Cria

Qualidade da concepção à terminação

Nutrição de novilhos superprecoces, que saem da apartação para o confinamento, deve priorizar formação de músculos e gordura

Dicastro Dias de Souza1

O Brasil é um país que se destaca pela grande área territorial e por sua vocação para produção de alimentos. A bovinocultura de corte é umas das atividades de maior importância no agronegócio em termos socioeconômicos, pois se desenvolve em quase todos os municípios com uma grande diversidade de raças, cruzamentos, formas de criação e manejo. Neste cenário, criadores vem buscando a intensificação da produção de carne, pois o sistema traz vantagens bastante significativas, como maior giro de capital, aumento na escala de produ Qualidade da concepção à terminaçãO Nutrição de novilhos superprecoces, que saem da apartação para o confinamento, deve priorizar formação de músculos e gordura Dicastro Dias de Souza1 ção dentro da propriedade, aumento do desfrute do rebanho, melhoria da receita e carne de melhor qualidade.

Uma das alternativas para intensificar a produção é a criação de novilhos superprecoces, animais que vão para o confinamento logo após a apartação. São animais abatidos com idade entre 13 e 15 meses e peso médio de 480 kg, e apresentam carcaça com características adequadas tanto para o mercado interno como para o externo. Mas, para ter o resultado desejado, é necessário atentar para alguns pontos: utilização do cruzamento adequado; cuidado com a vaca que vai nutrir o bezerro – tanto na fase fetal quanto na fase de cria-; e o correto manejo alimentar do animal confinado.

A correta nutrição das matrizes irá potencializar ao máximo a síntese de tecido muscular e adiposo (gordura) no feto, pois as fibras musculares fetais são formadas entre o segundo e o oitavo mês da gestação, ou seja, o animal nasce com a quantidade de células já definidas. Esse processo é denominado hiperplasia, o outro processo é a hipertrofia, que é o aumento do músculo por meio do crescimento (em tamanho), através da deposição de proteína, o qual se inicia com o nascimento do animal. A alimentação das vacas também irá atuar na formação de órgãos como fígado, coração, testículos, ovários e glândulas mamárias, influenciando no desempenho da cria nas fases seguintes até a engorda. Com isso, podemos afirmar que o efeito do ambiente, mesmo que indiretamente, influenciará o feto, que terá sua vida produtiva comprometida caso a mãe passe por processo de escassez alimentar.

De forma resumida, uma boa nutrição da vaca proporciona ao bezerro uma maior quantidade de células musculares, e isso reflete em maior potencial de ganho, já que essas células poderão sofrer o processo de hipertrofia. Já o tecido adiposo (gordura) apresenta também as duas formas de crescimento, hiperplasia e hipertrofia; contudo, a hiperplasia se dá durante o final do desenvolvimento fetal e o início da vida, e essa quantidade de células adiposas dá uma maior deposição de gordura, melhorando muito a qualidade da carne devido a uma maior quantidade de gordura intramuscular, que lhe confere mais suculência e sabor.

Bezerros recém-nascidos

Após o nascimento, é imprescindível que os bezerros mamem o colostro nas primeiras horas de vida até, no máximo, seis horas após o parto, pois, após esse período, há um decréscimo na absorção das imunoglobulinas. O colostro é a primeira secreção da glândula mamária produzida após o nascimento e é rico em nutrientes, como proteína, gordura, minerais e vitaminas, além de importantes imunoglobulinas, que são os anticorpos que irão proteger as crias em suas primeiras semanas de vida. Então, se a colostragem for falha ou deficiente, comprometerá toda vida produtiva dos animais. E, se ela não ocorrer, o bezerro certamente morrerá.

O leite é a base da alimentação do bezerro recém-nascido; contudo, é importante salientar que é um alimento limitado quanto aos nutrientes. Por isso, é importante que, logo nos primeiros dias de vida, o animal seja suplementado com minerais, que apresentam baixa concentração no leite, para um bom desenvolvimento. Como alternativa à suplementação mineral, proteica e energética, o mais recomendado é o uso do creep-feeding, um sistema de suplementação no qual apenas os bezerros têm acesso (exclusivo). O objetivo é desmamá-los com maior peso em torno de 6 a 8 meses, no início do confinamento, adaptando-os à suplementação no cocho, reduzindo, assim, seu tempo de permanência no con finamento e aumentando a margem de lucro com a redução de custos.

Um fator importante é a localização do cocho dos bezerros, que deve estar o mais próximo possível ao cocho dos animais adultos e da água. Um ponto prático para facilitar a adaptação dos animais mais jovens é a utilização de bezerros mais velhos, já adaptados ao sistema, constituindo um “apadrinhamento” até que comecem a consumir o suplemento. O fornecimento pode ser realizado desde a primeira semana de vida; contudo, no primeiro mês de vida, o consumo vai é reduzido por conta da adaptação às instalações e ao consumo do suplemento. A partir do segundo mês, a ingestão do suplemento será consistente, já que os animais estarão mais adaptados e o leite produzido pela vaca não atenderá mais às suas necessidades.

A suplementação durante a fase inicial de vida favorece e antecipa o desenvolvimento do rúmen, pois o bezerro ainda não é um ruminante, não tem um rúmen funcional e não apresenta a microbiota, responsável pela fermentação da fibra. Dessa forma, o consumo do suplemento, juntamente com o capim, permitirá o desenvolvimento maior do rúmen e a colonização do mesmo pela microbiota, o que torna o animal capaz de ruminar, podendo, assim, digerir as fibras do capim, diminuindo a dependência da vaca e aumentando a ingestão de nutrientes, refletindo em maior desempenho.

Para que o sistema de creep-feeding seja eficiente e traga um bom retorno, é necessário que o suplemento seja palatável, com fontes de proteína e energia de qualidade e minerais com destaque nos microminerais, pois estes têm função na resposta imunológica dos bezerros, na qual a deficiência pode acarretar maior suscetibilidade às doenças, que levam à debilidade e maior taxa de mortalidade, principalmente em exemplares mais jovens. De forma geral, para uma boa formulação de creep-feeding, é necessário ter, pelo menos, 65% de nutrientes digestíveis totais (NDT) e 20% de proteína bruta (PB), além de atender às exigências dos animais em minerais. Outro ponto que é muito negligenciado é a disponibilidade de cocho, que, nesse caso, tem que ser de 20 cm lineares por cabeça.

Seleção genética

Para que a produção de novilhos superprecoce seja lucrativa, é necessário escolher os animais que entrarão no sistema, pois necessitam de boa genética e ser capazes de expressar toda a condição de nutrição e sanidade que lhes será fornecida. Animais oriundos de cruzamento industrial são uma boa alternativa porque combinam elevado potencial de produção de raças de clima temperado com a adaptação de raças tropicais. É um cruzamento que tem como finalidade gerar heterose para que hajam ganhos adicionais por meio de uma produtividade que exceda a sas raças-base.

Uma das características que mais são levadas em consideração para a escolha dos bezerros é a precocidade, ou seja, a rapidez na taxa de crescimento e a puberdade em idade menor que outras raças, pois animais desse tipo vão apresentar uma deposição de gordura e acabamento de carcaça com um peso vivo menor em relação às raças com uma precocidade mais tardia.

1Zootecnista, mestre e doutor em Nutrição e Produção de Ruminantes, assistente técnico de Nutrição Animal na Unidade Matsuda Vitória da Conquista/BA