Nutrição

O desafio do equilíbrio

Relação entre quantidade e qualidade nutricional definirá aproveitamento do potencial de conversão gerado pela acelerada curva de crescimento da recria

Vinícius A. Camargo1, Daniele Zago2, Helena X. Fagundes3 e Júlio O. J. Barcellos4

O aumento da lucratividade de qualquer negócio está atrelado ao incremento da eficiência. Na pecuária de corte, uma alternativa para aumentar a eficiência do sistema é reduzir o tempo envolvido no processo produtivo. No ciclo pecuário, a recria é a etapa que oportuniza melhores condições para isso, pois, as possibilidades de redução de ciclo são mínimas na cria, e, na engorda, muitas propriedades já trabalham nos limites superiores de ganho de peso e com ciclo muito curto.

A recria inicia com a desmama e um baixo peso nessa fase exigirá um elevado ganho no pós-desmama, prolongando, assim, as fases seguintes. Por isso, o planejamento da nutrição da recria dependerá do objetivo que se tiver para o animal, projetando o abate para os 14, 18, 24 ou 30 meses, por exemplo. Após o desmame, o animal reduz o consumo de alimento devido ao estresse gerado pela separação da vaca e à mudança da alimentação. Por isso, recomenda-se utilizar suplementação concentrada a fim de adaptá-lo às novas condições e fornecer a energia necessária para ele ganhar peso.

Na recria, há alta deposição de tecido muscular, o que lhe confere uma conversão alimentar até 30% superior em comparação à obtida na terminação, fato que justifica o uso de um plano alimentar de maior custo nessa fase. Numa abordagem sistêmica, essa maior conversão deve ser aproveitada para melhorar o Ganho Médio Diário (GMD). Quanto maior for o GMD na recria, mais rápido o animal chegará ao abate (Figura 1).

A melhoria da qualidade da carcaça ocorre pela melhor composição da mesma em músculos e gordura. E é determinada tanto pela dieta de terminação quanto pela de recria em função do nível de energia na dieta e da velocidade no ganho de peso. O sabor e a suculência da carne também têm relação com a proporção volumoso:concentrado desde a fase de recria pela composição do ganho frente à elevada taxa de crescimento. Esses fatores contribuem para a maior remuneração do produtor através da entrega de uma carcaça de melhor qualidade. Por outro lado, os custos com nutrição nesse manejo têm dificultado sua adoção.

A produção de uma carcaça terminada aos 14 meses é um desafio desde o desmame, visto que o animal precisa utilizar a energia consumida para crescimento e para deposição de gordura, o que demanda uma alta e adequada relação entre energia (70 a 80% de NDT) e proteína (15 a 18%). Esse resultado pode ser alcançado com a utilização de creep feeding, e creep grazing ainda na fase de cria, com a suplementação de concentrado (de 0,5% a 1% do peso vivo) ou confinamento na recria. Há diversas opções para intensificar a recria através de pastagens cultivadas, grãos, subprodutos agroindustriais e forragens conservadas, em sistemas a pasto, semiconfinamento ou confinamento. As pastagens cultivadas tendem a prover adequado nível nutricional (NDT de 65 a 80% e PB de 12 a 18%), resultando em GMD elevado, entre 0,500 a 1,200 kg/dia, conforme a espécie, estádio de maturação, lotação e categoria animal. As forragens conservadas, desde que confeccionadas de forma correta, podem garantir a oferta de alimento de qualidade para momentos de escassez.

A suplementação normalmente é utilizada para corrigir deficiências nutricionais das pastagens em energia (ex. milho, cevada) ou proteína (soja) frente às expectativas de GMD, ou para aumentar a carga animal por área. Porém, altos níveis de suplementação (65% de grãos por períodos superiores a 60 dias) podem gerar problemas metabólicos e digestivos. Para equilibrar essas dietas, os aditivos alimentares (ionóforos, leveduras e óleos essenciais) são opções que visam a minimizar os riscos digestivos e potencializar a utilização dos nutrientes. Misturas comerciais com concentrados, aditivos, minerais e/ou ureia são ótimas opções para melhorar o ambiente ruminal e potencializar o aproveitamento dos nutrientes.

Alimentação de fêmeas em recria

A recria da fêmea é uma etapa estratégica do sistema de produção, e é dependente do sistema alimentar utilizado do desmame ao acasalamento. Quanto menor esse período mais eficiente será o sistema. A redução da idade à puberdade gera retorno mais rápido do investimento e aumenta a vida produtiva da vaca. Porém os custos com nutrição, casos de distocia e o manejo podem ser vistos como limitantes desse processo.

Com a definição da idade para o acasalamento, programa-se o GMD necessário para tal (Figura 2). Para fêmeas desmamadas com 160 kg manifestarem o primeiro estro aos 296 kg, elas devem ter GMD de 0,647 kg/dia, dos 7 aos 14 meses, que é período de recria. Perdas de peso no final da recria devem ser evitadas para o acasalamento aos 1415 meses, pois o uso das reservas corporais aumenta a concentração de ácidos graxos na circulação, que retarda o aparecimento da puberdade.

