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Integração SISTÊMICA

ILP consolida-se como um caminho sem volta para recuperação de áreas degradadas, aumento da produtividade e diversificação de renda

Laura Berrutti
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É com a experiência de quem encontrou no sistema de Integração Lavoura Pecuária (ILP) a fórmula para, em pouco mais dez anos, ampliar a taxa de lotação do seu rebanho em 100% que o criador Wilson Brochmann, diretor-executivo da Agropecuária Maragogipe, sediada em Itaquirai (MS), o define como um verdadeiro divisor de águas. Isso porque, ao mesmo tempo em que recuperou áreas de pastagens degradadas, melhorou a qualidade da alimentação do gado, elevou o índice de prenhez das suas matrizes em 15% e, ainda, encontrou na lavoura mais uma fonte de renda com a comercialização da soja. Somente na última safra, a fazenda colheu 61.865 sacas do produto nos 1,07 mil hectares plantados com o grão em espaços de ILP, área que deve contar com mais 1,2 mil ha na safra 2020/21.

O processo de mudança começou em 2008, após 35 anos de um trabalho exclusivamente dedicado à pecuária. Em 2020, após 12 anos do início do processo de implementação da integração, a propriedade contabiliza 70% dos 11,6 mil hectares da área de pastagem reformada. E possui, inclusive, um departamento especializado em agricultura. “É um caminho sem volta. A pastagem da ILP é indescritível, completamente diferente em qualidade e em capacidade de suporte. O diferencial que faz na engorda da recria e da cria é muito significante. Muda todo o perfil de estado corporal dos animais”, afirma Brochmann.

A Agropecuária Maragogipe, que foi heptacampeã do Concurso de Carcaças Angus em 2019, é especializada na recria de novilhos e novilhas meiosangue Angus de alta qualidade, que entram em confinamento logo após o desmame com auxílio de creep feeding e ração à base de silagem do milho produzido na própria fazenda. Ao pasto resultante da ILP cabe alimentar matrizes e novilhos Nelore precoces – suplementados com ração - destinados ao abate. A lotação da área reformada, hoje, é de 4 UA, o dobro da obtida na área sem ILP (2 UA).

Para manter a estratégia de ILP funcionando a pleno, a Maragogipe trabalha com alternância bianual entre o cultivo integrado de grãos e de pasto. Num sistema de rodízio, as glebas que produzem soja no período das águas e milho safrinha com pastagem no período da seca, são liberadas por outros dois anos para produzir somente pasto. Assim, a soja plantada em outubro é colhida em fevereiro ou no início de março, liberando o espaço para o cultivo de milho e do pasto. O pastejo é liberado dois meses após o plantio e se estende até agosto ou o início de setembro, garantindo 90 dias alimentação ao gado.

Processo gradual

O êxito na integração entre as lavouras e a pecuária da Maragogipe resulta de um processo gradual e planejado. Assessorada pela MS Integração, a propriedade, que possui mais de 8 mil ha de pastagens recuperadas atualmente, iniciou a ILP em 200 hectares. A preparação iniciou em janeiro de 2008, antes do plantio da primeira lavoura de soja, com a correção da acidez do solo com calcário (calagem). Foram também construídos terraços para conter a erosão, realizadas adubações, fechados buracos e retirados eventuais tocos ou raízes.

A área reformada foi coberta com pasto e alimentou o gado durante três meses. Em outubro do mesmo ano, a área foi dissecada e recebeu a primeira lavoura de soja em cima da massa residual da pastagem. “Você não consegue plantar com a plantadeira se a terra não for bem uniformizada, é fundamental a sistematização da área, gradear e corrigir antes do plantio”, explica o diretor-presidente da MS Integração, Dirceu Luiz Broch.

Com as altas despesas relativas à correção do solo e ao custeio da lavoura, a propriedade somente começou a ter lucro no terceiro ano da ILP. Antes disso, todo o faturamento arrecadado era destinado ao pagamento do financiamento empenhado para realização do projeto que, à época, foi implementado pela equipe e maquinário próprio da fazenda. Atualmente, a colheita e o transporte são terceirizados, enquanto o plantio da soja e do milho ocorre pela equipe própria. “Os custos da atividade agrícola são muito caros: maquinário, correção do solo, óleo diesel. Não dá para errar, não dá para brincar de fazer lavoura ou ILP”, afirma Broch.

Os benefícios da ILP para as pastagens e para o sistema produtivo pecuário como um todo foi evidenciado em estudo realizado pela Embrapa Gado de Corte. Em quatro anos após a implementação do sistema pecuário de recria e engorda integrado com lavouras de soja e milho, os pesquisadores viram o índice de produção saltar [email protected]/ha/ano para 31,4 @/ha/ano e a lotação média por hectare chegar de 4UA/ha. A pesquisa mostrou também que, a cada R$ 1,00 de receita líquida obtida somente com a cultura da soja, a pecuária de corte proporcionou R$ 1,71 com a recria e engorda de bovinos. As produções de soja foram de 58 sacas /ha/ ano, enquanto que a de milho, na safrinha, foi de 37,7 sacas/ ha/ ano.

De acordo com Broch, a margem de lucro da Integração Lavoura Pecuária será pequena nos cinco primeiros anos após a realização do investimento inicial, pois o rendimento obtido nesse período servirá, basicamente, para quitar o(s) financiamento(s) empenhado(s) para realizar as mudanças necessárias. Por isso, ele recomenda a adoção de uma estratégia gradativa, com implementação da IPL em 200 hectares no primeiro ano para, nos dois anos seguintes, fechar em, pelo menos, de 700 a 900 hectares.

