Caprinovicultura

Conversão para a ovinocultura

Projeto vencedor de uma estudante de Medicina Veterinária pretende substituir aviários pelo confinamento de cordeiros na propriedade da família no Paraná

Denise Saueressig [email protected]

A estudante de Medicina Veterinária Thais Fernanda Gavlak uniu a vontade de trabalhar no campo a um projeto de transformação para a propriedade da família no interior de Fernandes Pinheiro, município no Sudeste do Paraná. Em uma área de 320 hectares, ela, os pais Ademar e Marli, e o irmão Lucas cultivam lavouras de grãos nas safras de verão e de inverno e mantém dois aviários com capacida de para cerca de 20 mil frangos/cada. Integrada da BRF, a família viu o negócio estremecer em 2017, quando a Operação Carne Fraca provocou o fechamento de importantes mercados compradores da produção brasileira. Mesmo com a retomada dos negócios, o episódio fez Thais pensar em outras possibilidades para a propriedade. A reflexão resultou em projeto idealizado durante a participação no Programa Empreendedor Rural (PER), iniciativa que existe desde 2003 e é desenvolvida em parceria entre o Sistema Faep/Senar (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Sebrae/PR e Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep).

Em um primeiro momento, a estudante pensou em bovinos de corte, mas se deu conta de que o tamanho dos animais poderia ser um dificultador. Então, ela decidiu pesquisar mais sobre a ovinocultura e, a partir daí, aprimorou a ideia. Com o título “Migração da avicultura para confinamento de ovinos de corte”, Thais foi a vencedora da edição 2019 do PER, que teve 53 trabalhos considerados aptos a disputar o prêmio. Desse total, uma banca examinadora formada por técnicos e professores selecionou dez finalistas.

O trabalho incluiu a pesquisa do histórico da propriedade, com o levantamento dos capitais físico, humano e natural. “Também foi preciso definir claramente os objetivos e fazer a pesquisa de custos para as reformas e de oportunidades de venda dos cordeiros”, detalha. Os cálculos indicaram que o empreendimento apresentará maior sustentabilidade financeira a partir do quarto ano de implantação. Os primeiros dois anos são os mais ajustados, porque existe a necessidade de adequação das estruturas com valor de desembolso em torno de R$ 16 mil, que devem ser bancados com recursos próprios. Para a aquisição inicial de 2 mil cordeiros – quantidade que foi dimensionada considerando os dois pavilhões de 1 mil metros quadrados cada –, serão necessários R$ 250 mil, valor a ser financiado junto ao Pronaf.

Aprovação familiar

O mercado para a ovinocultura foi definido como positivo nas proximidades da propriedade. Duas cooperativas que trabalham com o abate de ovinos foram avaliadas: a CooperAliança, de Guarapuava, e a Castrolanda, de Castro. A distância de cerca de 120 quilômetros e o valor de R$ 17 a R$ 19 pago pelo quilo da carcaça contaram pontos a favor da Castrolanda.

Castrolanda. Thais pretende trabalhar com as raças Texel e Ile de France. A intenção é comprar os animais aos dois meses de vida e entregar para o abate com idade próxima aos cinco meses, completando um total em torno de 90 dias de confinamento. A ideia é aproveitar os recursos da própria lavoura para fornecer parte do alimento necessário aos ovinos. Para isso, a futura veterinária conta com o apoio de toda a família. “Minha mãe gosta da ideia, meu irmão é engenheiro agrônomo e meu pai tem interesse em ampliar a rotação de culturas para formar palhada e repor os nutrientes. Pretendemos fazer a silagem de milho com equipamentos terceirizados e adquirir o concentrado de empresas próximas”, descreve.

Thais tem 19 anos e está iniciando o terceiro ano da faculdade de Veterinária na Unicentro, em Guarapuava. Quase todos os finais de semana, ela percorre 120 km, de ônibus, para ficar com a família, rotina que deve ser cumprida até o final do curso, que tem cinco anos de duração. “Assim que me formar, quero voltar para casa e começar a colocar em prática o projeto”, diz.

Visão empresarial

Consultor da Faep e produtor rural, Josias Schulze foi o instrutor da turma do PER da qual Thais foi participante, em Guarapuava. Ele explica que o programa existe para estimular o empreendedorismo e é implementado com a mobilização de produtores por meio dos Sindicatos Rurais. As turmas têm um mínimo de 15 e um máximo de 20 participantes que se reúnem em 17 encontros que somam 136 horas. “Abordamos temas como economia, administração, questões jurídicas, desenvolvimento humano e trabalho em equipe. Na sequência, os alunos são orientados sobre a elaboração do projeto, que é uma consequência do que foi tratado nas aulas”, informa o instrutor, ressaltando que devem ser considerados aspectos de Thais Gavlak conquistou o primeiro lugar da edição 2019 do Programa Empreendedor Rural, do Sistema Faep mercado e de gestão, além de riscos e oportunidades para que a propriedade seja encarada como uma empresa.

A formatação de cada planejamento é feita em etapas e concluída com análise de viabilidade. Segundo Schulze, o trabalho de Thais teve como diferenciais o aprofundamento da pesquisa e o detalhamento das informações. O instrutor também analisa as oportunidades do mercado da carne ovina, que vivencia um momento de incremento de demanda pelo consumidor. “Em alguns momentos, as cooperativas chegam a adquirir animais de criadores de outros estados para manter a oferta”, indica.

Schulze também foi o mentor do projeto que ficou em segundo lugar no PER 2019, além de classificar cinco trabalhos entre os dez finalistas. Os três primeiros colocados receberam como prêmio uma viagem técnica internacional, que será realizada ao longo desse ano.