Reportagem de Capa

Um olho na vaca e outro na cria

Nutrição adequada à vaca prenhe amplia expressão do potencial genético na progênie e abre caminho para a produção da carne que o mercado deseja

Daniele Zago1, Everton Dezordi Sartori2, Anna Elisa Gatteli3, Júlio Otávio Jardim Barcellos4

A atividade econômica da pecuária de corte vem evoluindo rapidamente em todos os seus aspectos, desde o consumidor – mais exigente – até dentro da porteira – onde está inserido o pecuarista com seus sistemas de criação de gado. O protagonismo brasi leiro no mercado internacional de carne bovina e o consumo interno expressivo têm criado oportunidades e desafios que demandam maior eficiência em toda a cadeia produtiva. A necessidade de aumentar a produtividade dos rebanhos, por meio da inovação tecnológica e de sua adoção, como os conhecimentos de genômica, de novas cultivares de espécies forrageiras, biotipos raciais mais adaptados aos trópicos, são realidades na bovinocultura de corte do País. Além disso, o sistema de precificação do boi gordo mudou, agora ele é dado pelo rendimento de carcaça na maioria das regiões brasileiras.

Contudo, um novo driver surgiu neste cenário, o protagonismo do consumidor de carne bovina. Ele é mais exigente e cria padrões de conformidade nas características de maciez, suculência e sabor, as quais dependem apenas de uma boa genética do gado, de um bom sistema de engorda e do abate e processamento no frigorífico. Agora, ele remete a uma construção que começa ainda na vida embrionária do bezerro. Assim, para alcançar elevadas performances de desempenho do gado, aproveitando os avanços da alimentação animal e da genética para entregar uma carcaça de alto rendimento e com os padrões de qualidade nos cortes exigidos para uma “carne gourmet”, surgiram novos conhecimentos que apontam para uma nutrição dirigida aos primórdios da vida gestacional. Intervir, orientar e programar a alimentação da vaca com objetivos de tais natureza é o que definimos como programação fetal e que reside nessa abordagem.

A nutrição da vaca prenhe é mais importante do que se imaginava há alguns anos, quando maior atenção era dada para esse tema no terço final da gestação, fase em que qualquer alteração na dieta materna é facilmente percebida no peso do terneiro ao nascimento. Isso ocorre porque a velocidade de crescimento do feto é maior nos últimos três meses da gestação do que nos demais. Porém, hoje, sabe-se que os dois primeiros trimestres da gestação são determinantes para programar o desenvolvimento pós-natal dos bovinos. O termo programar (programação fetal), nesse caso, é usado para descrever os eventos (estímulos) que ocorrem durante a geração da cria e interferem, tanto positiva quanto negativamente, no seu desenvolvimento ao longo da vida.

A desnutrição da vaca prenhe, aliada ou não a situações desafiadoras, como temperaturas elevadas, sanidade comprometida e estresse, por exemplo, pode levar ao nascimento de um bezerro com alterações na formação do tecido muscular, do tecido adiposo, de órgãos e de glândulas. São problemas que influenciam, de forma direta, no rendimento de carcaça, na produção de leite, na reprodução, entre outros aspectos. E podem levar um animal, mesmo de boa genética, a não expressar todo o seu potencial produtivo mesmo em condições adequadas, ou a apresentar eventuais diferenças de desempenho com relação aos seus irmãos.

Desenvolvimento do feto

Historicamente, o período de gestação é negligenciado por muitos pecuaristas. Nos sistemas de cria, normalmente, a estação de monta é de 90 dias e ocorre durante o período de maior disponibilidade de forragem e fertilidade das fêmeas. Consequentemente, parte dos dois terços finais da gestação ocorre durante a “estação seca”, na qual encontramos baixa disponibilidade e menor qualidade de forragem e, com isso, limitações nutricionais, que interferem diretamente na resposta produtiva dos animais. Mas essa e outras dificuldades podem ser sanadas com a programação fetal, especialmente pela nutrição, o item que pode ser mais bem controlado pelo manejador.

No início da gestação, ocorre o desenvolvimento do embrião, o desenvolvimento da placenta e o estabelecimento funcional de trocas fisiológicas entre a mãe e o feto. Esse período do desenvolvimento é menos sensível às alterações nutricionais que os demais por demandar menor quantidade de energia (Figura 1). Dessa forma, restrições alimentares são facilmente supridas pela mobilização das reservas corporais da fêmea, ou seja, precisam ser severas para afetar o desenvolvimento do feto e a formação da placenta. Porém, a baixa demanda de energia não torna o período menos importante que os demais, já que a vascularização da placenta pode ficar comprometida por conta dos desafios nutricionais aos quais a vaca é submetida, interferindo negativamente na chegada de nutrientes até o feto ao longo de toda a gestação.

Durante o segundo terço da gestação ocorre a formação do tecido muscular (miogênese). É nesse período que 75% de todas as células musculares presentes no corpo do animal são formadas. Caso a formação dos seus músculos seja comprometida, não poderá ser recuperada após seu nascimento. E esse fato é o que torna a programação fetal tão importante, ou seja, o número de células musculares que o animal terá por toda a vida pós-natal é formada na fase fetal.

