Reportagem de Capa

Reposição apertada pede recria acelerada

Aumentar a lotação (poder de compra) e os Ganhos Médios Diários (GMD) podem ser opção para driblar oscilações de mercado

Lais Bellodi Arruda1 e Marina Zaia2

A maior parte da recria, no Brasil, é feita a pasto. Porém, a pressão do mercado por animais jovens e bem acabados e o alto custo de produção está fazendo com que muitos comecem a optar pela intensificação da atividade. Além de reduzir o tempo de confinamento e a idade de abate dos animais, a aceleração do ciclo vem ao encontro do que busca a indústria frigorífica, tanto para exportação como para o mercado interno. Afinal, são eles os preferidos do mercado externo e para produção das carnes premium, mercado em franca expansão no Brasil.

A opção pela recria intensificada também tem acontece por conta dos altos custos de produção e da escalada nos preços de reposição. Conforme a Scot Consultoria, o quadro se deve à demanda aquecida por animais associada ao abate de fêmeas dos últimos anos, que limita a oferta de bezerros em curto prazo no mercado. Assim, a tendência é que, para os próximos anos, além da re Reposição apertada pede recria acelerada Lais Bellodi Arruda1 e Marina Zaia2 cente retenção de vacas, do aumento o uso de tecnologias em reprodução e em sanidade, seja também necessário intensificar do sistema de cria, cenário este que decorrente do aumento da participação de matrizes em reprodução.

Assim, intensificar o sistema através do aumento de lotação (poder de compra) e Ganhos Médios Diários (GMD) pode ser a solução para a recria enquanto a oferta de reposição continuar apertada e o mercado incerto. Conhecer seus custos e índices produtivos permite ao recriador analisar de forma mais assertiva a influência do momento do mercado dentro da sua propriedade e ter confiança em tomadas de decisão. Afinal, nada custa mais caro que a ausência de informação.

Mas mudanças na forma de pensamento serão necessárias para colocar a pecuária em situação mais competitiva diante de outras alternativas do uso do solo. O incremento da produção não se dará pelo aumento da área, mas sim pela produtividade por hectare, o que justifica a fala de que “Não se ganha mais dinheiro na pecuária como antigamente”. Por isso, com a premissa de que o mercado é soberano e de que o momento dos preços é de alta, o recriador deve voltar sua atenção aos índices que compõe sua produtividade e conhecer seus custos

O aumento da produção pela intensificação é alavancado com a taxa de lotação. A adubação, principal componente do custeio em sistemas intensivos, eleva o desembolso da área, mas responde na quantidade de arrobas produzidas, como demonstrado na Tabela 1, referente aos índices produtivos e econômicos de seis anos do Projeto Canivete Intensificação – Nutripura, realizado na Região de Rondonópolis (MT), por exemplo, o aumento de 69% no nível de adubação (192 kg para 324 kg de N/ha por ano) elevou de forma semelhante a produção, 68%, mas em apenas 37% os custos. Ou seja, o crescimento do custeio ocorre de maneira mais lenta que a produtividade, o que resulta em melhores margens técnicas do sistema (apenas custo operacional, não leva em consideração a compra do animal). Esse índice, na mesma comparação, aumentou 135%. Portanto, apesar da constante diminuição na relação de troca, o aumento no valor da margem eleva o poder de compra da fazenda.

A Tabela 1 também mostra que a intensificação resultou em maiores GMD em níveis mais altos de adubação. Esse resultado é explicado pelo melhor manejo desses módulos, obtido pelo treinamento das equipes. Além de auxiliar na produtividade, o GMD é fundamental para definir o sucesso do sistema, uma vez que é capaz de diluir do ágio.

