Na Varanda

O privilégio do CICLO LONGO

Francisco Vila é economista e consultor internacional
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Durante a atual transição da “normalidade tradicional” para a “nova normalidade pós-Covid-19”, temos a oportunidade e, também, a necessidade de repensar nosso negócio como um todo. Na conversa do mês passado, avaliamos que, enquanto a economia nacional terá problemas – com exceção do agro, bem como da produção de aves e suínos, que serão beneficiados –, o boi, com suas características de produto de luxo, passará por mais dificuldades do que a maioria das outras proteínas. Mas nem tudo que parece ruim não tem, também, as suas vantagens. Por isso, vamos focar, hoje, nos pontos positivos de um ciclo longo de produção.

Os processos de engordar aves e suínos seguem as regras rígidas da produção industrial. As cadeias de produção, compostas por fornecedores de matérias-primas, produtores rurais e indústrias de abate, incluindo a espetacular precisão da logística dos animais vivos no sistema just in time, são rigorosamente definidas e cumpridas. As aves saem das granjas, na média, com 35 dias, e os suínos deixam o produtor com 35 semanas. Caso decorra 10% de tempo a mais, já se absorve toda a margem do produtor que está amarrado funcionalmente no “conceito integrado” dessas carnes.

A situação e a vida do pecuarista são bem diferentes. Mesmo sem querer defender o lendário “boi safena”, temos muito mais liberdade na organização do processo da bovinocultura ao longo de suas três fases de cria, recria-engorda e acabamento em pasto ou confinamento. Somos nós que definimos o mês e a semana do embarque para o frigorífico. Diferentemente da realidade nas outras carnes, não é o relógio biológico do nosso boi que nos obriga a obedecer a uma determinada data já prefixada com antecedência. Mesmo no caso de o caminhão não chegar como combinado, ficamos, sim, estressados, mas não sofremos a dimensão do problema que teria o avicultor se passasse pela mesma situação. Ele tem sua senha na fila de centenas de caminhões que, em intervalos definidos por computadores, terão que descarregar no frigorífico em um determinado dia, horário e minuto. Isso porque, em termos de logística, faz diferença se um abatedouro precisa desembarcar 20 caminhões com 35 bois cada, ou 300 caminhões com 600 mil aves por dia, como é rotina na Companhia C. Vale.

Agora, vamos à especificidade dos ciclos. Temos 35 dias para o frango e 130 dias para os suínos. No caso do boi, temos oito meses para o abate hiperprecoce do novilho (realidade na Europa). Aqui, o novilho superprecoce vai ao abate com peso de 450 kg e idade entre 13 e 15 meses, enquanto a norma do novilho precoce prevê 20 a 24 meses (com dois dentes e 3 mm de gordura). E ainda temos nosso tradicional boi que pasteja entre 24 e 36 meses. Ou seja, enquanto no frango e no suíno não tem conversa, nós podemos organizar o nosso processo produtivo dentro de múltiplas opções. Desde o creep feeding até o rotacionado, desde a suplementação a pasto até o confinamento intensivo, temos uma série de alternativas à nossa escolha. Somos nós que decidimos!

Reclamamos muito da variação dos preços, tanto dos insumos como da @ do boi, além do impacto do câmbio. Porém, às vezes, esquecemos que somos produtores profissionais, e não especuladores que aguardam e sofrem com os altos e baixos dos preços antes e depois da porteira. Nosso negócio é produzir! Se usarmos as ferramentas da gestão de risco – como a trava de preços na bolsa ou a venda a termo – e se intensificarmos o uso do pasto com modelos de rotacionado, ou, pelo menos em parte, com irrigação e plantação de milho ou cana para silagem estratégica, teríamos a oportunidade de eliminar a maior parte desses chamados “riscos da pecuária”.

Ao fazermos uma simulação de impacto com a atual crise da Covid-19, podemos igualar as aves à floricultura; os suínos, ao ciclo do milho; e a pecuária; à cana ou à floresta. Mesmo lembrando que a carne bovina sofrerá mais com a redução da demanda, temos muito mais ferramentas à nossa disposição que podemos implantar e corrigir ao longo de um período de dois anos. Ou seja, dispomos de um período razoável de recuperação da atual crise de saúde enquanto ela afeta em cheio as nossas carnes concorrentes.

É verdade que os impactos imediatos da quarentena estão diminuindo a demanda por carne de qualidade, seja no mercado interno, seja na exportação. Porém sofreremos menos com a volatilidade insana do preço da @ sobre a maior parte do “estoque do nosso patrimônio móvel” que são os bois no pasto com prazos de acabamento de ainda seis a 20 meses. Somente os animais já comprometidos contratualmente ou aqueles que se encontram no confinamento sofrerão mais diretamente com a indefinição do consumidor. Antevendo que a crise sanitária se resolverá até meados do ano e a demanda por carne voltará a um patamar mais normal a partir do início do próximo ano, temos apenas uma parte do nosso estoque de animais concretamente prejudicada.

Em um ciclo completo de 24 meses, com um nível tecnológico médio de pastagem rotacionada e um confinamento estratégico na fazenda, de um rebanho de mil animais, teríamos apenas um terço na zona de impacto direto da crise. Seriam os programados para o abate ainda durante este ano. O restante já chegará no mercado em condições pós-crise, ou seja, com demanda e preços normalizados dentro do novo patamar de consumo. No entanto, teremos que contar com uma sociedade que aprendeu e, consequentemente, mudou algumas de suas rotinas em função das experiências da crise e da maior convivência em função do lockdown. Como será essa nova normalidade pós-Covid-19 só saberemos ao longo dos próximos dois anos. Enquanto isso, vamos continuar trabalhando. Vamos focar um pouco mais na gestão do nosso ciclo e tentar sofrer menos com a oscilação de preços que não podemos influenciar. Pois, agora sim, finalmente vamos travar nossa produção na bolsa!