Caprinovinocultura

Tradição e inovação na produção de cordeiro

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Seguindo as origens da família na Espanha, irmãos Quirós concentram trabalho na valorização da carne ovina com atuação em toda a cadeia, desde o campo até o consumidor final

Denise Saueressig
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Carregando a ovinocultura no DNA, os irmãos Priscila e Guto Quirós administram a Cabanha Oviedo, em Morungaba, na Região Metropolitana de Campinas (SP). O investimento teve início em 2009, depois de receberem uma correspondência da Espanha. Na carta, chegava o aviso de que completavam 100 anos da criação de cordeiros pela família em Oviedo, capital das Astúrias, na Espanha. Quirós também é um município da mesma região, conhecido pela tradição na arte de preparar o cordeiro.

A motivação para começarem o próprio negócio no Brasil foi seguida de estudo de mercado e planejamento detalhado. Hoje, os irmãos trabalham com um rebanho de 1,5 mil matrizes e completam o processo produtivo com o fornecimento de cortes de cordeiro com a marca Quirós Gourmet.

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Guto Quirós foca na sustentabilidade e na produção da alimentação do rebanho na própria fazenda

O bem-estar animal e a sustentabilidade são prioridades em todas as etapas. A água consumida pelo rebanho é fornecida por mais de 15 nascentes existentes na propriedade. O manejo reprodutivo é conduzido por monta natural. Os recém-nascidos permanecem com as mães em pasto separado e recebem, por dois meses, alimentação complementar por creep feeding. A estrutura é preparada para proteger o rebanho do ataque de onças e gaviões, trabalho que tem o auxílio de cães pastores da raça Maremano. Por volta do terceiro mês de vida, os cordeiros seguem para confinamento, onde ficam por mais dois meses. Os galpões têm estrutura de conforto térmico para manter a temperatura estável e evitar o estresse com frio ou calor extremos. “Uma carne mais macia, com mais marmoreio e sabor agradável só será pos sível se tratarmos bem os animais”, frisa o produtor Guto Quirós, CEO da Quirós Gourmet.

O padrão para o abate, que é realizado em um frigorífico em Botucatu (SP), é de 45 quilos com idade entre quatro e cinco meses. A base genética é Poll Dorset, e o rebanho comercial é resultado de cruzamentos com as raças Hampshire Down, White Dorper e Texel. Há alguns anos, os irmãos chegaram a ter parcerias com outros criadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul para o fornecimento de cordeiros com o mesmo padrão de qualidade. Atualmente, no entanto, os animais que seguem para o abate – em torno de 350 ao mês – são todos produzidos na própria cabanha. “Essa experiência que tivemos mostra que é possível garantir o fornecimento em uma escala adequada criando uma corrente de criadores. Como existe sazonalidade na produção, uma propriedade pode ajudar a outra em momentos de entressafra”, argumenta o produtor.

Momento para avaliar processos

Toda a alimentação do rebanho é produzida na fazenda. O pasto é de capim aruana e as lavouras de soja e milho fornecem os ingredientes da ração dos cordeiros em confinamento. “Também cultivamos cana e capim napier para a suplementação. Quem vive o dia a dia do campo, sabe: é preciso plantar comida para os animais e pensar sempre em alternativas para a redução de custos com a alimentação”, salienta Quirós.

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Condução do manejo inclui preceitos de bem-estar, como conforto térmico para os animais

Os irmãos têm planos de ampliação do plantel para em torno de 3 mil matrizes e com a certeza de não ultrapassar o número de 5 mil fêmeas para manter o status de “fazenda conceito”. O momento do investimento, no entanto, está condicionado ao retorno à normalidade pós-coronavírus. “Agora, a prioridade é aperfeiçoar o trabalho, reduzir custos, criar novas batidas de ração e desenvolver a genética. Acredito que é hora de todos os produtores olharem para dentro e analisarem seus processos em busca de melhores resultados”, considera o criador, que, em 2019 também iniciou testes de controle de manejo com drones dos ovinos a pasto. A intenção é promover mais eficiência ao gerenciamento do rebanho.