Considerando a @ do boi gordo de R$200,00 (R$ 6,66 kg de PV) e o preço do bezerro de 225 kg de R$1800,00 (R$ 8,00 kg de PV), as equações abaixo mostram como o GMD pode trabalhar a favor do pecuarista: Confira abaixo a diferença do preço da reposição e do boi gordo no valor total do bezerro:

R$ 8,00 kg do bezerro-R$ 6,66 kg do boi gordo=R$ 1,34 de ágio por kg de Peso Vivo (PV)

R$ 1,34 de ágio por kg de PV*225 kg do bezerro=R$ 301,50 no animal

Dessa forma, comparando este valor com o preço obtido na venda do boi gordo, o ganho necessário por animal para pagar essa diferença é de:

(R$ 301,50) / (R$6,66 kg do boi gordo)=45 kg de PV para pagar o ágio

Comparando dois ganhos de peso de 0,400 e 0,700 kg/cab.dia, em um período de 180 dias, a produção por animal será de 72 kg e 126 kg, respectivamente. Nessas condições, o sistema com menor ganho de peso destina 63% de seu tempo (45 kg/72 kg) para pagar o ágio, enquanto que, onde o GMD é de 0,700 kg/cab.dia, 36% está comprometido para este fim.

Ciclo de preços pecuários

Após a instauração do ciclo de baixa nos preços pecuários registrado entre 2016 até meados de 2018, as fêmeas tiveram participação relevante nos abates. Traduzindo para números, em 2016, considerando os abates formais, cerca de 11,4 milhões de fêmeas foram para o gancho, já 2018 a quantidade bateu 13,3 milhões (IBGE).

Por este motivo, com menor disponibilidade de matrizes para reprodução e menor interesse pela cria, menos fêmeas foram destinadas para reprodução. Este quadro abalou a oferta de bezerros, garrotes e bois magros nos anos seguintes. Por isso, atualmente, obedecendo os fundamentos do mercado, a menor oferta, adicionada a demanda aquecida, tem valorizado a reposição.

E esse quadro não é exclusividade do mercado pecuário em São Paulo. Em outros estados, que também são referência na produção de gado, os preços da reposição também estão valorizados. Veja na tabela 2 como tem sido o comportamento dos preços ao longo dos últimos dois anos, usando as cotações do bezerro de ano de 7,[email protected] ou 225kg como referência. Em algumas regiões, como em Tocantins, por exemplo, a variação de preço, considerando o período entre janeiro de 2020 e janeiro de 2018, chegou próximo de 70%.

A tabela 2, de certa forma, justifica o que muitos produtores já devem ter falado ou ouvido falar: “Antigamente era mais fácil comprar bezerros” ou “Não se ganha mais dinheiro na pecuária como antigamente.” Essa afirmação faz sentido, pois, ao longo dos anos, a relação de troca está piorando para o recriador e invernista.

Mas, antes de falarmos sobre dados, é importante ter em mente o que é a relação de troca e qual a importância de analisá-la. A relação de troca é a medida feita entre arrobas de boi gordo e bezerro, e aponta para o recriador/invernista, quantas arrobas de boi gordo ele precisa vender para comprar uma cabeça de bezerro.

Essa relação é um importante termômetro para avaliar o poder de compra do recriador/invernista. Desta forma, quando a arroba do boi gordo sobe mais do que o preço do bezerro, o poder de compra do recriador/ invernista aumenta. Ou seja, ele precisará de menos arrobas para comprar um bezerro.

O contrário também acontece. Quando as cotações do bezerro sobem mais do que a cotação do boi gordo, o número de arrobas de boi gordo necessárias para a compra de um bezerro aumenta.

Da década de 1980 até hoje, o número médio de arrobas de boi gordo necessárias para a compra de um bezerro de 12 meses saltou de 5,4 para 8,6. Ou seja, o produtor precisa desembolsar 3,2 arrobas de boi gordo a mais para comprar um bezerro.

Esta tendência deve prosseguir pressionando as margens e o resultado final da atividade de recria e engorda, por isso a saída é o aumento da eficiência produtiva para explorar ao máximo o potencial desse bezerro.

Pensando no ciclo, vimos que, ao longo de 2016 até 2018, mais vacas foram abatidas em função do período de retração dos preços pecuários. Atualmente, seguindo a lei do ciclo de preços, com a recuperação das cotações dos animais de reposição e a consequente melhora da atratividade da cria, deu-se início ao movimento de retenção de matrizes. Ou seja, nos próximos anos podemos esperar uma oferta “mais folgada” para os animais de reposição, já que menos vacas têm sido destinadas para os frigoríficos.

Entretanto, uma novidade no mercado chamou a atenção ao longo de 2019, que foi a explosão da demanda por novilhas. O abate de novilhas tem aumentado em decorrência do desenvolvimento dos programas de carne de qualidade, e também no aquecimento da demanda da China. Os chineses compram somente bovinos com até 30 meses, o que estimula a demanda por esta categoria.

