Reprodução

Genética customizada para prenhez precoce

Pecuaristas investem em ferramentas para aumentar a precocidade sexual e de acabamento aliadas à eficiência alimentar

Gustavo Morales1

A fase de recria merece tanta atenção quanto qualquer outra etapa do ciclo de produção, mas é comum que ela seja esquecida pelos criadores, que acabam se concentrando em outras atividades na fazenda, na tentativa de alcançar a rentabilidade mais alta possível. A verdade é que a recria, quando bem planejada e com o auxílio valioso da genética e de um manejo de qualidade, é capaz de se tornar um fator que contribui de forma significativa para a lucratividade de todo o sistema de produção.

Atualmente, percebe-se um número crescente de criadores que exploram a Gustavo Morales1 recria com o objetivo de obter prenhezes precoces. Ao se trabalhar a recria de forma intensa, começando assim que o animal sai da fase de desmama, tem-se como resultado um animal mais jovem ingressando na fase de terminação, encurtando o tempo necessário para que ele se reverta em lucro para a fazenda.

Esse aumento na atenção voltada para a recria é muito positivo. Aliando a prática à melhora da nutrição, do manejo e da genética, é possível alcançar benefícios importantes para qualquer rebanho: precocidade sexual, precocidade de acabamento, maior desempenho, eficiência alimentar e produtiva como um todo. E por que isso acontece? Porque se trata de um animal jovem, extremamente eficiente e com um potencial de exploração muito grande.

Vale ressaltar que a genética desempenha um papel extremamente relevante nesse contexto. Afinal, ela já se consolidou como uma ferramenta que viabiliza de forma eficiente, controlada e rápida exatamente essas características: a precocidade, a eficiência alimentar, o acabamento, a conformação, enfim – as características desejáveis em cada sistema de produção.

É graças à genética que o produtor brasileiro está conseguindo expressar a precocidade sexual, no caso das fêmeas, e a precocidade de acabamento, para os machos. Se compararmos os sistemas produtivos do nosso país e dos Estados Unidos, é fácil perceber o quanto a fase de recria nas fazendas norte-americanas é muito mais curta. Isso acontece em função do modelo de produção que é usado por lá.

Não é coincidência, por exemplo, que a inseminação artificial cresce sem parar no Brasil. O mais recente Relatório ASBIA Index, da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), unidade da Universidade de São Paulo (USP), deixa isso muito claro, ao trazer à tona os dados referentes ao ano de 2019.

Já ultrapassamos os 18,5 milhões de doses de sêmen comercializadas, um aumento de 18% em relação ao ano passado, em que se movimentaram 15,6 milhões. Desse total, quase 12 milhões de doses correspondem a raças de corte. Isso evidencia ainda mais o quanto o produtor está voltando a sua atenção para a genética. Entre 2018 e 2019, o crescimento da comercialização de sêmen de corte cresceu 23% - um resultado inegavelmente expressivo.

Aqui, como estamos partindo para um sistema cada vez mais intensivo, a recria torna-se cada vez mais importante e, ao mesmo tempo, desafiadora porque a precocidade – sexual e de acabamento - precisa ser alcançada o mais cedo possível, assim a precocidade de acabamento e a eficiência alimentar. E as três apenas são possíveis de se obter por meio do melhoramento genético. E é por isso, essencialmente, que a genética se mostra tão absolutamente essencial.

Um bom exemplo é a Fazenda Maranata, propriedade do senhor Marcos Albino. Pecuarista de corte do Tocantins, atendido pela ABS, que investe no aumento de potencial da transferência de embriões para garantir boas taxas de prenhez e acelerar o melhoramento genético da fazenda.

A propriedade fez uso de uma tecnologia customizada para seu sistema de produção, reduzindo o tempo e os gastos necessários para se chegar à terminação, levando um boi precoce e com acabamento completo para o frigorífico. E o resultado não podia ser melhor: já na primeira inovulação, transferimos 204 embriões, que deram origem a 114 prenhezes confirmadas, ou seja, a taxa de prenhez foi de 55,88%.

Outro fator que merece destaque são as DEPs, já que elas mensuram precisamente esses traços dos quais falamos – é claro, com a participação da nutrição, de um bom manejo e sem deixar de lado a questão sanitária. Com tudo isso, é possível antecipar um ano de produtividade na fêmea, ou abater um macho com um ano de antecedência no confinamento. Esse é o grande resultado, e vai mudando aos poucos em função da necessidade do aumento da produtividade por área, que se relaciona à competitividade da pecuária em relação a outras atividades, como a agricultura.

Indução de hormônios

Para realizar a inseminação em novilhas, primeiramente, é preciso estimular a puberdade. Por isso, a maioria dos pecuaristas brasileiros vem recorrendo a um protocolo de indução por meio da aplicação controlada de hormônios.

O primeiro passo desse protocolo, após a avaliação das novilhas, é instalar um implante de progesterona no animal, que atuará durante 12 dias. Após este período, o implante é retirado e aplica-se o ciprionato de estradiol. Ao fim de outro período de 12 dias, a novilhada é avaliada novamente para se verificar o resultado da indução. Em caso positivo, nestes animais, o processo de IATF poderá ser iniciado.

Nessa fase, é feito um novo implante nas novilhas. Desta vez, de progesterona e por nove dias. No nono dia, ele é removido e, em sequência, aplicados hormônios para a sincronização da ovulação entre elas. Os hormônios usados são a prostaglandina, o ciprionato de estradiol e, em alguns casos, o hCG, para estimular o crescimento folicular. Após 48h dessa aplicação, ou seja, no 11º dia, a inseminação é realizada utilizando o sêmen dos touros selecionados pela fazenda.

Vale ressaltar, como sempre, que não basta realizar o protocolo com qualquer animal. Para que a novilha esteja apta a passar por esse processo, é essencial que tenha uma boa genética, o peso ideal e um manejo sólido. Sem a atuação conjunta desses fatores, a prenhez não será obtida. O protocolo poderá ser diferenciado de um profissional para outro.

1 Zootecnista, pós-graduado em produção de ruminantes, Gerente de Mercado e Contas Chave de Corte na ABS