Na Varanda

Novos ventos no campo

Após a Geração dos Fundadores, foi a atual Geração dos Pecuaristas Tecnificados que transformou o negócio da produção de carne. Os abates saltaram de 10 milhões cabeças ao ano, na década de 1980, para 40 milhões de cabeças em 2019. O boi de 36 meses da pecuária extensiva cedeu lugar ao novilho precoce de 18 a 24 meses confinado ou terminado a pasto. Além desses progressos, a qualidade da carne de hoje nem se compara com aquela do início do século XXI. Assim, surge a pergunta: se tudo está tão bom, o que resta de perspectivas para a Geração Y, que está entrando agora nas fazendas?

É verdade que a pecuária está modernizada, vende bem, e que nossa carne conquistou consumidores em mais de 100 países. Porém, como no caso dos smartphones, aprendemos que o que é ótimo e chique hoje, rapidamente, será ultrapassado. Em nosso caso, pouco podemos melhorar em qualidade e sabor da “carne prime”. Podemos, sim, ampliar o número de produtores que evoluem do boi tradicional para a carne de qualidade com selos internacionais. Mesmo com esse panorama positivo, podemos – e devemos – realizar novos saltos nos processos de produção. Já conhecemos a fórmula: “Mais, melhor, com menos terra e mais sustentável (ambiental e economicamente)”. Isso nos indica que, no futuro, o “braço da força” e a “inteligência da observação física” não serão mais suficientes para assegurar competitividade e, assim, lucratividade na bovinocultura.

Nos dias de hoje, tudo muda com velocidade crescente. Assistimos à construção de hospitais inteiros em 12 dias na China, ao surgimento de máquinas que tendem a substituir o médico anestesista e, como já comentamos, ao nascimento da loja fantasma da Amazon Go, na qual você compra sem falar com ninguém, leva os produtos para casa sem passar pela moça do caixa nem pela “catraca” de autorregistro da mercadoria.

A geração do atual dono na faixa de 50 a 75 anos poderia, mas não tem muito ânimo para se enterrar na compreensão das dezenas de tecnologias e aplicativos que, todos os dias, pipocam em nosso WhatsApp. Pois ele já trabalhou bastante e transformou a fazenda extensiva do pai numa produção moderna, com piquetes, currais e, quem sabe, uma parte irrigada. Aí se pergunta: para que servem os filhos, que, desde os quatro anos, já mexem com jogos no computador e no smartphone?

Entramos, assim, na 3ª onda da pecuária (quase) virtual. No passado, foi o olho do dono que organizou a fazenda. Agora, com muito mais precisão e agilidade, passa a ser o olho do filho do dono (que usa o drone combinado com programas da Inteligência Artificial). Dessa forma, junta-se a inteligência sistêmica do jovem à experiência do pai na gestão das pessoas e à intuição dos boiadeiros que conhecem cada animal. Aqueles que, tradicionalmente, tocaram o boi no campo, certamente, terão dificuldade para entender e aceitar que um programa de computador e um chip implantado em diversas partes do corpo dos animais possam fornecer informações mais credíveis e imediatas do que sua experiência de observação quando se movimentam no meio do rebanho.

E, aqui, entra um novo elemento, um potencial quase inesgotável. Trata-se da capacidade gerenciadora das mulheres. Alguns números para entendermos melhor essa onda recente que está rejuvenescendo o setor. Primeiro, 52% da população brasileira são mulheres. Além disso, 57% dos novos profissionais que se formam em universidades são meninas, e, agora, 30% dos gestores rurais são esposas, filhas ou técnicas contratadas. Por final, a metade daqueles que um dia terão direito legal à herança são do sexo feminino. Assim, elas podem ser sucessoras (que gerenciam o negócio), sócias (com direito ao voto e à participação nos resultados) ou, simplesmente, herdeiras (que podem reclamar sua parte em dinheiro).

Mas essa mudança de perfil não ocorre apenas na produção. Além do privilégio de podermos contar com uma profissional e líder experiente na pasta da agricultura, temos, agora, uma mulher no comando da Sociedade Rural Brasileira, entidade de classe centenária. A Sociedade Rural de Maringá é dirigida por outra mulher. Há 15 anos, juntaram-se produtoras rurais em São Paulo para formar o Núcleo Feminino do Agronegócio, que organiza palestras e estimula a troca de experiências entre seus membros. O mesmo ocorre em Goiás, com o Núcleo Feminino da Pecuária Goiânia, que, em três anos, reuniu mais de 200 produtoras. Isso sem falar das tradicionais iniciativas nos estados do Sul, coordenadas por sindicatos ou cooperativas. E temos, ainda, o Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio.

Do lado dos homens, tivemos o Grupo de Agrolíderes, que formou lideranças do setor. Outras iniciativas são os Departamentos de Jovens dos Sindicatos que promovem congressos e dias de campo, e facilitam a integração de startups do segmento AGTech com os gestores de fazendas.

Com essas novas forças, a terceira onda da pecuária amplia a experiência valiosa dos atuais donos pelo dinamismo dos jovens que descobriram a atratividade do agro. A competência técnica das mulheres (que, com 57%, dominam os cursos das faculdades agronômicas), bem como sua sensibilidade no trato com as pessoas e os animais, é característica indispensável para o novo modelo da agropecuária supertecnificada. A tendência para difundir os sistemas de integração lavoura-pecuária requer exatamente essas habilidades de jovens e mulheres. Podemos concluir: já que temos demanda crescente por carne de qualidade, falta apenas reforçar a capacidade da produção mais sofisticada. Com essa perspectiva (integrando pais, filhos, mulheres), ninguém conseguirá parar o avanço global da produção bovina brasileira.