Entrevista do Mês

Contagem Regressiva

A exploração pecuária em pastagens está em plena transformação. Segundo o professor titular da Esalq/USP Moacyr Corsi, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, de agora em diante, a velocidade das mudanças irá aumentar e, em curto prazo, selecionar os que continuarão na atividade. Contudo, ainda há tempo, mas somente para quem entender que a meta principal do negócio deve estar na produtividade com lucratividade sustentável, e não na superação de índices zootécnicos

Thaise Teixeira
[email protected]

Revista AG – Qual o atual cenário em que se encontram pastagens nativas e cultivadas no Brasil?

Moacyr Corsi – Estamos passando por um período de transformações muito significativas em relação à pecuária. Este fato decorre da expansão bem sucedida da agricultura, obrigando pecuaristas a obterem resultados econômicos semelhantes ou melhores do que na agricultura. Felizmente, a exploração da pecuária em pastagens intensificadas de monstra, através de projetos instalados, há anos, em diferentes biomas do Brasil, resultados econômicos semelhantes ou melhores do que os da agricultura da soja por exemplo. Sem dúvida a pressão da agricultura por áreas produtivas será significativa sobre pastagens degradadas e, também, sobre aquelas que apresentam topografia adequada de infraestrutura para logística do escoamento da produção. Nessas condições, a pecuária estará, com frequência crescente, sendo comparada por lucratividade sustentável à agricultura ou a outras opções de uso do solo. Portanto, a situação atual da exploração pecuária em pastagens, assim como em outros setores de produção, está no foco de transformações em curto prazo. O alerta de que haveria pessoas que deixariam a atividade já é dado por estudiosos há tempos. Mas o ritmo acelerado dessas transformações tende a contribuir com a velocidade dessa seleção.

Revista AG – Qual sua percepção com relação à aceleração tecnológica e sua aplicação prática em pastagens no Brasil?

Moacyr Corsi – A internalização de conceitos e procedimentos técnicos na pecuária é mais lenta do que na agricultura. Nesta, os pacotes tecnológicos são bem definidos desde a escolha da variedade a ser cultivada até os procedimentos para nutrição da planta, a sanidade da cultura, a colheita e a armazenagem. Na pecuária, os pacotes tecnológicos ainda são incompletos. Não pela falta de conhecimento, mas pela dificuldade em coletar e, mais importante, em interpretar dados em um ciclo de produção mais longo que o da agricultura. O ciclo da pecuária leva dois, três anos ou até mais quando se faz a cria. E, na agricultura, são 90 dias, 100 dias, 120 dias. Essas coisas aumentam as dificuldades para internalizar conhecimentos ou procedimentos dentro da pecuária. A dificuldade também é maior porque tem o animal interagindo com a agricultura da pastagem. A analogia, comparando pacotes tecnológicos entre agricultura e pecuária, seria a seguinte: na pecuária, exploramos a agricultura da pastagem criando, recriando e engordando “lagartas de quatro patas”. Entendendo a maior complexidade técnica no uso das pastagens, o empresário-pecuarista procura, com maior frequência e intensidade, a orientação técnica capacitada para tornar sua atividade capaz de disputar com a agricultura áreas produtivas providas de infraestrutura.

Revista AG – Quais os maiores gargalos em relação à produção, recuperação e manutenção das pastagens?

Moacyr Corsi – Os gargalos variam entre sistemas de produção, regiões e até entre pecuaristas. Intensificar é utilizar, de maneira mais eficiente e sustentável, os fatores limitantes do sistema de produção. Em outras palavras, quando você vai intensificar, precisa analisar seu sistema de produção, identificar os fatores que interferem e limitam, de fato, a produção e resolvê-los primeiro para, depois, introduzir, outras tecnologias no sistema. Há gargalos difíceis serem trabalhados, como o caso de condições que impõem restrições mais severas à intervenção humana. Como exemplo, citaria a exploração pecuária em áreas de deserto na Austrália e nos Estados Unidos, onde o uso eficiente e sustentável desse sistema obriga o pecuarista a dispor de 13 hectares a 30 hectares por vaca, correspondendo a aproximadamente 0,03 UA a 0,07 UA por ha. Essas áreas, embora com baixa produtividade, comparadas com outros sistemas, estariam intensificadas. Entretanto, taxas médias de lotação de 0,8 UA a 1 UA por hectare, em nossas pastagens, não podem ser consideradas intensificadas considerando o potencial produtivo das pastagens tropicais. Nesse caso, diria que o maior gargalo está na falta de informação e não de conhecimento

Revista AG – Como poderíamos trazer esta percepção para o dia a dia das fazendas?

Moacyr Corsi - Para ilustrar esta opinião, diria que expressiva proporção de pecuaristas não se sentem seguros para responder três perguntas embora tenham conhecimento dos fatos, mas não informações. A primeira seria “qual o número exato de animais que você, pecuarista, tem na fazenda?”. A maioria responde “mais ou menos X...”. A segunda pergunta seria “qual o gasto mensal na fazenda?”. Essa ficaria sem resposta confiável para a grande maioria dos questionados. A terceira seria “qual o ganho de peso médio dos seus animais em recria e em engorda?”. É muito provável que esta pergunta iria ficar sem resposta quando se estima que menos de 10% das fazendas que exploram a atividade têm balança. E que, talvez, cerca de 30% das que têm curral e tronco possui balança. Ou seja, o pecuarista tem infraestrutura e não tem balança.

Revista AG – Como mudar este cenário?

Moacyr Corsi – Coletando, analisando e, principalmente, interpretando dados. Frequentemente, lembro aos alunos e estagiários, durante a formação desses profissionais, a importância de interpretar dados com a seguinte frase: “é alfabetizada a pessoa que sabe interpretar textos, e profissional aquele que sabe interpretar dados”. Apesar da transparência da comunicação dessa mensagem, a falta da coleta de dados é responsável por 2/3 das desistências de pecuaristas que iniciam trabalhos mais objetivos em pastagens para levar a produtividade com sustentabilidade. Entretanto, os que realizam a coleta de dados mostram-se perplexos quando são apresentados os primeiros resultados da intensificação do uso das pastagens. Ficam confusos diante dos números e dos fatos produzidos pela coleta de dados, e procuram explicações para entender conceitos pré-concebidos com que trabalhavam até aquele momento. Se parte representativa da nossa pecuária respondesse às três perguntas feitas anteriormente, certamente, seria o início de uma mudança irreversível, tornando-a mais protagonista no agronegócio. Com as três respostas, duas das quais todos os pecuaristas deveriam ter, e o uso da balança, seria possível definir o custo operacional da arroba produzida - entendendo-se, aqui, por custo operacional os custos de produção exceto o preço pago pela reposição.

Revista AG – Você poderia exemplificar?

Moacyr Corsi – Numa simulação do custo operacional da arroba produzida, digamos que eu tenha um rebanho de mil cabeças e um custo mensal na fazenda de R$ 50 mil, o que significaria um custo por cabeça/mês de R$ 50,00. O Ganho de Peso Diário (GPD) seria de 650g determinado pelo controle na balança e o peso de [email protected] com 52% de rendimento de carcaça seria de 28,8 quilos de peso vivo. O período para ganhar esses 28,8 quilos de peso vivo com ganho de 0,65 kg por cabeça/ dia seria de 44,4 dias, que, divididos por 30 dias (mês) me daria 1,48 mês. Este valor multiplicado por R$ 50/cabeça/mês me daria o custo da arroba produzida que ficaria em R$ 74, que é, na realidade, o custo operacional sintético. Se a arroba está sendo comercializada a R$ 200, a margem operacional seria R$ 127 por @ (R$ 200 – R$ 74). Esse custo desperta, no produtor, a curiosidade de saber onde os gastos, uma vez que ele não percebe a diferença entre o custo da @ produzida e o preço vendido ao mercado de R$ 127, pois não vê esse dinheiro. Daí surge a necessidade de calcular o custo analítico, ou seja, analisar onde ele está gastando e colocar tudo num centro de custos. Portanto, a mudança no cenário da pecuária começa com o uso da balança para fazer a gestão do sistema de produção.

Revista AG – Qual seria o passo seguinte?

Moacyr Corsi – Daí resulta a coleta e interpretação de dados e, em seguida, o estabelecimento da meta em produtividade com lucratividade usando como ferramentas os índices zootécnicos, como ganho de peso, taxa de lotação desfrute, etc. Devo alertar para o fato de que a meta deve ser a produtividade com lucratividade, e não os índices zootécnicos. Muitos pecuaristas querem bater uma meta quanto aos índices zootécnicos. Querem, por exemplo, um ganho de produtividade X, mas não é isso que deve ser a meta. Você precisa produzir bastante e ser sustentável. Mas, para isso, o objetivo tem que ser o lucro e não os índices zootécnicos, que são ferramentas.

Revista AG – Essa mudança ocorre em curto prazo? Qual o papel da mão de obra nesse processo?

Moacyr Corsi – A intensificação da exploração da pecuária em pastagem poderia ser muito rápida se os pecuaristas fossem disciplinados para a coleta de dados. Essa indisciplina é um obstáculo sério para a aceitação de tecnologia. Para quantificar a rapidez dessa mudança de cenário, vamos usar dados referentes a índices zootécnicos em um projeto de intensificação no Pará. Nesse projeto, era frequente a diferença entre o melhor e o pior resultado ser maior que 100% chegando a ser superior a 300% para o índice de desempenho animal GPD. Após um ano de treinamento para os colaboradores e executores do manejo no pastejo, as diferenças foram reduzidas para cerca de 20%, indicando, claramente, que a nossa mão de obra é capaz se oferecermos as informações e os treinamentos. As transformações provocadas pelos resultados dos treinamentos surgiram através do expressivo aumento da estima e autoconfiança da equipe. Os reflexos desse comportamento transpareceram na atitude em aceitar desafios e considerar que os gurus da pecuária não eram inatingíveis, e que a informação tornava-se imprescindível para estimar e explorar o potencial de produtividade das plantas forrageiras em pastagens. Portanto, a interpretação de dados associada a treinamentos pode atender ao ritmo rápido das transformações da pecuária em pastagens que caminha para novos níveis tecnológicos.

Revista AG – O que você diria para quem está iniciando o processo de intensificação da pecuária a pasto?

Moacyr Corsi – Gostaria de alertar aos que querem iniciar ou prosseguir na pecuária sugerindo três passos para o sucesso da implantação segura da intensificação da exploração da pecuária em pastagens. Primeiro passo: comecem pequenos. Em projetos, a média da área intensificada coresponde a cerca de 10% da área total das pastagens na fazenda. O objetivo dessa premissa é o de treinar a equipe, desenvolvendo sua estima e autoconfiança para que possa passar ao segundo degrau da intensificação em pastagens. Segunda premissa: pensem grande. Objetivo é aceitar desafios, bater a meta da produtividade com lucratividade sustentável, usando índices zootécnicos como ferramentas e não como metas. Terceiro passo: progridam rápido. “Quem chega primeiro, bebe água limpa”. Aproveitem porque ainda são poucos os concorrentes enquanto a maioria pensa que metas ousadas de produtividade e lucratividade em pecuária explorada em pastagens intensificadas são impossíveis ou difíceis. Em outras palavras, vai rápido, que agora são poucos os concorrentes que estão fazendo a lição de casa e obtendo resultados muito bons. Mas isso vai acabar e mais gente vai entrar nesse processo. Quando houver mais pecuaristas competindo pelo mesmo prato, vai ser mais difícil a sobrevivência de alguns