Definido o GMD para alcançar a idade desejada à puberdade, devem ser empregados manejos alimentares associando aspectos biológicos e econômicos. Ainda no pré-desmame das bezerras, o GMD pode ser maximizado com creep-feeding ou creep-grazing, principalmente para acasalamento com 14 meses, o que demanda alto peso ao desmame. O creep-feeding facilita o manejo inicial do desmame, pois propicia aos bezer ros o consumo de alimentos sólidos em cochos. No creep grazing, além da suplementação volumosa, o bezerro desenvolve a habilidade de procurar alimentos sem orientação da vaca. Além disso, medidas podem ser adotadas para melhorar o aproveitamento dos nutrientes. Aditivos como ionóforos, leveduras, gordura e proteína protegidas, são alternativas interessantes para melhorar a conversão alimentar, tendo efeito na redução da idade à puberdade.

Por outro lado, na recria, o limite mínimo biológico para o acasalamento ou a terminação se concentra entre 12 e 14 meses de idade, enquanto a média atual de idade ao abate e acasalamento no Brasil é de 36 e 24 meses respectivamente. Alguns resultados mostram que, a cada ano de redução na idade ao acasalamento, a produtividade por hectare e o desfrute aumentam em aproximadamente 9%. Já com a redução da idade ao abate, o incremento é de aproximadamente 8% na produtividade/ha e de 7% no desfrute. Ambas as estratégias que resultam nesses incrementos produtivos são desenvolvidas na fase de recria.

Essas melhorias ocorrem principalmente pela redução de categorias do rebanho que não geram um produto vendável no curto prazo, novilhas (os) de um ou dois anos que não são acasaladas ou terminados nessa idade. Estudos apontam que, com a mesma taxa de natalidade, a redução de idade ao acasalamento de 36 meses para 24 meses diminuiria em 1,3 vezes o número de animais improdutivos. Quando a redução é de 36 para 14 meses, essa diferença vai para 2,2 vezes. Isso repercute em todo o sistema, já que seriam necessários menos animais para a mesma produção de bezerros, liberando áreas para outras categorias e melhorando a produtividade. Além disso, com a acelerada curva de crescimento na recria, os animais têm maior eficiência em transformar o alimento em ganho de peso. No entanto, esses benefícios só serão expressos se o alimento for suficiente em quantidade e qualidade.

Restrição Alimentar

Quanto à restrição alimentar, que pode ocorrer em situações adversas, seus efeitos variam conforme a idade em que ocorre. Animais que sofrem restrição logo após o nascimento tendem a não ter ganho compensatório, comprometendo seriamente o peso adulto. Por outro lado, restrições moderadas de crescimento entre 7 e 9,5 meses tendem a causar menores prejuízos.

Alguns pesquisadores sugerem a criação de um protocolo (Regime de Crescimento em Degraus ou “Stair -step”) para programar o ganho de peso das novilhas. Este protocolo contempla alimentação voltada para o ganho de peso elevado entre 4 e 6,5 meses e após os 9 meses, e alimentação restrita entre 6,5 e 9 meses apenas para manter o animal e evitar a perda de peso. Assim, a taxa de ganho de peso obtida no primeiro período levará a alterações na sinalização hormonal, que persistirão além do período de restrição e serão ativadas após a realimentação aos 9 meses de idade. Desse modo, será alcançada a mesma idade de puberdade das novilhas com ganho irrestrito, porém, com menos alimento. Apesar dos prejuízos da restrição alimentar e das vantagens da antecipação das idades ao abate e ao acasalamento sejam conhecidos, a realidade do Brasil ainda é a de uma recria de longa duração. Esse cenário, na maioria dos casos, se deve à falta de planejamento nutricional, já que os momentos de falta de alimento são sazonais. Esse prejuízo é determinado pela intensidade e pela duração em que a restrição alimentar é imposta. Em machos, a restrição ocasiona menor peso e cobertura de gordura ao abate, podendo reduzir em até 30% no peso de carcaça quando comparados a animais com ganhos contínuos. Nas fêmeas, essa restrição repercute diretamente na idade à puberdade, que é condicionada a um peso mínimo (de 60 a 65% do peso adulto). Logo, estratégias alimentares que supram as demandas nutricionais desse período são fundamentais.

Logo, diversos são os meios que proporcionam a redução da idade ao abate e ao acasalamento. Essa redução deve ser um objetivo a ser perseguido pelos gestores dos sistemas de produção. Porém, somente através do planejamento nutricional preciso, ajustando os recursos do ambiente aos períodos de maior eficiência animal, será possível obter as vantagens do encurtamento da recria, e assim aumentar a lucratividade dos sistemas.

1 Vinícius Camargo é médico veterinário e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Zootecnia na UFRGS 2 Daniele Zago é Zootecnista e PósDoutoranda em Agronegócios na UFRGS 3 Helena Fagundes é acadêmica do curso de medicina veterinária da UFRGS 4Júlio Barcellos é professor titular do Departamento de Zootecnia da UFRGS