaliado, uma recuperação no valor da arroba, que passou de US$ 58,06 no dia 16 de abril para US$ 59,20 no dia 15 de maio (valorização de 1,96%).

A maior retração observada, quando comparamos o atual período com o anterior, foi da Argentina (15,94%). No entanto, muito em função da valorização da moeda americana frente ao real, o Brasil apresentou a maior queda dentro do período analisado, da ordem de 12,33%, fechando o período a US$ 32,34. Mesmo assim, a diferença entre os dois países sul-americanos aumentou, tornando a carne argentina mais vantajosa no mercado internacional. Nos Estados Unidos, a desvalorização, no período, foi de 12,76%, com o produto sendo comercializado a US$ 51,98 no dia 15 de maio.

O preço da carne brasileira fechou o período em 60,73% do preço da carne americana. Estes valores fazem do Brasil um exportador muito mais vantajoso para mercados como a China, por exemplo, que mantêm em alta suas compras por aqui.

O gráfico Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF (Unidade da Federação) mostra a variação de preços da arroba a prazo em nove das principais praças pecuárias do Brasil. O levantamento dos preços foi realizado entre os dias 16/04 e 15/05/20.

O mercado interno brasileiro foi duramente afetado pela pandemia e ainda não mostra sinais de recuperação. Os valores de referência para a arroba do boi gordo a prazo, que passavam um pouco dos R$ 200,00 antes do Covid-19, fecharam o período em R$192,00. A média no estado de São Paulo, no período analisado, foi de R$193,55, ou seja, 1,41% menor do que no período anterior. Os nove estados avaliados apresentaram queda neste valor, em uma média geral de 1,57%, caindo de R$185,53 para R$182,62. O cenário é conhecido dos produtores, com altos e baixos mais do que esperados. No entanto, o que difere nossa situação no momento, é a incerteza quanto ao futuro. Ao escrever esta coluna, em meio aos feriados antecipados no final do mês de maio, ainda não sabíamos quando o isolamento terminaria e, com ele, a volta à normalidade.

Considerando a situação de cada estado, verificamos que a maior queda no período foi novamente no Estado de Goiás, da ordem de 2,43%. Na sequência tivemos Santa Catarina, com 2,21% de queda, Mato Grosso com 2,12%, Paraná com 2,02%, São Paulo com 1,41%, Mato Grosso do Sul com 1,23%, Rio Grande do Sul com 1,04%, Minas Gerais com 0,98% e Pará com 0,74%.

Segundo a Scot Consultoria, o período avaliado fechou com uma leve melhora na oferta de boiadas terminadas. Apesar de uma quantidade pequena de negócios no setor, os frigoríficos estão ativos e fazendo ofertas de compra. Assim, apesar da queda geral nos preços, o mercado parece firme. Estamos entrando na época seca do ano, o que faz com que os pecuaristas que não têm pasto ou que não se prepararam para a estação, naturalmente, aumentem a oferta. Precisam liberar suas pastagens. Aqueles pecuaristas mais precavidos, cuja gestão permite que mantenham seus animais por mais tempo na fazenda, podem vir a se beneficiar por preços melhores em um futuro próximo.

O próximo gráfico, Média do preço da desmama, apresenta a média dos preços pagos pelo macho Nelore desmamado de 180 kg, praticado em oito estados brasileiros, pesquisados entre os dias 16/04 e 15/05/20.

Observamos, no período avaliado entre os dias 16 de abril e 15 de maio, uma leve queda nos preços da desmama para a categoria de machos Nelore de oito meses, com 180 kg de peso vivo. No período anterior a média dos oito estados avaliados foi de R$1.627,50; agora, R$1.614,30, queda de 0,81%. Esta queda reverte a tendência que vínhamos tendo de alta para esta categoria. Os estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul apresentaram queda no valor da desmama, da ordem de 0,88%, 0,46%, 2,76% e 2,67%, respectivamente. Os demais estados (Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará) mantiveram os seus valores de desmama exatamente iguais aos do período anterior. São Paulo tem o bezerro mais caro, cotado a R$1.982,50, em média, e o Rio Grande do Sul, o mais barato: R$1.314,00.

Na coluna anterior dissemos que a tendência destes preços é de alta daqui para frente. Erramos, mas é difícil realmente prever alguma coisa neste cenário no qual nos encontramos. A época é de reposição, mas não dá para confiar em bola cristal. Os recriadores e invernistas devem se preparar bem, com uma boa gestão e manejo de dados, para que surpresas não peguem ninguém desprevenido.

O gráfico a seguir, Relação de Troca Média, mostra as relações de troca do bezerro macho desmamado e do boi magro com o boi gordo, no período de 16/04 a 15/05/20.

Contrariando a tendência do período anterior, a relação de troca média entre desmama e boi gordo voltou a subir neste período, subindo de 1:1,84 para 1:1,90. A balança, neste período, pendeu para o lado do invernista, que pode comprar mais bezerros com a mesma quantidade de bois gordos vendidos. Apesar da queda no valor da arroba do boi gordo, a queda no valor da desmama foi mais acentuada. No Rio Grande do Sul a relação de troca é a mais favorável ao recriador, que consegue comprar 2,26 bezerros com um boi gordo. Em todos os estados a relação de troca melhorou. Na média, a alta no índice foi de 3,78%. São Paulo continua sendo o estado onde esta relação é mais baixa, de 1:1,63.

Na categoria boi magro a relação de troca com o boi gordo apresentou um cenário ligeiramente diferente. A média de troca permaneceu estável, passando de 1:1,16 para 1:1,17. A menor relação de troca nesta categoria foi verificada em São Paulo, onde o índice ficou em 1:1,04, e a maior no Estado de Minas Gerais. O comportamento do índice foi variado em cada estado, sendo que subiu em Goiás e no Paraná, caiu em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso e se manteve inalterado no Pará e no Rio Grande do Sul.

A instabilidade política no Brasil tem causado danos cuja extensão não é sabida ainda. Quando a pandemia passar e o Brasil voltar a funcionar em sua plenitude será possível avaliar as consequências de todo este desmando. Perdemos mais um ministro (Saúde, outra vez...) desde o mês passado. Mas, felizmente, ao que parece, nossa brava ministra está firme e realizando um trabalho sério e competente. Está provado que, sem interferências políticas em todos os níveis de governo, a turma técnica consegue desenvolver os trabalhos a contento, da forma como se propuseram.

Cabe ao setor agropecuário continuar trabalhando firme, focado. Ao terminar este período sairá mais fortalecido, com certeza. Mais uma vez o país agradece ao setor pelos resultados positivos que obtém, sustentando uma economia capenga em função do excesso de gastos, alguns necessários, outros nem tanto, decorrentes da Covid-19.

Antony Sewell Engenheiro Agrônomo