Pragas

Ladrões de PRODUTIVIDADE no pasto

Infestação geral e elevada de cigarrinhas e lagartas pode ser evitada com Manejo Integrado de Pragas (MIP)

Roni de Azevedo1

A bovinocultura brasileira, conta com a maior criação comercial do mundo, com aproximadamente 213,5 milhões de cabeças de gado bovino e 1,4 milhão de cabeças de búfalos (IBGE, 2018). Este rebanho se alimenta basicamente em cerca de 180,2 milhões de hectares de solo brasileiro destinado a pastagem, sendo que destes 112,2 milhões de hectares são de pastagens plantadas e 68 milhões de hectares de pastagens nativas.

Nas pastagens pode ocorrer uma diversidade de insetos-praga causando prejuízos, dentre elas estão as pragas principais ou pragas-chave (cigarrinhas das pastagens); as pragas ocasionais (lagartas, percevejo das gramíneas e cochonilhas) e as pragas gerais (cupins, formigas, percevejo castanho, larvas de escarabeídeos e gafanhotos). No Brasil existem 25 espécies de cigarrinhas das pastagens. Dentre elas, as cigarrinhas Deois flexuosa, Deois flavopicta, Deois schach, Notozulia entreriana, Mahanarva fimbriolata e Mahanarva spectabilis estão presentes com maior frequência causando danos. Suas ninfas – que são as formas jovens -, sugam seiva das raízes e hastes na base da planta, onde vivem por cerca de 33 a 48 dias dependendo da temperatura e espécie. Os adultos, que causam os maiores prejuízos injetando secreções salivares tóxicas e sugando seiva das folhas, vivem na parte aérea das plantas durante 10 a 21 dias, dependendo da temperatura e espécie.

As lagartas desfolhadores podem desfolhar totalmente extensas áreas de pastagem. Ocorrem ciclicamente em populações elevadas. São duas as principais espécies, a conhecida como curuquerê dos capinzais (Mocis latipes) e a lagarta militar (Spodoptera frugiperda). Na fase larval elas consomem folhas durante cerca de 16 a 20 dias dependendo da espécie e da temperatura. Os adultos dessas duas lagartas são mariposas de hábito noturno e não se alimentam de pastagem e não causam danos. A diferença entre elas é que o curuquerê se locomove como se estivesse medindo palmos, enquanto a lagarta militar se arrasta sobre a superfície foliar.

As cigarrinhas e as lagartas, apesar de terem hábito diferente, sugando seiva e cortando folhas, respectivamente, comprometem a oferta de capim para o gado e geram grandes prejuízos aos pecuaristas. As espécies predominantes bem como a intensidade de infestação podem variar de acordo com a região, devido às condições climáticas e as espécies de pastagem utilizada. A ocorrência de cigarrinhas e lagartas é mais comum no início do período chuvoso da região, quando o pasto começa a rebrotar e se desenvolver.

Como controlar?

Ao ocorrerem infestações e danos de insetos-praga, a melhor forma de controlar a proliferação é com o Manejo Integrado de Pragas – MIP, que nada mais é que um conjunto de medidas, algumas delas inclusive pensadas previamente, que podem diminuir os riscos de uma infestação geral e elevada, visando reduzir o dano e, consequentemente, o custo de controle. O trabalho inicia com o monitoramento das pragas por amostragem ou vistoria periódica no pasto após as primeiras chuvas.

Para ter uma boa representatividade do talhão e da propriedade, deve-se amostrar em diversos pontos. Para cigarrinhas, utilizam-se dois métodos, um para identificar as ninfas e outro, os adultos. Um para identificar e quantificar as ninfas na base, usa-se um quadrado de 25 cm de lado, que pode ser confeccionado com uma armação de madeira ou ferro de construção ou ainda com cano de PVC. Jogado aleatoriamente no campo, o artefato verifica a quantidade de massas de espuma produzidas pelas ninfas no interior da armação. Para identificar e quantificar adultos de cigarrinhas, o método é o da rede entomológica ou puçá de 30 cm de diâmetro, dando-se redadas sobre o topo da cultura para a captura das cigarrinhas.

No caso da avaliação de danos causados por lagartas, podem ser utilizados dois métodos, um consiste na instalação de armadilhas delta contendo feromônio Bio spodoptera, que atrairá mariposas da Lagarta-militar Spodoptera frugiperda, possibilitando verificar a migração e chegada de adultos que farão a postura na área de pastagem. Mas, para o curuquerê dos capinzais este fermomônio não funciona, pois é específico. Outro método é a avaliação visual para verificar raspagens ou consumo de folhas pelas lagartas, além de observar a presença de lagartas na superfície do solo em meio à palha e nos colmos. É importante ressaltar que, se existirem folhas raspadas, é sinal de que o dano é inicial e que as lagartas ainda estão pequenas. Neste estádio, as lagartinhas são difíceis de visualização a olho nu por serem pequenas e por, muitas vezes, ficarem na parte inferior da folha. Quando houver corte de partes das folhas, significa que as lagartas já consumiram bastante tecido foliar e já cresceram, e que poderão ser facilmente verificadas.

