O Confinador

Bons na recria, bons na engorda

Animais que não se desenvolvem na recria podem não se adaptar ao confinamento, levar mais tempo na engorda ou sofrer por estresse e doenças

Bruno de Jesus Andrade1

A recria é um período entre o desmame (final da cria) e a engorda. Compreende um período variado, entre 12 e 24 meses, dependendo do modelo de produção adotado pela fazenda, se mais ou menos intensivo. Ainda que possa vir associada a outras etapas de produção bem executadas, muitas vezes, é negligenciada. É comum encontrarmos bezerros com boa genética e bem produzidos sendo encaminhados na recria de maneira mais rústica, em áreas com pastagens degradadas ou sem a correta suplementação oferecida ao animal. Isso ocorre devido ao desconhecimento sobre a curva de crescimento animal e deposi ção de tecido ósseo, muscular e adiposo (Figura 1) que ocorre nas diferentes fases da vida de um bovino.

Entre o nascimento e a puberdade (de 18 a 20 meses) é quando ocorre a maior taxa de crescimento de músculo e tecido ósseo. Ou seja, ainda que o animal tenha genética suficiente, é muito comum que ele não consiga expressar todo o seu potencial nas etapas da cria e, principalmente, na recria, por estar sendo mal alimentado, mantido em áreas degradadas, sem a correta suplementação e, não raramente, sem os devidos cuidados sanitários necessários.

A recria, portanto, é o momento ideal para se trabalhar o desenvolvimento do animal, de forma que ele possa ser terminado no confinamento ou em pastagens de forma mais rápida e eficiente, otimizando o ganho de carcaça do animal produzido.

carcaça do animal produzido. Uma recria, para ser eficiente, deve ser planejada. O pecuarista deve estabelecer metas para ganhos de peso nos períodos secos e chuvosos do ano, pois as condições das pastagens podem variar bastante de acordo com a época do ano:

– De junho a outubro: período mais seco do ano, quando os ganhos dificilmente serão altos. Nesse momento, o produtor precisará trabalhar com forragens conservadas e uma suplementação que evite o animal perder peso;

– De novembro a fevereiro: período mais chuvoso. Nessa época, devemos potencializar os ganhos do rebanho que está sendo recriado. Ter uma pastagem de excelente qualidade associada a uma suplementação com algum aditivo promotor de crescimento, como monensina, salinomicina, flavominicima, virginiamicina, entre outros, pode fazer a diferença;

– De março a maio: período de transição, no qual a condição das pastagens não será a ideal. A suplementação energética pode ser uma saída interessante, já preparando o animal para a próxima etapa, a terminação.

Alguns trabalhos também recomendam um tratamento especial para o período de transição seca-água, entre outubro e novembro. Quando as pastagens estão rebrotando, uma quantidade grande de massa seca irá cair, e o animal acabará gastando mais tempo no pastejo, procurando pelas melhores forragens.

O valor nutritivo dessa forragem que está nascendo, por ter folhas jovens, deve ser considerado, pois a brotação tem alta digestibilidade, podendo alterar a taxa de passagem do alimento pelo sistema digestório do animal. Nesse ínterim, portanto, é possível observar diarreia nos animais. Para a correção, pode ser necessário o uso de algum aditivo nutricional.

Índices de produtividade

Assim como nas demais etapas da produção pecuária, a recria também pode ser avaliada a partir de alguns indicadores que são medidos pelo pecuarista. São exemplos de indicadores importantes para serem avaliados:

– Ganho médio diário: medido em kg/ dia ou g/dia, é um índice fundamental para avaliação dos resultados em uma fazenda. É possível acompanhar lotes de animais com baixa produtividade, que elevam os custos fixos da propriedade;

– Taxa de desfrute: representa a produção, em arrobas ou número de animais, em um determinado espaço de tempo, em relação a um rebanho inicial. Quanto maior a taxa de desfrute, maior será o giro/produção da fazenda;

– Mortalidade: representa a quantidade de animais perdidos no rebanho, mortos por algum motivo. Na etapa da recria, não se admite valores altos para esse indicador. O ideal é que não seja superior a 1%;

– Receita, despesa, lucro/hectare: medida essencial para avaliar o desenvolvimento total do empreendimento. A partir dessa mensuração, é possível avaliar boa parte do sucesso ou do fracasso do negócio em curso, pois são números que se relacionam com o resultado financeiro da propriedade;

– Desembolso por cabeça por mês: número que deve ser avaliado mês a mês, de forma sistemática. Mede o total de dinheiro gasto em relação ao rebanho médio. Um ponto importante é que, quanto maior o desempenho do animal, maior poderá ser o desembolso, que não se traduz, necessariamente, em maior custo por @ produzida;

– Taxa de lotação: mede a carga animal que a fazenda manteve durante o ciclo de produção. Pode ser expresso em unidade animal (450 kg de PV), por alqueire ou hectare.

Custo de produção

O custo de produção da etapa da recria é influenciado, primordialmente, pelo custo de aquisição do bezerro que será produzido. Estudos apontam que a compra de bezerros pode representar de 70% a 80% do custo operacional. A suplementação pode ter um peso entre 10% a 15% nesse custo. Os demais valores estão relacionados com sanidade, mão de obra, depreciações, impostos e outras despesas.

O que devo entregar ao final?

Se forem observados todos os cuidados referentes à nutrição (suplementação adequada), à qualidade das forragens verdes ou conservadas, à aplicação do protocolo sanitário devido e à redução do estresse animal no início da etapa da recria, o resultado esperado são de animais com ossatura e musculatura desenvolvidas para que na terminação possam completar a deposição de músculo e gordura para acabamento. Bons animais recriados tendem a se tornar bons animais terminados, seja em confinamento, semiconfinamento ou pastagem.

É necessário o recriador conhecer quem são seus clientes e o nível de qualidade que eles buscam nos animais para engorda. Um bezerro desmamado e recriado com uso de alta tecnologia não poderá ser terminado em um sistema mais fraco. Por outro lado, animais ruins, que não obtiveram bom desenvolvimento muscular e de ossatura na etapa da recria, poderão não se adaptar ao confinamento, levar mais tempo para a engorda ou sofrer mais por estresse, doenças metabólicas ou respiratórias.

Somente assim é possível atingir algum sucesso na pecuária de corte, em especial, na etapa da recria.

1 Gerente-executivo da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon)