Pesquisa

A volta das leguminosas FORRAGEIRAS

Interesse por sistemas diversificados e integrados favorece contexto de retomada especialmente na região Sul do Brasil

Daniel Portella Montardo1 e Miguel Dall`Agnol2

Apesar de conhecidas, as vantagens e a importância do uso de leguminosas parecem ter sido esquecidas ou preteridas pela ampla maioria dos sistemas de produção pecuário ou de Integração Lavoura Pecuária praticados na Região Sul do Brasil. Mas seus excelentes resultados e a preocupação com os altos custos de produção está levando muitos produtores a adotarem sistemas mais diversificados e equilibrados.

Portanto, forma-se um contexto favorável à retomada da utilização de leguminosas forrageiras em todo o Brasil, com destaque para a Região Sul pelo histórico anterior de utilização desse grupo de espécies. No entanto, para que este contexto favorável se torne um potencial realizado, são necessários avanços em diversas frentes de trabalho, sempre se mantendo um alinhamento muito estreito e objetivo entre pesquisa e desenvolvimento, empresas produtoras de sementes e produtores rurais consumidores dessas sementes.

Uma dessas frentes tem sido o melhoramento genético e a disponibilização de cultivares de leguminosas forrageiras temperadas para a região Sul do Brasil. Até pouco tempo atrás, praticamente todas as cultivares utilizadas eram importadas, geralmente do Uruguai ou até mesmo da Nova Zelândia. Apesar de serem cultivares com alguma adaptação, algumas não apresentavam uma produção de forragem considerável ao longo dos ciclos de pastejo e especialmente não persistiam bem sob as nossas condições. Além disso, como a maior parte da produção de sementes era realizada fora do país, havia uma influência muito forte do câmbio sobre o preço final ao consumidor, o que dificultava uma ampla adoção.

Na tentativa de reverter esse quadro, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), através de um convênio com a Associação Sul-brasileira para o Fomento de Pesquisa em Forrageiras (Sulpasto), desenvolveram um programa conjunto de melhoramento genético de leguminosas forrageiras. A estratégia foi apostar na complementaridade de duas importantes instituições públicas, com objetivos e metas similares, na tentativa de disponibilizar, em curto prazo, um conjunto mínimo de cultivares que se adaptasse à diferentes ambientes e sistemas de produção do sul do Brasil.

Assim, desde o ano de 2013 até o momento, foram lançadas as cultivares abaixo. Além dessas, já se encontram em fase final de desenvolvimento uma nova cultivar de alfafa e uma de ervilhaca.

– BRS URS Entrevero, de trevo -branco, espécie perene, recomendada para solos mais úmidos e com boa fertilidade;

– BRS Resteveiro, de trevo-persa, espécie anual, recomendada para solos também úmidos, mas menos exigentes em fertilidade;

– URS BRS Posteiro, de cornichão, espécie perene, recomendada para solos bem drenados e menos exigentes em fertilidade;

– URS BRS Mesclador, de trevovermelho, espécie perene de curta duração, recomendada para solos bem drenados e de boa fertilidade;

– BRS Piquete, de trevo-vesiculoso, espécie anual, recomendada para solos bem drenados.

Outra frente de trabalho bastante importante é a estruturação de um sólido sistema de produção de sementes de leguminosas forrageiras, sem o qual nenhum programa de melhoramento genético de forrageiras poderia ter sucesso, ou seja, a integração entre instituições públicas e a iniciativa privada. Avanços já foram alcançados por meio de uma revisão das normas de produção de sementes dessas espécies, buscando torná -las mais compatíveis com as utilizadas em outros países do Mercosul. Complementarmente a esse aspecto, foram desenvolvidas e/ou adaptadas algumas técnicas de manejo de sementeiras, sistemas de colheita e beneficiamento de sementes com o objetivo de reduzir custos e riscos e aumentar a produtividade.

Estão sendo conduzidas ações de pesquisa no sentido de se buscar a recomendação e o registro de alguns herbicidas para uso em lavouras de produção de sementes de leguminosas forrageiras e testes de validação industrial para inoculação e peletização de sementes. Isso agregaria valor ao produto final e facilitaria muito o uso dessas espécies, favorecendo sua adoção e o alcance de melhores índices de fixação biológica de nitrogênio, com reflexos positivos na produção animal e consequente redução de gases do efeito estufa pelo efeito de melhoria da dieta.

Temos ainda toda a parte de fomento à utilização e aquisição de leguminosas forrageiras nos sistemas de produção da Região Sul do Brasil, o que pressupõe avaliação, validação e recomendação de uso. Talvez, essa seja a parte mais rica e ainda menos explorada do trabalho, pois são inúmeras as possibilidades de uso consorciado com diferentes espécies e cultivares de gramíneas, de inverno e de verão, perenes e anuais, em diferentes ambientes e sistemas de produção, além da possibilidade de melhoramento de campos naturais, típicos da região. A ampla gama de possibilidades, por sua vez, pressupõe o trabalho de muitas instituições, públicas e privadas, de pesquisa, ensino e extensão, bem como o trabalho de muitos produtores nas adaptações e validações necessárias às particularidades dos seus sistemas de produção. Assim, partimos de recomendações mais genéricas que, à medida que são postas em prática, naturalmente, geram novas recomendações gradativamente mais específicas e que permitem atingir novas potencialidades.

Janela de oportunidades

Até o momento sabemos que as leguminosas forrageiras de clima temperado, de modo geral, têm a capacidade de fixar até mais de 150 kg/ ha de nitrogênio por ano. Além da redução de custos, sua utilização traz benefícios ambientais, aumentando a sustentabilidade dos sistemas agropecuários. A experiência de alguns países europeus mostra que o excesso de adubação nitrogenada ao longo de muitos anos pode levar à contaminação por nitratos, tendo por consequência a adoção de medidas duras como indenizações por contaminação de água e imposição de limites rígidos de novas adubações.

Diante do que foi exposto, fica evidente que as leguminosas forrageiras de clima temperado apresentam um grande potencial de contribuição para a pecuária de corte e de leite do sul do Brasil, assim como para sistemas de Integração Lavora-Pecuária, ou lavoura-PecuáriaFloresta. Portanto, sem dúvida alguma, é chegada a hora de uma grande retomada de sua utilização. Sabemos ser ainda possível, e até mesmo necessário, qualificar as recomendações de implantação e manejo dessas espécies, dadas as múltiplas possibilidades de uso. Mas também sabemos que a hora da retomada do uso de leguminosas não pode mais ser adiada, seja por questões de manejo, econômicas ou ambientais.

1Pesquisador da Embrapa Pecuária Sul; 2Professor Titular da Faculdade de Agronomia da UFRGS