Leite

Produção inteligente

Tecnologia profissionaliza gestão e modifica forma de trabalho nas fazendas leiteiras

Anna Luiza Belli1 e Vanessa Renata Zorzo Rockembach2

Trabalhar em uma fazenda de forma inteligente, dinâmica e sem a necessidade de estar presente fisicamente nela já é realidade. Inclusive, é um dos fatores que tem atraído muitos jovens a permanecerem no campo e a participarem do processo de sucessão familiar.

No cenário competitivo no qual a pecuária está inserida, a utilização de tecnologias e ferramentas de precisão está se tornando cada vez mais comum e indispensável. Elas são necessárias para a profissionalização e para o aumento da eficiência do setor. O principal objetivo das tecnologias utilizadas pelos produtores rurais é coletar dados de maneira precisa para que a tomada de decisão seja feita de forma assertiva, rápida e eficiente.

O setor leiteiro é um dos que mais utiliza tecnologias em seus processos de produção em todo o mundo. Nos Estados Unidos, um estudo realizado por Borchers e Bewley (2014) verificou que 68% dos produtores de leite utilizam algum tipo de tecnologia de precisão em suas propriedades. Já no Brasil, um estudo realizado por Pereira et al. (2015) constatou que 78,7% dos produtores rurais consideram importante tecnologias para avaliar mastite; 79,8%, para monitoramento de cio; 80,7%, para produção de leite; e 74,3%, a atividade do animal.

No dia a dia da produção de leite, temos uma vasta gama de tecnologias disponíveis para ajudar nos diferentes setores da fazenda, como as que citamos a seguir.

Ordenha

Um dos setores que mais se destacam na fazenda é o da ordenha. Por ser o coração da fazenda e, provavelmente, uma das atividades mais desgastantes para a mão de obra, o processo de ordenha foi responsável por trazer um dos equipamentos que mais se modernizou dentro das propriedades leiteiras nas últimas décadas. Passamos do balde ao pé para a coleta do leite em ordenhadeiras mecânicas, rotatórias e até robotizadas.

Com elas, vieram alguns dos principais indicadores monitorados, como contagem de células somáticas do leite, produção, composição e condutividade do leite para identificar casos de mastite. Muitas dessas informações podem ser acompanhadas em tempo real, assim como a eficiência do processo de coleta do leite com um todo, ou por meio de testes rápidos disponibilizados pela indústria. Como exemplo, temos os softwares capazes de agregar as informações de produção e de comportamento dos animais em uma única ferramenta, que podem ser acessados no computador da propriedade ou no aplicativo do celular, onde quer que a pessoa esteja.

Reprodução

Outro setor que tem absorvido tecnologia ao longo do tempo é o da reprodução, passando pela inseminação artificial, fertilização in vitro e, mais recentemente, com o monitoramento do comportamento de cio dos animais. O manejo reprodutivo bem-feito é o que permite manter os animais, pelo maior tempo possível, dentro do seu período mais rentável, que é o terço inicial da lactação. Porém, um bom manejo reprodutivo é desafiador, especialmente com o aumento da produção de leite nos rebanhos, tanto de raças especializadas quanto de animais mestiços, o que acaba por, indiretamente, reduzir o tempo de demonstração de cio pelos animais.

Visando melhorar a identificação desse comportamento, foram desenvolvidas ferramentas com base em acelerômetros que conseguem predizer, com muita acurácia, se o animal está em cio e qual o melhor momento para ser inseminado, bem como animais em anestro ou com ciclos irregulares. A ideia desse tipo de sistema é dispor de métodos não invasivos, como o uso de um colar ou brinco, para captar informações 24 horas por dia sobre um indivíduo, sem que o mesmo precise ser contido ou submetido a qualquer procedimento.

Sanidade

O mesmo ocorre com relação à sanidade do rebanho. Os sistemas de monitoramento do comportamento dos animais permitem que o indivíduo que precise de alguma atenção seja identificado facilmente e que o que se encontra bem possa continuar em sua rotina sem ser perturbado. Esse tipo de tecnologia possibilita à fazenda identificar animais com algum problema antes mesmo que sinais clínicos possam ser notados pelos colaboradores. A consequência é uma menor queda de produção e, possivelmente, uma redução do uso de antibióticos dentro da fazenda.

Dados zootécnicos

O levantamento de dados zootécnicos, como, por exemplo, a pesagem dos animais, possibilita que a fazenda selecione os mais produtivos ou mais eficientes em ganhar peso sob determinada dieta. Até pouco tempo, só conseguíamos fazer esse tipo de levantamento de dados com o uso de balanças mecânicas ou eletrônicas, com um colaborador “preso” à função de anotar as informações em folhas de papel para depois passar tudo a limpo em uma planilha no computador. Porém, há alguns anos, já temos disponíveis no mercado tecnologias que nos permitem coletar essas informações de forma muito mais rápida, simples e eficiente. Entre essas possibilidades estão os brincos eletrônicos, que podem ser lidos por determinados dispositivos. Os dados de pesagem de cada animal podem ser, então, automaticamente lançados em um software ou planilha, por exemplo. Além desse mecanismo, já existem sistemas de imagem que podem predizer o peso dos animais com muita precisão, sem que eles sequer precisem ser levados ao centro de manejo.

Bem-estar

Com o aumento da população e da facilidade de acesso à informação garantido pela internet, também tem sido crescente a cobrança por informações sobre a origem dos produtos e o bem-estar dos animais. Para tanto, mecanismos não empíricos que possam demonstrar o conforto dos animais têm sido buscados pelos produtores. Uma das formas de identificação pode ser feita pela determinação do conforto térmico do rebanho e pela distribuição das atividades dentro de sua rotina.

Para o setor de avicultura, por exemplo, existem tecnologias baseadas no uso de câmeras que mostram o comportamento das aves dentro de galpões. De acordo com a distribuição dos ani mais no local, pode-se identificar se faltou alimento em determinado momento ou se a temperatura do galpão está acima do aceitável. Para os bovinos, esse tipo de levantamento também pode ser feito, seja por câmeras monitorando o ambiente em que se encontram, seja por meio de dispositivos que demonstram o grau de estresse térmico do lote e o padrão de ruminação do mesmo. Dessa forma, entre outras, a tecnologia confere à propriedade ferramentas que geram dados concretos para comprovar o bem-estar de seus animais.

Gerenciamento

Com o crescimento dos rebanhos, o gerenciamento das propriedades pode perder a percepção individual de cada animal e passar a tomar decisões apenas sobre grupos. Porém cada animal apresenta uma resposta diferente aos estímulos do ambiente e de manejo. Uma das ferramentas tecnológicas atualmente utilizadas para medição do desempenho individual dos animais é um colar ou um brinco de monitoramento em cada vaca. O dispositivo irá colher e armazenar os dados dos exemplares, de maneira individual, a cada minuto. Dessa forma, vai aprendendo sobre seu comportamento para que, com o passar do tempo, os dados de cada animal possam ser comparados com os deles mesmos, e não com a média do rebanho, o que permite uma maior eficiência sobre a reposta produtiva.

Cenário promissor

Um importante fator que corrobora para a necessidade do uso de tecnologias no campo é a previsão de um intenso aumento da demanda pelos produtos de origem animal em um futuro próximo. Segundo relatório publicado em 2019 pela Organização para Alimentos e Agricultura das Nações Unidas (Food and Agriculture Organization – FAO), a população mundial crescerá 34% até 2050. Em números, isso significa que a população chegará, no ano mencionado, a mais de 9 bilhões de pessoas. Estima-se que o setor agropecuário mundial deva aumentar sua produção em 70% para suprir essa demanda. Pensando apenas em produtos de origem animal, isso significa um crescimento de cerca de 200 milhões de toneladas de proteína animal advindas de carne, leite e ovos. O mesmo levantamento da ONU (Organização das Nações Unidas) nos diz, ainda, que o aumento da produção para atender a essa demanda ocorrerá principalmente na América Latina e na África Subsaariana. Ou seja, podemos esperar um papel protagonista para o Brasil nesse cenário.

Além dos números expressivos sobre o crescimento populacional, a FAO também aponta que a distribuição das pessoas entre o campo e as cidades mudará bastante. Até 2019, pode-se dizer que a humanidade ainda estava equilibradamente distribuída entre o meio rural (49%) e os polos urbanos (51%). Em 2050, a expectativa é de que 70% das pessoas estejam vivendo nos polos urbanos e apenas 30% no campo. Essa previsão nos leva à seguinte interpretação: o número de produtores rurais diminuirá, enquanto as fazendas e os rebanhos ficarão cada vez maiores. Se observarmos os números do setor agropecuário brasileiro, podemos perceber que essa mudança já está em movimento há algum tempo e que dificilmente os produtores dispostos a encarar os desafios futuros o farão de forma eficiente sem aderir à tecnologia.

1 Médica-veterinária formada pela Escola de Veterinária da UFMG, pós-graduada pela mesma instituição em Zootecnia, na área de produção animal, coordenadora de Território e responsável técnica em Monitoramento da Allflex Brasil 2 Zootecnista formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e coordenadora de Território/Experiência do Cliente na Allflex Brasil