Caindo na Braquiária

Na linha do Equador

Foram cinco horas de voo até desembarcar no aeroporto de Boa Vista, capital de Roraima, possuindo 500 mil habitantes brasileiros e outros 60 mil a 70 mil venezuelanos que vivem à mingua na cidade. Logo que cheguei, fui recepcionado pelo técnico em agropecuária Henrique Martins, representante de vendas de sementes para pastagens, nutrição e genética que conhece muito bem a classe pecuária e suas particularidades. Não podia perder tempo. Almoçamos ligeiro deixando a capital via BR-174, estrada federal de pista simples, mas bem pavimentada, que liga Boa Vista a Manaus. São 640 quilômetros de distância entre as duas capitais, onde, a 300 km de Boa Vista, existe a reserva indígena Ianomami. O motorista desavisado que tentar atravessá-la de carro entre as 18h e as 6h dará com a cara numa corrente. Diariamente, os índios fecham a estrada para carros e caminhões nesse horário, permitindo apenas a passagem dos ônibus.

A primeira impressão que tive quando deixei a capital foi a de que os pioneiros que ali chegaram há décadas deveriam ter derrubado as matas e as explorado ao máximo, pois são pouco mais de 30 km de estrada ladeada por terras arenosas, muito pobres e, por vezes, alagáveis e cobertas por um capim nativo e pelo “Caimbé”, uma árvore retorcida e com folhas que parecem lixa, além de buritizais formando verdadeiros oásis.

Henrique me esclareceu que aquele bioma representa as savanas típicas da região, que se estendem pelo Norte e pelo Nordeste de Roraima, invadindo a Guiana e a Venezuela, sendo conhecidas como “Lavrado”. Árvores de grande porte não conseguem se desenvolver, dando lugar ao Trachypogon, capim duro que somente é consumido pelo gado quando os brotos nascem após a queima, sendo esta uma prática comum entre os pecuaristas que fazem pecuária nesse ambiente.

Após 40 km de BR, chegamos na bem administrada Fazenda Prateada, propriedade da família Paludo, tocada pelo experiente pecuarista Ermilo Paludo, sua esposa, Simone, seu filho Eduardo e sua nora Natalia, a qual leva, na ponta do lápis, o rebanho de seleção de Nelore da propriedade. São quase 500 fêmeas inseminadas na Prateada, sendo as comerciais acasaladas com Angus a fim de fazer bois com alto potencial de ganho. Os Paludo aproveitam as terras boas da região de transição entre o Lavrado e as ótimas terras de mata para integrar lavoura e pecuária (ILP). Plantam milho e capim juntos e não abrem mão da cerca elétrica, prática adotada desde a implantação ILP. Dessa forma, aproveitam todo potencial produtivo dos F1 Angus, suplementando-os com ração a pasto, produzindo uma arroba barata, além de selecionar touros Nelore com um menor custo.

No dia seguinte, rumamos novamente pela BR para chegar, após 16 km, na Agropecuária Norte Sul, propriedade de Moarei e Marilene Mezomo, selecionadores de Nelore, que me apresentaram um rebanho estruturado. Em nosso retorno, passamos no Frigo 10, único frigorífico com SIF no estado, com capacidade de abate de 600 animais/dia, podendo, nesse caso, vender carne para Manaus ou mesmo exportar pela Guiana Inglesa, que dista de Boa Vista pouco mais de 600 km, dos quais 450 km ainda não são asfaltados.

Vale, aqui, discorrer um pouco mais sobre essa oportunidade que o Brasil tem de exportar produtos da zona Franca (da qual Roraima faz parte) através do porto de Georgetown, na Guiana Inglesa. Tal porto, apesar da proximidade, não possui calagem para navios de grande porte, havendo necessidade de investimentos para torná-lo apto a recebê-los. No entanto, como descobriram, naquele país, uma das maiores reservas de petróleo do mundo, concomitantemente ao Brexit inglês, acredita-se que os ingleses terão que fortalecer os laços comerciais com as antigas colônias, devendo investir no porto de Georgetown, habilitando-o a receber navios petroleiros e afins.

Dessa forma, Georgetown pode se transformar num porto para escoamento da produção agropecuária de Roraima, economizando para os países importadores em torno de 9 mil km de cabotagem até os portos do Sul do País e, consequentemente, levando indústrias de transformação para a região. Para se ter ideia, não existe, lá, produção de frangos de corte e algum laticínio que embale e distribua leite no estado. Esses produtos vêm de Manaus, maior mercado consumidor da região, com 3 milhões de habitantes.

Meu último dia de visitas foi nas duas fazendas do grupo alemão Avercap, muito bem administradas pelo experiente agrônomo suíço Stephan Sidler. Nessa ilha de produção que fica no caminho para a Guiana, deparei-me com um sistema ILP próximo da perfeição. Para minha surpresa, o grupo tem um nível altíssimo de produção de soja e milho no “Lavrado”. Tal sucesso se deve à calagem de alto nível (o calcário chega em Roraima custando de R$ 360,00 a R$ 400,00/ton), sendo incorporado acima de 5 ton/ha, bem como à alta adubação fosfatada. Tudo isso cultivando capim entre ruas para que haja melhora no nível de matéria orgânica no solo. Indiretamente, a Avercap tem um ganho extra com o uso desse capim para o rebanho, o qual já está em 5 mil animais, todos suplementados no período seco (entre setembro e abril) com ração produzida usando farelo de soja (da qual se extrai o óleo lá mesmo, destinando-o a usinas de biodiesel, fabricas de ração etc.) e milho.

Na outra fazenda do grupo, a 150 km de distância de Boa Vista sentido Sul, vi um dos piores ambientes para se produzir capim e gado jamais visto. Um “Lavrado” de areia branca, onde Stephan desenvolveu um sistema de plantio direto sobre a Trachypogon. Ele apenas desseca o mesmo e faz plantio direto de capim (a maioria é humidícula) sobre ele, entrando com MAP (adubo fosforado) de cobertura apenas. Nessa fazenda, produz-se animais de cruzamento com uso de suplementação na seca e nas águas, desde novinhos no creep, acelerando o processo de abate e reprodução.

Foi uma experiência incrível a visita em Roraima, provando que o homem é capaz de utilizar a tecnologia para produzir mais sem agredir o meio ambiente.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected] Conheça www.crossbreeding.com.br