O último terço de gestação é caracterizado pelo rápido crescimento do feto, que se dá, principalmente, por hipertrofia (aumento do tamanho da célula), e não mais por hiperplasia (formação de novas células). O peso fetal aumenta cerca de 80% em relação ao observado no nascimento e, para suportar esse acelerado crescimento, há uma elevada demanda de energia se comparada aos dois terços iniciais (Figura 1). Por esse motivo, essa fase foi, por muitos anos, apontada como a mais crítica do desenvolvimento fetal, já que quaisquer falhas ou incrementos nutricionais durante o período eram facilmente percebidos por alterações no peso do animal ao nascer. Por outro lado, alterações que ocorrem durante os dois primeiros terços da gestação são menos aparentes ao nascimento, principalmente se a alimentação durante o último terço for adequada. No entanto, quando ocorrem falhas nutricionais no segundo terço de gestação, o número de células musculares formadas pode ser reduzida, e, embora o peso ao nascimento possa ser compensado pelo crescimento muscular por hipertrofia na fase final, a resposta produtiva desse indivíduo ao abate será comprometida.

A formação do tecido adiposo, importante na qualidade da carne, pois compõe a gordura subcutânea (gordura de cobertura) e a gordura intramuscular (gordura de marmoreio), também ocorre no terço final da gestação (Figura 2). Porém, diferentemente do tecido muscular, que tem a sua formação somente durante a gestação, as novas células adiposas continuam sendo constituídas durante as primeiras semanas de vida. Assim, além dos cuidados nutricionais durante a gestação visando à nutrição fetal para a produção de leite, o consumo alimentar do bezerro durante o período neonatal também é de extrema importância para a formação do seu tecido adiposo. Tecido esse que, principalmente na fase de terminação, irá sofrer hipertrofia, permitindo ao animal apresentar uma cobertura de gordura subcutânea desejável (3mm a 4 mm na altura da 12ª e da 13 ª costela) e uma boa gordura intramuscular, conferindo maior suculência e palatabilidade à carne.

Sistemas de produção

A programação fetal ganha potencial importância quando se observa que um animal passa por mais transformações corporais na fase de gestação do que irá passar na vida pós-natal. Falhas em suprir os nutrientes necessários ao desenvolvimento placentário e fetal, além de afetar o tamanho e o vigor do bezerro ao nascer, também podem refletir sobre a quantidade e a qualidade do colostro produzido. Bezerros com menor vigor ao nascer levam mais tempo para realizar a primeira mamada, que, associada à menor qualidade e à quantidade de colostro produzido, pode levar ao aumento nas taxas de mortalidade e morbidade nos animais. Além disso, o menor peso ao nascimento pode resultar na diminuição do crescimento até a desmama, afetando negativamente o tempo necessário para atingir o peso de comercialização ou a puberdade. Da mesma forma, animais mais leves ao nascer consomem mais alimento para atingir o mesmo peso à desmama daqueles com peso adequado ao nascer.

A redução no número de células musculares formadas na gestação irá, inevitavelmente, impactar no peso de carcaça do animal. Em consequência disso, o tamanho dos cortes comerciais de carne também será reduzido. É evidente que esse prejuízo pode ser amenizado ao longo da vida produtiva do animal por meio de um nível nutricional mais elevado; no entanto, o incremento nos custos de produção pode tornar essa estratégia inviável. O mesmo é aplicado para a gordura corporal, principalmente porque uma restrição alimentar durante o período de formação do tecido muscular pode favorecer um maior desenvolvimento do tecido adiposo em uma situação de alimentação adequada durante o terço final e pós-natal, pois as células musculares e adiposas são formadas a partir do mesmo grupo de células-tronco. Assim, as células que não foram estimuladas em se diferenciar em tecido muscular em função da restrição alimentar serão convertidas em tecido adiposo se estimuladas a partir de uma alimentação adequada durante o final da gestação.

Caso seja necessário escolher um momento para dar especial atenção à nutrição da vaca prenhe a fim de programar o desempenho da prole, o mais indicado é o quarto mês de gestação, fase de melhor conversão alimentar. Nessa fase, ocorre o desmame do bezerro da gestação anterior e a interrupção na produção de leite reduz drasticamente sua demanda de energia total. Assim, a energia adicional fornecida, seja por meio de um pasto de melhor qualidade ou de uma suplementação, é direcionada à formação do tecido comercialmente mais importante no feto, o muscular, que, no quarto mês, está no auge de sua formação.

Contudo, na pecuária de alta performance, a atenção aos aspectos nutricionais deve ser dada em todos os períodos, não somente durante a gestação. E, em condições de campo, uma das formas mais práticas de monitorar a nutrição da vaca é por meio do escore de condição corporal, buscando manter sempre a condição corporal próxima de 3 e 4 (escala de 1 a 5, em que 1 é muito magra e 5, obesa). Desse modo, evita-se que o escore de condição corporal fique abaixo de 3, principalmente durante meados do quarto mês de gestação e durante os dois últimos meses da gestação. Isso permitirá que todo o potencial genético para formação do tecido muscular e formação do tecido adiposo sejam expressos pela progênie. O que, obviamente a partir de uma cria e uma recria adequadas, refletirá na terminação de animais com um acabamento apropriado e um elevado rendimento de carcaça.

1 Pós-doutoranda em Agronegócios UFRGS/NESPro 2Pós-doutorando em Zootecnia UFRGS/NESPro 3Graduanda em Agronomia UFRGS/NESPro 4Professor no Departamento de Zootecnia UFRGS, coordenador do NESPro