Pastagen

Reforma eficiente, Rentável e sustentável com ilP

Aproximação do período de colheita abre oportunidade para investir na alimentação do rebanho e rentabilizar a atividade

Andreza Cruz1

A proximidade da colheita de grãos abre boas perspectivas aos criadores que querem aproveitar a época do ano para reformar o pasto por meio da Integração Lavoura-Pecuária. Se forem recriadores e estiverem com os bezerros prestes a desmamar, melhor ainda. Com o pasto de outono implementado no início do período seco, será já possível acelerar o ganho de peso dos animais desmamados e até antecipar seu ingresso na fase de terminação com apoio da suplementação proteico-energética.

Os ganhos de eficiência provêm do legado deixado pela agricultura no solo, que passou por adubação, controle de pragas e plantas daninhas e, principalmente, correção de fertilidade, o que é imprescindível para manter os pastos renovados e com alta produtividade. O RefoRma eficiente, Rentável e sustentável com ilP trabalho de Roberta Possamai (2017) analisando a viabilidade econômica de sistemas integrados e pastagem convencional no Cerrado, aponta que o sistema ILP apresenta um VPL (Valor Presente Líquido) de R$ 1.201.278,16, cifra maior do que o VPL da pecuária, de R$ 368.857,72, que, isoladamente, não apresentou viabilidade econômica nesse modelo de estudo.

Outra vantagem desse sistema é proporcionar um pasto de alta qualidade em época de seca, já que, nesta época, a grande maioria das forrageiras está com estagnação da produção e com baixos teores de proteína e digestibilidade. A comprovação ocorre em estudo da Embrapa Pecuária Sudeste, no qual Bernardi (2007) evidencia maior ganho de peso para o grupo de bovinos alimentados, na seca, com pasto novo e prove niente de áreas cultivadas com grãos do que o grupo alimentado com pasto não reformado. O primeiro obteve ganho de peso de 388 g/animal/dia, enquanto o segundo, de 163,2 g/animal/dia.

Mas por onde começar?

Para implementar a ILP com vistas à reforma de pasto, o pecuarista precisa, primeiramente, buscar orientação técnica e abrir mão da forrageira milagrosa para seu sistema ou da pastagem do momento. Também precisa atentar aos padrões de qualidade e de comercialização estabelecidos pelo Ministério da Agricultura (Mapa), que garantirão a qualidade das sementes escolhidas e evitarão que o trabalho tenha de ser refeito.

O planejamento de toda a reforma começa com uma meta de produção, tanto para agricultura quanto para a pecuária, e pela análise de todos os custos envolvidos no sistema. Caso já tenha lavoura implantada, o criador pode começar utilizando-a gradativamente, rotacionando e reformando as áreas. Caso contrário, é importante saber que precisará de maquinário para plantio e para colheita da lavoura e que existem algumas opções para viabilizá-la. Há financiamentos a baixo custo (linhas de crédito específicas para a Integração Lavoura-Pecuária, reforma de pastagens e do Plano ABC), ou se pode arrendar uma parte da terra para começar a lavoura. Neste caso, existem várias formas de parcerias. A mais comum é o arrendamento de parte da terra para um agricultor, que, após a colheita, a devolve com o pasto formado.

A escolha das forrageiras deve seguir os resultados da análise de solo, que indicará quais as que apresentarão maior produtividade e qualidade de acordo com a lavoura cultivada (pastagem com milho, pastagem com sorgo, soja, amendoim ou outras culturas anuais). A definição também tem que levar em conta se a pastagem será utilizada solteira, para pastejo ou fenação, por exemplo. É importante, ainda, ter uma avaliação de mercado da região e quais culturas que estão sendo produzidas na região para facilitar sua comercialização. Somente assim, será possível estimar o custo médio de implantação do sistema escolhido.

Após a correção do solo, que terá necessidade apontada em análise técnica, deve-se fazer a dessecação da área. Quando esta não está num estágio muito avançado de degradação e possui alguma massa de vegetação, é recomendado usar o plantio direto. Caso a área da pastagem esteja muito compactada, com cupins ou com erosão e irregularidades onde os implementos agrícolas não conseguirão trabalhar, será necessário fazer o plantio convencional, com uso de gradagens e maquinários para descompactar e nivelar o terreno.

