Bem-Estar

Lucro LÍQUIDO e certo

Quantidade, qualidade e acesso igualitário de água a todos são decisivos para o sucesso do planejamento nutricional do rebanho

Janaína Braga1

Quem nunca ouviu falar que água é vida? E, de fato, é! Água é fundamental para todas as funções vitais do organismo, sendo importante para a fermentação e para o metabolismo do rúmen, para o fluxo do alimento no trato digestivo, boa digestão e absorção dos nutrientes, para o balanço eletrolítico, bem como para suprir as demandas dos tecidos corporais e eliminar os metabólitos, além de regular a temperatura corporal. Com todas essas funções, é compreensível que a perda de água pelo organismo (entre 10% e 12% nos bovinos) pode levar à morte e que a privação constante de água é um estado insalubre que afeta o bem-estar dos animais.

Avançamos a passos largos na aplicabilidade prática da qualidade e composição química dos ingredientes para balanceamento da dieta ou da suplementação de modo a atender às exigências nutricionais (proteína, fibra, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais) dos bovinos. Mas, por outro lado, não é raro encontrar quem dê pouca atenção ou negligencie a premissa de que a nutrição dos bovinos é afetada diretamente pela quantidade e qualidade da água consumida. Ao questionar sobre o tema nas propriedades, a resposta, normalmente, indica que a água é boa e suficiente, mas raramente, é baseada em resultados de análises físico-químicas (incluindo temperatura, cor, turbidez, sólidos dissolvidos totais, pH, dureza, nitrato e nitrito, por exemplo) e microbiológicas (presença de micro-organismos patogênicos).

Primeiramente, é preciso ter em mente que a água é um recurso fundamental à vida. Portanto, mesmo quando for limitada e/ou de baixa qualidade (obviamente, dentro de certos limites), os bovinos irão a consumir para manter o funcionamento do organismo. Mas qual será o impacto da privação de água de qualidade no bem-estar e no desempenho da boiada? Importante destacar que, aqui, privação de água se refere a diferentes graus de restrição, e não à privação total, que é um caso extremo e incompatível com o propósito deste texto.

Partindo desse princípio, podese dizer que os principais problemas encontrados na realidade brasileira e que restringem o consumo de água incluem: localização inadequada dos bebedouros ou da aguada, principalmente em pastos muito grandes e acidentados; construção de bebedouros em dimensões inadequadas (altura, largura, profundidade e vazão); difícil acesso devido à formação de atoleiros no entorno dos bebedouros; bebedouros sujos; ausência de higienização periódica dos bebedouros e; água em quantidade insuficiente e/ou de baixa qualidade (físico-química e microbiológica).

Como perceber se a boiada está ingerindo pouca água? Muitas vezes, inventamos caraminholas quando o desempenho da boiada está abaixo do esperado, mas a oferta de água pode ser a causa do problema. É fácil notar por presença de fezes ressecadas, redução no consumo de alimento, vazio fundo, focinho ressecado e apatia. Não existe maximização do ganho de peso dos animais se não houver água de boa qualidade e de fácil acesso, ainda que as melhores pastagens, suplementações e dietas no cocho estejam disponíveis.

O impacto da água limpa e de boa qualidade na produção animal é inegável. Para a deposição de um grama de proteína no músculo, três gramas de água são necessárias. Relatos de estudos em confinamentos comerciais, em condições brasileiras, indicam que a lavagem diária do bebedouro (visto que grande quantidade de ração é depositada no bebedouro levada pela boca dos bovinos) resulta em aumento de 17,5% no Ganho Médio Diário (GMD) se comparados com o de animais mantidos em currais onde o bebedouro foi lavado a cada três dias.

Outros estudos trazem resultados similares no GMD ao comparar a ingestão de água em bebedouro e em aguadas. Por exemplo, garrotes com acesso ao bebedouro ganharam 0,105 kg/dia a mais do que seus contemporâneos que só possuíam acesso à aguada. A mesma tendência foi encontrada avaliando novilhas ao sobreano, com aumento de 23% no GMD quando as mesmas possuíam água no bebedouro ao invés de aguadas. Assim, é preciso reconhecer que o acesso às aguadas, potencialmente, acaba por oferecer água com maior risco de contaminação por fezes, elevado acúmulo de matéria orgânica, contaminação por micro-organismos, parasitas, algas que podem produzir toxinas, além dos riscos de transmissão de várias doenças, incluindo as zoonoses.

O consumo de água entre os animais de um mesmo grupo pode, também, ser afetado pelo próprio comportamento natural. Bovinos são gregários (vivem em grupos), mas, apesar das vantagens adaptativas, competem por recursos, principalmente em situações de restrição. A hierarquia de dominância é um padrão de organização que define, por meio de interações agressivas, quem são os exemplares dominantes (com acesso privilegiado aos recursos) e os submissos. Ainda nessa dinâmica, é importante considerar o líder como o indivíduo que inicia e troca as atividades do grupo. Os líderes orientam o movimento, e os do minantes minantes terão prioridade no acesso e no consumo da água. Por exemplo, quando o grupo social chega à aguada, os animais dominantes entram na água, saciam a sede e, ao saírem, dão lugar aos animais de posição imediatamente inferior na hierarquia. Estes, por sua vez, têm conduta semelhante, e assim sucessivamente, até chegar a vez dos animais mais submissos. Os mais submissos na hierarquia, quando têm acesso à água, encontram-na suja devido à movimentação dos animais que a beberam anteriormente, o que acaba por trazer à superfície diversos tipos de sedimentos, limitando ou interrompendo a ingestão. Já pensou em como esse comportamento pode afetar a homogeneidade do GMD do grupo?

Privação de água afeta o desempenho e é uma importante fonte de estresse para os animais. O estresse prejudica o sistema imunológico, predispondo os animais a doenças, o que compromete seu bem-estar e ameaça o sucesso econômico da atividade. Vejamos, juntos, o impacto disso! Vamos considerar que a restrição de água resulte em redução de 0,120 kg no GMD em uma fazenda com 1,2 mil animais mantidos em terminação por 120 dias. Nessas condições, a fazenda deixaria de produzir 17.280 kg de peso vivo (0,120 kg x 1.200 animais x 120 dias). Se 1 kg de peso vivo tiver 72% de rendimento em ganho de carcaça, teremos 12.441 kg de carcaça produzida (829,[email protected]). Considerando o valor da @ de R$ 180,00, a restrição de água impactaria em R$ 149.292,00, com cada animal deixando de ganhar, em média, [email protected] (R$ 124,41).

A atividade pecuária apresenta redução de margens ao longo dos anos. Portanto, a gestão será cada vez mais complexa. Precisamos aplicar a sustentabilidade nos nossos sistemas, incluindo o bem-estar dos animais, bem como garantir a segurança dos alimentos e a saúde pública. Nesse contexto, nossa pecuária pode ser mais eficiente se dermos mais atenção à qualidade da água que oferecemos aos bovinos.

1 Médica-veterinária, consultora BEA Consultoria e Treinamento, pesquisadora associada do Grupo ETCO