Mercado

Quando sairemos dessa?

Continuamos em meio à pandemia. Todo mundo em isolamento! Não, o setor do agronegócio continua a todo vapor, produzindo os alimentos necessários para que as pessoas se protejam adequadamente. No entanto, muitos estão preocupados, pois existem segmentos onde a demanda caiu a praticamente a zero e a recuperação parece quase impossível e longínqua... Após o período de isolamento, serão meses ou, talvez, anos para um pleno reestabelecimento do mercado. Mas o setor já passou por muita dificuldade de toda ordem, e vai superar mais esta.

As indústrias frigoríficas fecharam plantas no país. Vários funcionários entraram em férias, tiveram seus contratos suspensos ou carga horária, reduzida. Isto, obviamente, impacta no mercado e preocupa os pecuaristas quanto ao escoamento da produção e o valor da arroba. Nos Estados Unidos, é diferente e as plantas do JBS não foram fechadas. Política?

Alguns importantes mercados compradores da carne bovina brasileira como a China, por exemplo, estão saindo do isolamento social e, lentamente, voltando à rotina. Isto é um alento para o setor pecuário brasileiro, que depende cada vez mais do mercado internacional. A retomada das exportações nos mesmos níveis pré-pandemia é um desejo de todos no momento. Vínhamos bem, temos que continuar assim.

No quadro Preços do Boi Gordo no Mundo podemos observar os valores da arroba do boi gordo, em dólares americanos, nos quatro principais países exportadores mundiais, no período compreendido entre os dias 16 de março e 15 de abril de 2020.

À exceção da Argentina, nos demais países avaliados, houve queda no valor da arroba neste período. No entanto, em função da forte alta da moeda americana no Brasil, a arroba do boi gordo, em nosso país, apresentou a maior retração de todas, da ordem de 13,83%. Esta desvalorização ocorre há algum tempo, tornando a carne brasileira mais competitiva que as demais no mercado internacional. A Austrália e os Estados Unidos apresentaram queda de 2,03% e 4,06%, respectivamente; na Argentina, leve alta de 0,39%.

A carne brasileira continua mais cara do que a da argentina, que permanece como a mais barata no mercado avaliado. Em relação aos Estados Unidos a diferença é muito significativa, da ordem de 36,49%. A China é o maior importador da carne bovina brasileira; no entanto, aumentou suas compras nos Estados Unidos, promovendo forte concorrência no mercado internacional entre os dois maiores exportadores mundiais do produto.

O próximo gráfico mostra a evolução do preço da arroba do boi gordo por unidade da federação, com a variação de preços da arroba a prazo em nove das principais praças pecuárias do Brasil, pesquisadas entre os dias 16/03 e 15/04/20. A pandemia afetou o mercado. A tendência de queda do período anterior se acentuou e a média do valor da arroba do boi gordo a prazo, nos principais estados produtores, caiu 2,98%. Tínhamos um cenário promissor no início do ano, mas, infelizmente, estamos convivendo com um momento de instabilidade. Não é um cenário desesperador, longe disso, mas é incerto, provocando dúvidas e angústias no produtor.

Todos os estados, à exceção de Santa Catarina, apresentaram retração nos preços. A maior queda verificada foi no Estado de Goiás (5,38%), seguido de Mato Grosso (5,21%), Rio Grande do Sul (3,80%), Minas Gerais (3,53%), Mato Grosso do Sul (3,51%), São Paulo (2,81%), Paraná (2,32%) e Pará (0,56%). Já em Santa Catarina o valor da arroba ficou praticamente estável, com leve alta de 0,29%. O preço de referência da arroba a prazo no estado de São Paulo era de R$ 202,00, na média, e caiu para R$ 196,32, rompendo novamente a barreira dos 200, desta vez para baixo...

O “embate” entre produtores e indústria continua. A campanha “Deixe o seu boi no pasto” procura tentar manter os preços em um patamar satisfatório para os pecuaristas. A exportação está firme, mas o mercado interno ainda manda no negócio apesar da queda na demanda em função da Covid-19. Vamos aguardar um pouco mais para uma análise mais precisa, principalmente pela proximidade do final do período chuvoso.

No gráfico a seguir, podemos ver a média do preço pago pelo macho Nelore desmamado de 180 kg, praticada em oito estados brasileiros entre os dias 16/03 e 15/04/20.

A média de preços da desmama - macho Nelore, oito meses, 180 kg – no período avaliado, foi de R$ 1.627,50, mesmo valor do período anterior. Não houve mudança no cenário geral. No período anterior, a média foi de R$ 1,573,53; assim, o preço da reposição para esta categoria subiu novamente, agora, 3,43%. Mais uma vez, o estado de São Paulo apresentou o maior aumento de preços, da ordem de 12,03%. Na sequência aparece Paraná (3,89%), Mato Grosso (3,77%), Mato Grosso do Sul (3,42%), Minas Gerais (3,40%), Pará (0,91%) e Goiás (0,10%). O único estado a apresentar retração de preços foi o Rio Grande do Sul, (menos 1,80%), com o bezerro cotado na média a R$ 1.350,00, o menor preço do país.

A tendência destes preços é de alta daqui para frente - se nada alterar a normalidade do cenário nacional. Infelizmente estamos vivendo uma era desconhecida, onde ainda tudo pode acontecer. Mas estamos entrando na época de reposição dos animais após a desova dos animais de pasto. Resta-nos aguardar para ver no que dá...

Finalmente, o gráfico da Relação de Troca Média, a seguir, apresenta as relações de troca do bezerro macho desmamado e do boi magro com o boi gordo, no período de 16/03 a 15/04/20.

A relação de troca média, entre desmama e boi gordo, caiu bastante neste período, passando de 1:1,94 para 1:1,84. Assim, o poder de compra do invernista foi bastante reduzido. Isto se explica pela baixa no valor da arroba do boi gordo e pela alta no segmento da reposição. O Rio Grande do Sul é o estado onde o invernista é mais favorecido com o criador adquirindo 2,2 bezerros com um boi gordo. O estado também foi o único dos oito avaliados onde essa relação de troca aumentou, passando de 1:2,16 para 1:2,20. Novamente, foi o estado de São Paulo que contribuiu mais para esta baixa na relação de troca, passando de 1:1,81 para 1:1,57, a pior relação verificada no período.

O mesmo cenário foi verificado para a relação de troca entre boi magro e boi gordo. A retração foi um pouco menor neste caso, passando de 1:1,23 para 1:1,16. A diferença é que, neste caso, todos os estados tiveram sua relação reduzida, incluindo o Rio Grande do Sul. A menor relação foi verificada em São Paulo (1:1,05) e a maior, em Minas Gerais (1:1,29).

O cenário é sombrio. Ao escrever esta coluna tomo conhecimento da demissão do Ministro Sergio Moro. Que sinal isso nos manda? Qual seu impacto na política nacional? Sabemos da pressão que a Ministra Teresa Cristina vem sofrendo. Espero, sinceramente, que o nosso Presidente não interfira no trabalho dela, que tem sido do mais alto nível. Esta é mais uma questão a preocupar o setor.

Em meio à pandemia nada pior do que um quadro político instável. Agora, mais do que nunca, o produtor brasileiro deverá se concentrar no seu trabalho, que é o de produzir com qualidade. Neste momento a gestão e a informação passam a ser mais importantes do que jamais foram. Aliar a tecnologia do campo às mais modernas ferramentas de administração irão fazer do setor agropecuário a mais sólida base de apoio à economia deste país.

Antony Sewell
Engenheiro Agrônomo