Nutrição

Potência MÁXIMA

Como identificar e driblar os fatores limitantes à qualidade nutricional dos pastos cultivados

Luiz Antonio Queiroz Filho1; Joana Gasparotto Kuhn2; Luís Felipe Bellebone Brum3; Júlio Barcellos4

No Brasil, encontramos um potencial para a produção de pasto que poucos lugares do mundo possuem. Produzimos em pastagens nativas ou cultivadas, de clima tropical ou de clima temperado, perenes ou anuais. Temos pouco frio, com exceção da região Sul, e muita água, mesmo que escassa em algum período do ano. Outros países não possuem este potencial forrageiro e climático, devendo utilizar outras estratégias alimentares para a produção de carne bovina. A utilização de grãos e alimento conservado em países do Hemisfério Norte é um exemplo. Cerca de 90% dos bovinos de corte abatidos no Brasil alimentam-se a pasto. Outros 10% são de animais terminados em confinamento. Deste modo, vamos elencar alguns fa tores que contribuem para a variação da qualidade nutricional do pasto.

Primeiramente, é necessário estabelecer e definir alguns parâmetros para que se possa aferir a qualidade da pastagem. A água é o principal constituinte das plantas, podendo representar entre 30% a 90% da sua composição. Esses teores variam em função da disponibilidade de água no solo e do estádio fenológico (de desenvolvimento) das plantas, dentre outros fatores. Em razão disso, descontando-se a água, têm-se a Matéria Seca (MS), utilizada para analisar a qualidade das forragens.

Um parâmetro importante na determinação da qualidade do tecido vegetal é a Fibra em Detergente Neutro (FDN). Expressa em termos percentuais (%) da MS, a FDN representa a quantidade de celulose, hemi celulose e lignina, portanto, a porção de menor valor nutricional da planta. A lignina é um composto não é degradado no rúmen e sua presença afeta a degradação de outros compostos como os carboidratos estruturais. Sua quantidade aumenta à medida que os tecidos da planta envelhecem, interferindo no consumo dos animais, que diminui à medida que os teores de FDN aumentam. Valores de FDN abaixo de 50% permitem que o consumo dos animais não seja afetado.

A Proteína Bruta (PB) é outro parâmetro de qualidade. Além de ser fonte de aminoácidos para os animais, também é fonte de nitrogênio e aminoácidos para os microrganismos do rúmen. Os microrganismos produzem enzimas a partir da PB aliada a uma fonte de energia (amido, açucares etc.). Estas enzimas vão degradar o alimento ingerido pelos animais, produzindo energia para que ganhem peso. Níveis de PB na planta em torno de 13% permitem que os microrganismos se proliferem de forma eficiente, aproveitando o máximo do alimento ingerido. Já os nutrientes digestíveis totais (NDT) são expressos em percentual da MS, e quantificam a energia contida nos alimentos. Este parâmetro representa os componentes digestíveis da planta. Na figura 1, temos alguns valores de referência em diferentes forrageiras.

À medida que as plantas vão se desenvolvendo e amadurecendo, os níveis de PB e NDT vão diminuindo e os valores de FDN vão aumentando, ocorrendo, portanto, perda da qualidade nutricional das plantas. Ficar de olho nestas mudanças para aproveitar ao máximo os nutrientes do pasto e analisar fatores que podem afetar estas características é fundamental.

Interferências na qualidade

Dentre os fatores que podem afetar a qualidade nutricional dos pastos (Figura 2) estão as variáveis ambientais, como as temperaturas extremas e a radiação, que promove a atividade fotossintetizante das folhas, fazendo com que absorvam mais nutrientes e cresçam. Em relação ao solo, podemos interferir na sua fertilidade, que deve ser assegurada pelo seu manejo. Práticas conservacionistas como seu não revolvimento podem garantir menor oscilação na temperatura da terra e maior umidade.

A capacidade de retenção água é outra característica importante. Solos com maiores teores de argila retêm mais água, no entanto podem dificultar sua absorção pelas plantas. Já solos mais arenosos retêm menos água, mas permitem maior absorção pelas plantas. Forragens com menor disponibilidade de água diminuem a quantidade de composto digestível e proteína, aumentando a participação da FDN.