Versatilidade no fogão e na churrasqueira

Os cortes com a marca Quirós Cordeiros Gourmet chegam ao consumidor em diferentes versões, desde o carré francês até a carne moída. A demanda para entregas aos restaurantes, que respondem por 63% das vendas, teve queda de 85% desde o início das medidas de distanciamento social, em março. “O cordeiro tem sazonalidade, e é natural que a maioria dos restaurantes que estão trabalhando com delivery montem um cardápio com pratos de maior procura”, constata Quirós.

O empresário lembra que, no Brasil, há três picos de maior procura da carne ao longo do ano: no período da Páscoa, no Dia dos Pais, que é comemorado em agosto, e nas festas de final de ano. “Nosso consumo é estimado em apenas 400 gramas por pessoa ao ano, enquanto a carne bovina chega a 35 quilos. Quando pesquiso sobre países com alto consumo, como Nova Zelândia, Austrália, Argentina e África do Sul, percebo que é uma questão cultural, de pessoas que são estimuladas desde crianças”, analisa.

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Técnicas e preparos de pratos são divulgados pelo empresário em canais na internet

Quando compram a carne da marca Quirós, os clientes recebem junto uma cartilha de receitas. O empresário também divulga diferentes técnicas e preparos de pratos em redes sociais e em vídeos publicados no YouTube. “Nossa ideia é entregar uma experiência completa”, resume Quirós, que pretende ajudar a introduzir a proteína no dia a dia do brasileiro e mostrar sua versatilidade no fogão e na churrasqueira. “Divulgo receitas para quebrar o paradigma de que é uma carne de difícil preparo, montando pratos como estrogonofe, pizza e hambúrguer”, detalha.

Atenção ao consumidor final

O produtor revela que se sente feliz por perceber o aumento no número de marcas de carne de cordeiro no mercado e o maior interesse dos consumidores nos últimos anos. “Costumo dizer que é o cliente final que deve pressionar a ponta do processo, pedir pela carne nas lojas e nos restaurantes. Assim, a oferta é estimulada”, destaca.

Há quase dez anos, a Quirós Gourmet investe no e-commerce, modalidade de comercialização que responde por 25% do faturamento. O início foi via e-mail e, hoje, os clientes podem efetuar as compras no site da empresa. As entregas são realizadas para quase 60 cidades em 16 estados, e o foco é ampliar cada vez mais as vendas diretas ao consumidor e a casas de carnes. “Nossa operação continua ativa, apesar dos desafios do momento. Esperamos que logo tudo volte à normalidade, porque temos animais prontos para o abate”, afirma.

Antes da crise do coronavírus, a Quirós Gourmet estava investindo em eventos gastronômicos, festivais de churrasco e encontros com clientes na própria fazenda. “Estamos em um momento de maior conexão com o consumidor final, pensando nas pessoas que já estão preparando mais sua comida em casa para receber a família e os amigos. Acredito que a gastronomia surge quando a pessoa transforma a necessidade de comer em prazer. E é justamente a gastronomia que gera o maior elo entre a cidade e o campo”, ressalta.

Incentivo às novas gerações

Guto Quirós tem 30 anos e também tem utilizado sua vocação empreendedora e os conhecimentos de administrador de empresas para estimular outros jovens a investirem no agronegócio. “Em 2015, quando iniciei um trabalho mais intenso nas redes sociais, o foco era disseminar a cultura do consumo da carne de cordeiro no Brasil. No entanto, passei a receber muitas mensagens de jovens que se diziam inspirados e que passaram a demonstrar interesse pelo setor. Nesse momento, percebi que poderia fazer a minha parte me conectando mais a essas pessoas”, relata.

O empresário participa de eventos como palestrante em diferentes regiões do País e lembra que vem aumentando a presença da nova geração no campo. Ele cita dados de uma pesquisa da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), que revela que 21% das decisões são tomadas por produtores com idade entre 26 e 35 anos. O mesmo estudo, de 2017, também indica que a idade média dos produtores é de 46,5 anos, número 3,1% abaixo em relação à pesquisa realizada em 2013. “Crescemos em meio a uma cultura de êxodo rural e estamos trabalhando para mudar essa realidade. Quando falo a esse público, destaco a importância da conexão do campo com a cidade sustentada nos pilares de tecnologia, sustentabilidade, gastronomia e finanças”, assinala. O trabalho de estímulo aos mais jovens também inclui um projeto que leva crianças para conhecerem o sistema de produção na Cabanha Oviedo.