Sanidade

Saúde da recria começa na cria

Vacas e novilhas vermifugadas e vacinadas apresentam condições de parto mais saudáveis, produção de colostro de melhor valor imunológico e menor contaminação por ovos e larvas de parasitas

Ingo Mello1

O sucesso da recria está intimamente ligado a fatores relacionados à gestão, ao manejo, à nutrição e à sanidade durante a fase de cria à desmama. As vacas e novilhas vacinadas e vermifugadas regularmente, livres de infestações parasitárias, permitem condições de parto mais saudáveis, com produção de colostro de melhor valor imunológico e redução da taxa de contaminação ambiental por ovos e larvas de parasitas.

Uma das chaves para garantir o melhor desempenho ponderal durante a fase de cria e uma desmama mais pesada é a boa sanidade no pré-parto, com vacinação contra as principais enfermidades infecciosas (clostridioses, raiva, diarreias e pneumonias) e estabelecimento de um programa de controle de parasitas. Outro fator importante é a vermifugação neste período, o que proporciona melhores condições de parição e menor contaminação das pastagens no peri-parto. Isso traz melhores condições de cria aos bezerros, diminuindo seu desafio parasitário e melhorando seu desenvolvimento ponderal.

Um fato importante – e que devemos ponderar cuidadosamente –, é a existência da “janela imunológica de susceptibilidade”, que corresponde a um período crítico de baixa imunidade dos bezerros, ao redor dos 60 a 90 dias de vida, em que eles estarão com a imunidade venerável a infecções, devido à perda da eficiência na imunidade passiva colostral (gráfico abaixo). Com isso, precisarão desenvolver sua própria imunidade, o que dependenderá de fatores genéticos, nutricionais e dos desafios sanitários.

Durante a janela imunológica, temos um dos grandes entraves na construção da imunidade dos bezerros. Por volta dos 60 dias de vida, ainda podemos observar a prevalência de anticorpos colostrais que podem comprometer a eficácia das vacinações devido a interferências negativas. Como a vacinação ocorre em lotes, é possível observar, no mesmo lote, bezerros mais novos (menos de 60 dias de vida) e bezerros mais velhos (mais de 60 dias de vida), sendo mais evidente a interferência colostral na vacinação dos animais mais jovens e uma maior eficiência, nos animais mais velhos. Do ponto de vista prático, os animais vacinados precocemente não desenvolverão a imunidade necessária, enquanto os mais velhos receberão de maneira mais efetiva a primovacinação. A maioria das vacinas comerciais recomenda um reforço vacinal após cerca de 30 dias da primovacinação e esta ação tem como objetivo estimular a memória imunológica para maior produção de anticorpos de longa ação.

Desta forma, até o final da cria, notamos que quanto mais se aproxima a desmama, maior a necessidade de corrigirmos possíveis falhas na construção de uma memória imunológia efetiva. Por isso o mais aconselhável é que na desmama todos os bezerros recebam a quarta vacinação, fechando com chave de ouro a construção de uma imunidade efetiva contra clostridioses, por exemplo.

A desmama

O manejo de apartação para desmama é um dos momentos mais importantes para o futuro dos animais. A desmama pode ser muito estressante para os bezerros, principalmente para os mais novos e, por isso, essa transição da fase de cria para a recria pode trazer grandes riscos se não for bem planejada.

O aumento da produtividade na recria pode ser garantido através de manejos sanitários e nutricionais planejados. Os animais devem ser recriados em condições de oferta regular de alimentos de boa qualidade, seja no sistema extensivo, semi -intensivo ou intensivo, com acesso livre à água de boa qualidade, além da mineralização correta. Animais criados e recriados extensivamente com acesso livre a creep-feeding de boa qualidade apresentam adaptação mais rápida e menos estressante para a fase de recria. A vacinação e a vermifugação durante a fase de cria permitem melhor desempenho dos animais e garantem menor prejuízo com o estresse da desmama.

O estresse da desmama, na transição da cria para a recria, aumenta os riscos de clostridioses, diarreias, infecção por verminoses e outros parasitas como carrapatos. Outra enfermidade importante que faz suas primeiras vítimas é a tristeza parasitária bovina (TPB), causada por hemoparasitas que podem permanecer subclínicos durante a fase de cria. Muitos animais que apresentam tristeza parasitária podem rapidamente vir a óbito nesse período.É preciso estar atento. Prevenir é sempre a melhor estratégia.

A desmama pode ser planejada para que ocorra em meses com oferta regular de alimentos. No manejo de apartação, os animais devem ser vermifugados com vermífugos concentrados de longa ação e vacinados com vacina polivalente contra o carbúnculo/manqueira e botulismo. O controle de parasitas externos deve seguir o programa de controle integrado e estratégico durante a cria; permitindo o desenvolvimento da imunidade contra hemoparasitas. E, na desmama e na recria, será a chave para a sanidade do rebanho.