Intensificação

PASTO RECUPERADO e natureza preservada

Fomento à pecuária sustentável conecta geração de renda à conservação do meio ambiente no Vale do Araguaia (MT)

Giovana Baggio1 e Julia Mangueira2

O amparo à sobrevivência do modelo econômico vigente, em tempos de crise, costuma ser rápido e prioritário. Da mesma forma, os incentivos a um novo modelo que integra sustentabilidade socioambiental à economia também deveriam ser priorizados para evitar que novas crises aconteçam.

A produção agrícola associada às soluções baseadas na natureza, como a conservação de ecossistemas nativos e a restauração florestal dentro das propriedades agrícolas, visa a tornar a produção resiliente ao clima e sustentável no longo prazo. Sistemas que conectam geração de renda e conservação, como agroflorestas, intensificação sustentável, rotação de culturas, consórcio de espécies, integração lavoura-pecuária- floresta (ILPF), entre outros, devem caminhar na direção de uma economia verde ou bioeconomia, em que meio ambiente e produção prosperam juntos. É preciso integrar esses sistemas aos convencionais, de forma urgente e efetiva.

Para produzir de forma sustentável e em longo prazo, são necessários alguns fatores: adoção de boas práticas agrícolas, adequação às normas ambientais, forte consideração aos riscos sociais e viabilidade econômica. Para exemplificar como é possível levar em conta essa gama de fatores no meio agropecuário, a The Nature Conservancy (TNC), junto com a Liga do Araguaia, Grupo Roncador, e com apoio da Iniciativa para o Comércio Sustentável (IDH – sigla em holandês), idealizou o projeto Campos do Araguaia, com o objetivo de fortalecer uma agenda de intensificação sustentável da produção pecuária no Vale do Araguaia, envolvendo 11 municípios no estado do Mato Grosso.

Esta história começou em 2016, quando foi criada uma parceria com 36 produtores rurais, somando 110 mil hectares de fazendas atendidas, dos quais 44 mil hectares estão em processo de intensificação para a produção de carne. Além do suporte técnico para implementação de boas práticas de produção, os produtores foram capacitados para gestão financeira e tiveram apoio no diagnóstico ambiental das propriedades. Também receberam apoio técnico na implantação de áreas de restauração e unidades demonstrativas e orientação técnica de métodos e técnicas de restauração. No total, mais de 47 mil hectares de vegetação nativa estão conservados, e apenas uma área inferior a 2,5% da extensão total das fazendas precisa ser recuperada para cumprir com a legislação ambiental – o que demonstra que é possível estar em dia com as exigências.

Para a intensificação sustentável da pecuária é necessário criar uma maior quantidade de gado por hectare, mas de maneira equilibrada, garantindo maior produtividade e rentabilidade, além do benefício de evitar a degradação ambiental. Isso envolve boas práticas agropecuárias, bem-estar animal, técnicas para melhoria da pastagem, bem como restauração de áreas degradadas e recuperação de solos. Aliado às boas práticas agrícolas, mecanismos financeiros podem apoiar os produtores na transição para uma produção mais sustentável, ao estarem ajustados à nova realidade produtiva e permitirem a adequada amortização dos investimentos necessários à intensificação.

Produzir e conservar

Buscando fomentar estas práticas, o município polo no Vale do Araguaia, Barra dos Garças, se comprometeu com o Memorando de Entendimento do programa Produzir, Conservar e Incluir (PCI), que, no fim de 2019, virou uma lei Municipal (Lei 4.156/2019). São 44 instituições participantes, incluindo Prefeitura Municipal, Instituto Produzir, Conservar e Incluir (PCI), Iniciativa para o Comércio Sustentável (IDH), TNC, bancos, empresas de assistência técnica, setores público e privado, instituições de pesquisa, dentre outros, que assumiram o compromisso de cooperarem mutuamente para colocar em prática as 25 metas estabelecidas para o plano de desenvolvimento local, dinamizando a economia regional com sustentabilidade social, cultural e ambiental.

A lei municipal é desdobramento da Estratégia PCI do Governo do Mato Grosso, lançada durante a Conferência do Clima de Paris no final de 2015 e alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que consiste em uma visão de longo prazo para promover o desenvolvimento econômico e social pelo uso eficiente da terra.

Entre as metas do PCI de Barra do Garças está a recuperação de cem mil hectares de pastagens com baixa produtividade até 2030 e o incentivo à integração de sistemas lavoura-pecuária. Aumento de produtividade nas lavouras de grãos e o fomento à produção de biomassa visando à energia renovável são outros itens no pilar de ações referentes à produção econômica. Sobre conservação, o memorando prevê a eliminação do desmatamento ilegal ainda em 2020, a universalização do sistema de registro ambiental rural (SIMCAR) até 2021 e a recuperação de todas as nascentes municipais até 2025, entre outras metas.

Esses fatores somados contribuem para uma produção mais estável e resi liente, o que pode aumentar a produtividade em até 40%, e o mais importante: manter a produção em longo prazo, diminuindo o risco de grandes perdas devido a eventos climáticos ou por degradação futura do solo, por exemplo. Esses projetos têm, assim, contribuído para um movimento coletivo de produção de baixo carbono no estado do Mato Grosso.

Mas, se está comprovado que é possível – e rentável – produzir e intensificar sem derrubar uma única árvore, como acelerar este modelo produtivo? Para ajudar na tomada de decisão quanto ao risco associado a novos negócios agrícolas e pecuários, por exemplo, a TNC criou o Agroideal (agroideal. org), sistema online, aberto e gratuito com dados de sensoriamento remoto.

A ferramenta oferece informações espacializadas sobre o todo o território do Cerrado e Amazônia brasileira, que facilitam identificar oportunidades, riscos sociais e ambientais para auxiliar a tomada de decisão de expandir responsavelmente os novos negócios dos setores de grãos e pecuária sobre áreas já convertidas nesses biomas, ou seja, sem necessidade de desmatar ou apoiar indiretamente o desmatamento.

Também permite ao usuário gerar um mapa de risco e expansão sustentável para uma região de interesse, como foi feito para Barra do Garças, por exemplo. Assim, é possível incorporar essas informações a uma estratégia de desenvolvimento para planejar a expansão em áreas já abertas, reduzindo os impactos sociais e ambientais, e combinando-a com as informações de aptidão agrícola das regiões. Com esta ferramenta pudemos identificar um enorme potencial de intensificação em Barra do Garças, que possui uma lotação bovina de menos de uma cabeça por hectare, mas com potencial para chegar a três cabeças por hectare. A área que seria liberada para produção agrícola, a partir da intensificação, somados aos mais de cem mil hectares de pastos degradados, pode aumentar em muito a eficiência econômica da agropecuária da região.

Feita a análise e priorização, a TNC, junto com parceiros locais, ajudou a criar e implementar um modelo de governança, com a criação de um Conselho Gestor do Programa PCI de Barra do Garças, que ajudará a dar mais transparência aos indicadores de cada um dos pilares (produzir, conservar e incluir) de forma a estruturar o município a captar recursos vindos de mecanismos financeiros que privilegiem ações em consonância com diretrizes ambientais.

Parceria de grandes empresas

A recuperação de pastagens degradadas é um tema que também está na agenda de empresas líderes no setor, que perceberam os benefícios tanto na produtividade pecuária quanto na agricultura. A Syngenta e a TNC lançaram, no fim de 2019, o Reverte, iniciativa para auxiliar a expansão sustentável da agricultura no Cerrado. Por meio de uma solução holística, que envolve melhores práticas agronômicas, ferramentas financeiras e protocolos sobre o uso de insumos, o Reverte vai ajudar agricultores e pecuaristas a trazer pastos degradados de volta ao cultivo. O objetivo é aumentar a produtividade já no curto prazo para permitir o retorno sobre o investimento e evitar mais degradação.

Estas são algumas das iniciativas em que estamos colocando em prática nossa meta de conciliar produção e conservação, mas queremos ir além e incentivar produtores a fazer esta opção. Para isso, a TNC lançou recentemente estudo em que demonstra que há mais de 18,5 milhões de hectares de pastagens degradadas e subutilizadas no Cerrado aptas à produção de soja (que pode ser integrada à pecuária mais intensificada e a outras culturas) - número que corresponde a mais do que o dobro dos 7,3 milhões de hectares que serão necessários, nas condições atuais de mercado, para garantir a expansão por pelo menos dez anos. Boa notícia para o meio ambiente e melhor ainda para os produtores, que dependem diretamente da preservação dos recursos naturais para prosperar.

O Brasil, país entre os três primeiros no mundo na produção de açúcar, milho, soja e carne, tem papel fundamental no desafio de produzir de maneira sustentável, seja por meio da aplicação de novas tecnologias e aumento de produtividade, seja pela expansão em áreas já alteradas, sem a necessidade de expandir sobre áreas de vegetação nativa no Cerrado e Amazônia.

Jà temos uma série de experiências que demonstram que isso é possível. Precisamos que esse padrão se torne a regra para que possamos de fato ter uma economia sustentável – não apenas agora, mas também no futuro. E a ciência aponta que já estamos no prazo limite para fazermos esta opção em larga escala, basta observar os eventos extremos climáticos, como chuvas intensas ou secas prolongadas, que temos enfrentado. Caso o modelo econômico presente não seja revisto, garantindo que nos mantenhamos dentro dos limites da natureza, as externalidades negativas da degradação ambiental recairão sobre a sociedade e comprometerão o desenvolvimento econômico e social. Esta visão precisa ser compartilhada e encarada por todos, produtores, empresas, governo e sociedade civil. Temos bons exemplos de que isso não só é possível, como nos permite produzir mais e melhor.

1 Gerente da estratégia de Agricultura Sustentável na The Nature Conservancy (TNC) Brasil 2 Gerente adjunta da estratégia de Agricultura Sustentável na TNC Brasil