O Confinador

Um olé na SECA

Sequestro de animais jovens é alternativa para garantir desempenho, padronizar lotes e melhorar qualidade de carcaça durante escassez de pasto

Bruno Andrade1

A produção pecuária brasileira tem vários desafios, de ordem econômica, técnica e regulatória. Para o pecuarista, assim como para o agricultor, lidar com o clima talvez seja o que lhe exija maior sabedoria. As principais áreas agropecuárias no País são influenciadas pelo clima tropical, nas quais temos temperaturas elevadas em boa parte do ano, chuvas em abundância e com duas estações bem definidas, uma Foto: Lucas Rabelo REVISTA AG - 37 chuvosa (de outubro a abril) e outra seca (de maio a setembro).

Durante décadas, quando o Brasil ainda não adotava as melhores práticas de produção na agropecuária, imperava nos pastos brasileiros o boi sanfona, animal que ganhava peso no período das águas, quando o pasto estava em boa qualidade. Porém, quando a seca chegava, ele perdia tudo o que ganhara ou até mais. Durante muito tempo, vivemos com esse modelo de produção que enviava ao abate animais acima de 48 meses de idade e com uma qualidade de carcaça inferior ao que temos hoje.

A disponibilidade de forragem no Brasil ditou, durante muitas décadas, nosso sistema de produção (Figura 1). Porém esse modelo de produção ficou no passado. Com a correção dos rumos de nossa economia e com o crescimento do País, novas possibilidades surgiram. Empresas de insumos se instalaram no Brasil, pesquisas sobre produção animal foram largamente desenvolvidas, e o País foi aberto para o comércio mundial de commodities agropecuárias. Todas as mudanças, desde a abertura da Embrapa, na década de 1970, até os anos 2000, foram fundamentais para entendermos que a pecuária precisava ser mais eficiente e sobre a necessidade de os animais, que antes perdiam peso no período da seca, ganharem peso durante todos os meses do ano. De várias possibilidades que existem hoje para tal, vamos focar no sequestro de animais jovens, bezerros desmamados ou garrotes.

O objetivo maior da técnica do sequestro é permitir que o bezerro desmamado ou garrote mantenha um ganho de peso na época seca do ano, similar ao que teria no período das águas em condição de pastejo. Ou seja, não desejamos que esses animais jovens sofram uma queda de desempenho, pois estão em uma fase crítica de desenvolvimento de sua ossatura e, principalmente, muscular.

A técnica pode ser realizada em duas situações distintas:

1. Recria de bezerros desmamados e de garrotes no período seco do ano, quando haverá indisponibilidade de forragem de qualidade para o consumo dessa categoria

2. Na transição de animais jovens no final da seca para o período das águas, que acontece nos meses de setembro e outubro, geralmente, quando as pastagens estão em processo de rebrota. Nesse caso, os animais podem estar saindo de uma área de integração lavoura-pecuária (ILP) e, para evitar a ingestão da forragem em rebrote, seguem ao sistema de sequestro. Essa ação é importante para não atrasar o desenvolvimento da forragem que está rebrotando, além de evitar complicações nutricionais para os animais, como o desenvolvimento de diarreia.

Em ambas as situações, é importante regular o ganho de peso dos animais, pois o objetivo não é que esse sistema seja terminal. O gado deverá retornar à área de pastagem no período das águas.

Dieta ideal

A dieta do rebanho sequestrado não deve ser agressiva, motivo pelo qual não se prevê elevação dos custos de produção com relação ao sistema de confinamento. No entanto, deve ser realizada com bastante critério para que os ganhos promovidos durante o período não sejam perdidos com o encarecimento da etapa seguinte.

A inclusão de grãos e farelos deve ser apenas o suficiente para garantir um desenvolvimento similar ao que o animal teria em uma pastagem de boa qualidade mais suplementação nas águas, fazendo com que a adaptação possa se tornar até desnecessária. Uma sugestão seria formular a dieta do período tendo em mente um bom volumoso e uma suplementação proteica. Como opção adicional, já existem fazendas utilizando DDG (grão de milho seco por destilação) com bons resultados na aceitação pelos animais. Existem inúmeros formatos que podem ser empregados durante esse período de recria intensiva/sequestro. As principais empresas de nutrição dispõem de produtos específicos para esse momento.

Em geral, os exemplos que são observados tratam da aplicação do sequestro em um tempo que varia de 45 a 60 dias para o período de transição entre a seca e as águas, ou de até 90 dias se o objetivo for passar por todos os meses de seca com o animal em regime intensivo. Diversos protocolos nutricionais trabalham com ganhos de peso entre 500 g e 700 g por dia. Nesse sentido, uma suplementação proteica variando entre 0,3% e 0,5% associada a uma silagem de alta qualidade é fundamental para atingir os ganhos esperados.

Para realizar o sequestro, o criador poderá utilizar a estrutura do confinamento ou a montagem de piquetes em áreas de ILP. Nas duas situações, é importante avaliar o consumo dos animais sempre com foco na diminuição da lotação e em maior área de cocho por animal. É importante lembrar, também, que um consumo muito elevado, acima de 2,5% do peso vivo, pode impactar negativamente na uniformidade do lote e aumentar a quantidade de animais classificados como “fundo”, elevando os custos da fase posterior.

Para manter os ganhos de peso na etapa seguinte, o nível de suplementação e a qualidade da forragem – o maior desafio – deverão ser mantidos quando os animais retornarem às áreas de pastagem no período das águas. Desse modo, é importante o criador observar pontos como plantio da lavoura colheita, ensilagem, desensilagem e fornecimento da silagem, com atenção especial ao ponto de colheita, altura do corte, tamanho de partícula, compactação, fechamento do silo, abertura e manejo da face de retirada do silo.

Cuidados sanitários

Ao realizar o sequestro do rebanho, é preciso considerar que se trata de animais jovens. Assim sendo, podem ter passado pelo estresse da desmama recentemente. Mas, de forma geral, é possível trabalhar com algumas opções de protocolo, dependendo da origem do animal:

1. Bezerros desmamados e que receberam o protocolo completo na desmama: vacinar contra pneumonia;

2. Bezerros sem informação do manejo sanitário anterior: vermifugar e aplicar vacina contra clostridiose, botulismo e para controle de pneumonia;

3. Garrotes com protocolo anterior conhecido: vacinar contra pneumonia.

4. Animais de compra: aplicar vacina e reforço contra clostridioses e botulismo. Se região proveniente por endêmica, vacinar contra raiva.

Por fim, a realização do sistema de sequestro ou recria intensiva abre ao pecuarista a possibilidade de encurtar seu ciclo de produção, tornando seu negócio mais atrativo economicamente. Além disso, possibilita melhor padronização dos lotes e maior qualidade da carcaça. Caberá a cada fazenda entender a melhor maneira de utilizar esse sistema.

1 Gerente-executivo da Associação Nacional da Pecuária Intensiva