O plantio do grão e da forrageira podem acontecer de variadas formas. Quando a opção foi semear a forrageira (Brachiarias ou Panicuns) simultaneamente com as anuais (milho, sorgo, milheto, por exemplo), recomenda-se utilizar linhas alternadas, uma do capim – a lanço na frente do trator –, e outra da anual (atrás). Outra opção é sobressemear o capim na soja lourando, de forma aérea ou na barra do pulverizador a lanço. Assim, quando a soja for colhida, o capim já estará começando a se desenvolver. Por fim, a colheita da lavoura pode ser utilizada tanto para a produção de silagem quanto para alimentação animal, e isso irá influenciar na escolha do capim. Como a forrageira crescerá rapidamente após a colheita, naturalmente, também se prestará ao gado.

A reforma da pastagem com ILP pode ser realizada em todas as regiões do Brasil. Com um bom planejamento, ajustando o tipo de cultura integrada e o tamanho da área para cada realidade, produtores de qualquer porte podem aumentar sua eficiência e rentabilidade. E ficarão mais preparados para variações de mercado, reduzindo os impactos negativos dos períodos secos com mais dinheiro no bolso para cuidar do seu negócio de maneira sustentável.

A variedade ideal

A semente forrageira representa o menor custo dentro do estabelecimento da pastagem solteira ou consorciada e sua qualidade que ditará o resultado. Devem ter alta pureza e uniformidade para se adaptarem a todos os maquinários usados na integração. E, preferencialmente, devem ser tratadas com inseticidas e fungicidas para evitar transtornos no plantio e ter um bom estabelecimento.

No caso de uma propriedade que realizará a recria, por exemplo, pode ser recomendado o capim Zuri ou Quênia, que possuem alta produção de matéria seca com alta qualidade. Porém, a escolha dependerá as condições de clima, de solo, de fertilidade, de estrutura da fazenda e de manejo. Se não for um solo com boa fertilidade, ou se a necessidade for de um capim de maior produção em época secas, a preferência recairá sobre as forrageiras do gênero Brachiaria spp, que são as mais utilizadas.

A Brachiaria Ruziziensis, por exemplo, é a mais utilizada atualmente em consórcio com lavouras anuais para a produção de milho grão, posterior pastejo rápido e formação de palhada para a próxima cultura. Essa forrageira apresenta alta qualidade, boa produção de matéria seca, porém baixa persistência no sistema e alta susceptibilidade ao ataque de cigarrinhas das pastagens. É mais utilizada por curtos períodos de pastejo ou para áreas de agricultura onde servirá somente para palhada, sem a integração com o componente animal.

Entretanto, as Brachiarias Piatã, Marandu e os Panicuns Massai e Tamani, podem ser utilizadas em consórcio para a produção de grãos, pois não têm um crescimento muito agressivo. Assim, não trazem tanta competição com a outra cultura, podendo ser controladas com subdoses de herbicidas para o retardamento de seu desenvolvimento e para menor interferência na produtividade do grão. Com maior produção de matéria seca - tanto da parte aérea quanto de raízes -, em relação à Ruziziensis e com alta persistência para produção animal, essas variedades podem permanecer cerca de dois a três anos no sistema com ótima produtividade. Porém, precisam de doses maiores de herbicida para sua dessecação e seu o manejo deve evitar a produção de colmos, que podem prejudicar o estabelecimento da agricultura na rotação.

Para as forrageiras do gênero Panicum maximum como Zuri, Mombaça e Tanzânia, recomenda-se o uso em consórcio somente para produção de silagem, pois seu crescimento altamente agressivo pode interferir na produção de grãos. Entretanto, podem ser interessantes quando o objetivo for produção de matéria seca para volume da silagem. Proporcionam uma pastagem posterior com maior qualidade, maiores índices de proteína bruta e maiores produções de matéria seca em relação às Brachiarias spp, mas o cuidado para a dessecação e retorno da agricultura deve ser redobrado.

1Engenheira agrônoma e técnica em sementes da Soesp.