Nas amostragens, deve-se fazer a correta identificação de insetos porque existem também os inimigos naturais que predam ou parasitam os insetos-praga. A ocorrência dos insetos-praga deve ser quantificada e anotada em uma planilha a campo, pois seu controle pode variar dependendo da espécie. Caso haja dificuldade nesta identificação, devem-se enviar amostras de insetos em um frasco contendo álcool 70% para empresas de assistência técnica ou pesquisa para fazerem a correta identificação.

Uma ferramenta importante obtida através de trabalhos de pesquisa são os níveis de dano e de controle. Eles indicam quantos desses insetos causam dano nas pastagens que justifique tomar medidas de controle. Para cigarrinhas, o nível de controle é de 5 espumas de ninfas/ m2 e 1 adulto a cada 2 redadas de puçá. Ou seja, quando na amostragem forem constadas quantidades iguais ou superiores, justifica-se efetuar o controle pois a partir daí as cigarrinhas causam dano econômico. Importante atentar para a espécie de capim e de cigarrinha encontrada, pois a sintomatologia dos danos pode se expressar plenamente somente após 21 dias de infestação inicial. Por isso, é imprescindível a realização de vistorias frequentes nas pastagens, pelo menos semanalmente, pois é comum a percepção visual do dano “queima do capim” quando a infestação já esta muito alta, com dano severo nas plantas, quando já houve redução na parte aérea e raízes do capim.

Para lagartas não existe um nível de dano e de controle recomendado para pastagens. Mas, sabe-se que podem ocorrer rapidamente em populações elevadas e desfolhar extensas áreas. Na literatura encontra-se a informação de que uma lagarta pode consumir 2,7 g ou 140 cm2 de folhas verdes durante a sua vida que varia de 16 a 20 dias dependendo da temperatura. Com isto, considerando hipoteticamente que tenhamos constatado na amostragem uma infestação de 24 lagartas em um m2, chega-se ao consumo estimado de 10 kg de matéria seca de folhas de capim por dia/ha, quantidade que de acordo com dados zootécnicos, daria para alimentar um bovino/dia/ha.

Técnicas de combate

Em pastagem, existem diferentes técnicas de controle de insetos-praga: uso de variedades resistentes, controle cultural, controle biológico e uso de inseticidas químicos. No caso de variedades resistentes, uma opção é a cultivar de capim híbrido BRS Ipyporã lançada pela Embrapa, que possui resistência as principais espécies de cigarrinhas. Como controle cultural, se deve diversificar os tipos de capim na propriedade, nunca plantar o mesmo capim em todas as áreas, cada um deve ser plantado nas adequadas condições de drenagem e fertilidade do solo.

Outro modo é manejar o gado de forma a equilibrar a disponibilidade de alimento e a cobertura do solo na área do pasto. Isso significa que não deve ter excesso de capim sobre o solo, nem o mesmo deve ser totalmente retirado pelo animal. Também deve-se usar sementes puras e de qualidade, recomendadas pela Embrapa ou pelo órgão de assistência técnica da região, adotando boas práticas para implantação e condução da pastagem, com adequadas correções do solo e adubações.

O controle biológico consiste no uso de outros insetos ou doenças para controlar os insetos-praga. Para cigarrinha, encontram-se no mercado diversas marcas comerciais contendo o fungo Metarhizium anisopliae, que ao ser aplicado na pastagem coloniza principalmente a ninfa que possui pouca mobilidade e encontra-se alojada na espuma criada por ela na base da planta, onde há condições de umidade e temperatura favoráveis à colonização e crescimento deste fungo.

A lagarta militar e o curuquerê dos capinzais, podem ser controladas com produtos a base da bactéria Bacillus thuringienses (BT). A eficiência de controle tende a ser maior quando aplicada em lagartas pequenas. Em lagartas grandes, além do dano já ter ocorrido, a eficiência é reduzida pois essa bactéria precisa ser ingerida pela lagarta e leva mais tempo para agir no organismo e causar a sua morte. Com isto, mais uma vez reforça-se a necessidade e importância do monitoramento, para constatar o início da infestação. No controle químico, deve-se utilizar inseticidas devidamente registrados no sistema Agrofit do Ministério da Agricultura.

Referências bibliográficas

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ZUCCHI, R.A.; SILVEIRA NETO, S.; NAKANO, O. Guia de identificação de pragas agrícolas. Piracicaba: FEALQ, 1993. 139p.

1 Eng. Agrônomo, Dr., Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental