Brasil de A a Z

Em tempos de genômica, será que existe criador que ainda olha para o gado?

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Olá, amigos agropecuaristas! O ano de 2020 começou acelerado! Quanta coisa já fizemos na BrasilcomZ (www. brasilcomz.com) para acompanhar a dinâmica da pecuária de corte e estar em dia com o temas específicos de seleção e melhoramento em que atuamos.

O título da coluna deste mês é provocativo e atual, já que, em tempos em que os números estão dominando o mercado de sêmen e de touros, acompanhamos atentamente o encerramento de mais uma Expoinel Mineira, no parque Fernando Costa, em Uberaba (MG).

Digo “atentamente” em razão dos contrastes conceituais e das divergências de opiniões. Inclusive, recentemente, um grupo de criadores propôs a criação de uma nova associação para a raça Nelore. Descontentes com as entidades de raça e programas de melhoramento, eles afirmam não concordar com as atuais pistas de julgamento e, também, não acreditar nos resultados das avaliações genéticas.

Em tempos de troca de informação instantânea pelas mídias digitais, muitas pessoas ficam corajosas on-line, principalmente em grupos de WhatsApp. Nesses espaços, critérios de seleção são debatidos com uma divergência incrível de opiniões, fazendo com que, em certas ocasiões, os participantes percam a elegância e passem a apresentar comportamentos grosseiros ao defender seus respectivos pontos de vista – muitas vezes, sem nenhuma fundamentação técnica mais convincente.

Essa discussão sobre exposições ou sumários é velha. Quando iniciei minha carreira como zootecnista, a referência no mercado de genética eram animais oriundos das pistas de julgamento. Após 25 anos, esse mercado se inverteu totalmente, e a referência técnica, hoje, são as avaliações genéticas e genômicas.

No auge das exposições, a crítica da “oposição” era de que a seleção deveria ser objetiva, em ambiente mais natural de criação, e o uso da tecnologia era uma urgência. Atualmente, a controvérsia dos pisteiros – hoje “oposição” – reside em dois pontos específicos: a metodologia que as DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) são calculadas e o rumo que os animais oriundos de avaliações genéticas estão tomando ao perder em “tipo”, principalmente caracterização racial e aprumos.

É da natureza do ser humano criticar o diferente, mas o fato é que, hoje, muito mais se mede, e contra fatos não há argumentos. Quando fiz mestrado na USP, em 1999, já existia o discurso de que a virtude não se encontra nos extremos. Porém o mercado sempre busca soluções de venda mais simplistas, carecendo de menos interpretações e explicações, assim tratando temas complexos como se existissem verdades absolutas.

Em 25 anos como zootecnista, com mais de uma centena de exposições julgadas e milhares de animais avaliados nas pistas e, principalmente, nos currais pelo Brasil e pelo exterior, posso afirmar que, hoje, temos mais informações para a tomada de decisão, e que a interpretação de dados fenotípicos e genéticos é fundamental para um direcionamento assertivo.

Ainda que a tecnologia evolua, um rebanho só faz história se tiver um gestor com competências técnicas e feeling para impor um diferencial no gado. Comum é seguir a maioria num efeito manada. Normalmente, a maioria está certa. Porém existem modismos bem vendidos que são perigosos.

O recado, amigos, para os extremistas, é parar com o “mimimi”. Não existem apenas numerólogos ou antiquados no campo da pecuária seletiva. Também não existe verdade absoluta em um índice de seleção particular, mesmo bioeconômico. Penso que os melhores jogadores, nesse campo, serão aqueles com habilidade de explorar melhor os conceitos tradicionais e contemporâneos de melhoramento genético, na medida certa para cada rebanho ou projeto em particular.

E viva a diversidade de opiniões e pensamentos! Viva a tolerância e a democracia nas redes sociais e na vida! Mas, como diz o matuto pensador: cuidado para não ser “emprenhado pelo ouvido”. É isso aí, vamos que vamos!