Outra variável que afeta a qualidade da forragem são as características do pasto. Plantas forrageiras de clima temperado, também denominadas C3, de forma geral, possuem maiores teores de PB e NDT e menores teores de FDN para um mesmo estádio fenológico (de desenvolvimento) quando comparadas a plantas de clima tropical, também denominadas C4. Isso decorre das condições ambientais em que estão adaptadas a produzir, como temperaturas mais baixas e radiação solar menor. Como adquirem mais eficiência na utilização desses recursos - radiação e temperatura – acabam por manter quantidade maior de proteínas nas folhas, por exemplo. Portanto, plantas do tipo C3 possuem maior qualidade, gerando ganhos médio diários acima de 1kg/animal. Já plantas do tipo C4 produzem mais e estão adaptadas a condições de radiação solar mais abundantes e temperaturas mais elevadas, permitindo maior capacidade de suporte e lotações acima de 5 UA/ha.

Fases de desenvolvimento

Podemos descrever, pelo menos, quatro fases de desenvolvimento das plantas forrageiras. Na primeira fase, ocorre o crescimento inicial das plantas, logo após a germinação. Nesta fase as plantas têm muitas folhas e poucas hastes. A qualidade nutricional é muito alta, já que as plantas possuem basicamente folhas. Esta é a fase de implantação de uma pastagem, portanto não se recomenda o pastoreio nesse período.

Em uma segunda etapa, começa o perfilhamento e a qualidade nutricional vai mudando. Esta é fase de desenvolvimento quando ocorrem as maiores taxas de crescimento e quando devemos utilizar com os animais. Pastejos moderados são aqueles que tem permitido que os animais aproveitem ao máximo a qualidade das forrageiras.

Na terceira fase começa a emissão de hastes de florescimento, momento em que decai a qualidade do pasto. Ajustes de lotação nesta fase permitem que os animais possam selecionar melhor sua dieta, aproveitando os nutrientes restantes na pastagem.

Por fim, na quarta fase, ocorre a floração plena, onde a qualidade do pasto é muito baixa. Com a maturação das plantas, ocorre aumento da participação da lignina, as plantas “engrossam” e perdem qualidade rapidamente; a proteína decai, e seus componentes são realocados para outras funções na planta, como a produção de sementes.

Manejo

Podemos definir o manejo, como a gestão dos recursos disponíveis. Fazê-lo da melhor forma, utilizando as técnicas disponíveis, no momento correto, traz maior eficiência para os sistemas de produção. O tipo de pastoreio pode afetar a qualidade da forragem consumida pelos animais. Assim, se utilizarmos pastoreio rotacionado e permitirmos um rebaixamento excessivo das plantas, os animais irão consumir hastes e colmos que possuem menor qualidade (menor PB e NDT e maior FDN) do que se forem consumidas somente as folhas. Estratégias de manejo associadas à redução do período de pastoreio em cada piquete, permitem que o gado tenha acesso a maior proporção de folha verde na estrutura da planta.

Medir e acompanhar a altura do pasto é ótima ferramenta de manejo. Cada espécie possui sua faixa ótima de altura de utilização com os animais. Respeitar estas alturas possibilita aproveitar ao máximo a produção e qualidade nutricional dos pastos. Dentro do manejo, o correto ajuste da lotação (UA/ha) ou carga animal (kg PV/ha) são fundamentais para que a qualidade do pasto possa ser mantida. Em pastagens nativas ou cultivadas, a utilização de cargas animais acima da capacidade de suporte do pasto (sobre Figura 1 - Parâmetros de qualidade em forrageiras para bovinos. Sistema de cultivo deve utilizar plantas que produzam em condições específicas para cada propriedade REVISTA AG - 23 pastejo), oportunizam o aparecimento de plantas indesejáveis, com menor qualidade nutricional, que muitas vezes não são consumidas pelos animais, podendo levar vezes à degradação da pastagem. Já o subpastejo, ou a utilização de cargas animais abaixo da capacidade de suporte do pasto promove o envelhecimento do material vegetal, diminuindo a qualidade nutricional da forragem e o desempenho dos animais

Melhorar a qualidade nutricional das plantas forrageiras é um tema que passa, também, pela pesquisa de novas cultivares, papel que as diversas instituições de pesquisas no nosso país têm desempenhado de forma plena. Junto aos esforços do melhoramento genético, as contribuições que o campo pode dar também são amplas. Cuidar da fertilidade dos solos, principalmente, os sistemas de cultivo a serem utilizados, para manter esta fertilidade; utilizar plantas que produzam em condições específicas para cada propriedade.

1Doutorando NESPro/UFRGS, 2Bolsista Iniciação Empreendedora NESPro/UFRGS, 3Prof. Dr. NESPro/UFRGS