Estratégias de integração

Mais do que investir em lavoura e gado, o produtor que opta pelo sistema integrado de ILP precisa ser noção de que se tornará um administrador de um sistema de produção integrado. “A maior parte das pessoas, e mesmo profissionais técnicos, acabam com uma noção de rotação de culturas como se fosse uma rotação de pasto e agricultura, ao invés de ter um olhar sistêmico. O produtor não deixa de ser pecuarista para se tornar agricultor”, afirma o professor titular do Departamento de Plantas Forrageiras e Agrometeorologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Paulo Carvalho.

Para tanto, o auxílio de profissionais especializados, qualificados e experientes se torna imprescindível. “Às vezes o pecuarista não se dá conta, mas está numa situação diferente de um agricultor, por exemplo, que tem muito mais tecnologia e está muito mais ligado na lavoura. Então é interessante que ele procure um técnico para fazer isso”, lembra o pesquisador da Embrapa Gado de Corte Roberto Giolo. O diferencial dos profissionais ficará evidente no planejamento e na execução do processo. “A produção não pode ser to talmente integrada de um ano para outro. A entrada da agricultura tem que ser gradual. O produtor tem que ter muita noção do fluxo de caixa e isso tem que ser tecnicamente planejado em tempo e espaço”, avalia Carvalho.

Segundo Giolo, a gradual implementação da ILP fará com que o criador consiga obter uma rotação e renovação das áreas com pasto plantado sobre as áreas agricultadas. “Ele divide a terra, por exemplo, em cinco piquetes. Vamos supor que tenha mil hectares e que, a cada ano, 200 ha. Em cinco anos, terá renovado o pasto e, a cada ano, um pasto top de linha”, explica. Ele ainda ressalta que a produtividade das áreas reformadas irá aumentar, pois a terra conta com os resíduos da lavoura. “É muito maior do que se ele tivesse apenas adubando. O solo da lavoura é trabalhado, arado pelo trator, e já está tratado e adubado. Então, a pastagem virá em um solo bem melhor tanto física, quanto quimicamente”, ressalta.

A escolha das culturas, a estratégia de plantio e a comercialização dos produtos vão depender do interesse de cada gestor, além das características de clima e de solo de cada região. Por isso, antes de optar pela cultura, o criador deve estudar suas especificidades de cultivo. “Ele tem que buscar um grão dentro de um pacote tecnológico que seja capaz de desenvolver. Se o executar parcialmente, pode se frustrar com o retorno econômico”, afirma o professor da ESALQ/USP Moacyr Corsi. Por exemplo, a comercialização da soja pode pagar toda a implantação da pastagem, o que não aconteceria com a lavoura de milho, que exige uma adubação mais elaborada.. Há propriedades, também, dependendo da região do país, que cultivam sorgo, feijão, trigo, algodão, arroz, girassol, culturas empregadas com sucesso em rotação, consorciação e/ou sucessão com forrageiras.

Da mesma maneira que a lavoura contribui na produtividade da pastagem, esta também colabora no rendimento das culturas de grãos. O segundo ciclo da lavoura, por exemplo, será mais produtivo que o primeiro. Isso ocorre porque as raízes do pasto ajudam a fixar mais carbono no solo. “Quando você coloca a lavoura de novo depois da rotação, os dados mostram de 2 a 15 sacas a mais de lavoura. Não é só o pasto que fica melhor, mas a lavoura também”, avalia Giolo. Essa é a importância da sucessão da alternância: quanto mais ciclos o sistema tiver, maior vai ser a qualidade do solo e, consequentemente, a eficiência da integração.

Segundo pesquisa realizada na Unidade de Referência Tecnológica sobre Integração Lavoura-Pecuária de Corte (URT-ILP), pela Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas (MG), a ILP é um sistema funcional para quem planeja diluir custos e diversificar investimentos. As avaliações ocorreram em uma área experimental de 22 hectares dividida em quatro glebas de 5,5 hectares cada. Três delas foram cultivadas com lavouras durante a primavera e o verão, e com pastagens no outono e no inverno. A última gleba foi usada somente para pastejo e as culturas escolhidas foram: soja, milho com braquiária e sorgo com mombaça.

Bezerros machos desmamados de raças especializadas, com dife rentes graus de sangue e alto rendimento de carcaça, entraram no sistema no início do período das secas e pastejaram em todo o espaço. No período das águas, os animais foram alocados na gleba destinada à pastagem o ano inteiro. Depois, eles foram encaminhados para o confinamento e seguiram dieta aproximada de 66% de concentrado, mais 34% de silagem de milho fornecida pelo próprio sistema.

Durante o período, a média do crescimento dos animais na pastagem foi de 54,55 @/ha e [email protected]/ha no confinamento. A média de produtividade da soja foi de 2.430kg/ha, do milho para silagem, 41.675 kg/ha, do milho em grão, 7.122,5kg/ha e do sorgo para silagem, 37.650kg/ha. “O pasto normal começa a ficar ruim em maio, já um pasto de integração vai estar verdinho, pronto para o pastejo. Além de ser um pasto melhor, você vai ter um pasto melhor em um período que ele costuma estar ruim”, analisa Giolo.