Veja na figura 3 que de janeiro a setembro de 2019 (últimos dados disponibilizados pelo IBGE), foram abatidas 3,3% a menos vacas que o mesmo período de 2018. Na contramão, houve um aumento de 12,3% no abate de novilhas na mesma base de comparação.

Para se ter uma ideia, considerando o intervalo de janeiro a setembro de 2009, foram abatidas 1,3 milhões de novilhas, em 2019 a quantidade mais do que dobrou no mesmo período e alcançou a marca de 2,8 milhões de cabeças abatidas. Ou seja, por mais que o ciclo de preços auxilie o produtor a traçar estratégias de comercialização, o mercado de reposição tende a seguir apertado nos próximos anos, com menos oferta de animais e mais pressão sobre as margens. Assim, a melhor saída para garantir os lucros no final da operação é a intensificação, por meio do uso de tecnologias, onde os custos fixos serão diluídos e ajudarão na composição positiva do caixa da fazenda.

Mercado de reposição

O ano de 2019 passou e deixou marcado na memória dos pecuaristas, uma volatilidade inusitada e surpreendente no mercado. Após passar por meses tediosos, o final do ano foi agitado e os preços da arroba do boi gordo variaram de R$5,00 a R$10,00 por dia! Assim, o boi gordo que começou novembro cotado próximo de R$170,00/@, bruto e à vista em São Paulo, terminou o mês sendo negociado a R$230,00/@, nas mesmas condições. Isso representa uma alta de R$60,00/@ em 30 dias.

Esse quadro foi em decorrência da demanda aquecida chinesa, do incremento sazonal do consumo de final do ano e também do prolongamento da estiagem do segundo semestre que atrasou a engorda dos animais. Mas, com o passar do tempo, esses efeitos foram amenizados e o mercado retomou a serenidade e o equilíbrio nas cotações.

Houve um recuo, uma acomodação nos preços do boi gordo. Os preços encontraram um novo patamar. Não estão altos como estavam em meados de novembro, mas historicamente, as cotações estabilizaram-se num nível elevado. A questão é que, como há intensa correlação entre os preços do boi gordo e os preços dos animais para reposição, as altas na cotação do boi gordo, elevaram a cotação da reposição, um dos principais componentes do custo da produção de invernistas/ recriadores.

Veja na figura 1 que os preços do boi gordo estiveram acomodados em boa parte do ano, reagiram em novembro e caíram em dezembro. Já a valorização dos animais para reposição estiveram acima das valorizações do boi gordo em boa parte do ano, e apesar de terem subido menos em novembro/dezembro, os preços são de alta sustentada (figura 1). Essa trajetória de preços firmes se dá pela menor oferta de animais.

É importante destacar que a duração do ciclo de preços tem encurtado. Então, o período do ciclo completo, que antes era de aproximadamente dez anos, diminuiu praticamente pela metade. Esse fenômeno é reflexo do aumento de tecnologia aplicada na pecuária. Com a intensificação e aplicação de tecnologias, a idade média do abate dos bovinos tem reduzido, e além disso, os índices reprodutivos das matrizes tem melhorado.

Isso permite maior produção de bezerros em menor espaço de tempo, lembrando que ainda há um grande espaço para aplicar tecnologias na fase da cria, o que pode reduzir ainda mais a duração do ciclo de preços.

Entender o ciclo de preços é importante para o pecuarista traçar suas estratégias de compra e venda na fazenda. A dica sempre é: em períodos de baixa, procure adquirir maior número de animais jovens e elevar o estoque da fazenda para liquidá -lo no momento de alta, expandindo assim as margens. Já em períodos de alta não diminua os investimentos. É interessante acelerar a engorda para se livrar do estoque “caro” e minimizar a pressão sobre as margens.

Por fim, mais importante do que o preço de amanhã do bezerro é monitorar a tendência do mercado e sempre garantir a produtividade da porteira para dentro.

1 Engenheira Agrônoma formada pela Esalq/USP e consultora técnica em produção de bovinos de corte 2 Médica veterinária e analista de mercado da Scot Consultoria