Na Varanda

Quem ajudará a mudar o foco do boi para o peão?

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

Numa recente palestra, provoquei o público perguntando: “O que é mais importante: o boi ou o peão?”. A resposta provinda da segunda fila não tardou. “Claro que é o boi, pois ele dá dinheiro.” Gosto de respostas rápidas, mas nem sempre elas conseguem captar tudo que seja relevante para avaliar uma situação complexa. Já que a maioria silenciosa confirmou a colocação do colega, abanando com a cabeça, senti-me motivado para contrapor o seguinte: “Com todo o respeito, na minha visão, o boi é que custa dinheiro, mas é o pessoal da fazenda que produz o lucro”.

Conto isso pois, poucos dias depois, repeti o mesmo episódio numa plateia feminina de técnicas e de produtoras rurais. Interessantemente, o resultado foi diferente. A resposta demorou alguns segundos a mais, no entanto, duas senhoras responderam, quase ao mesmo tempo: “O peão, pois ele cuida do boi para controlar os custos e otimizar o valor na hora da venda”. Bom, é sobre isso que vamos refletir no nosso papo desta edição.

No mês passado, conversei com dezenas de produtoras rurais durante o 4º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio sobre suas visões e perspectivas referentes à produção de alimentos no futuro. Ao longo de dois dias, cerca de 1.500 fazendeiras, pesquisadoras e gerentes de empresas de insumos, indústrias de transformação e bancos debateram temáticas sobre como entender e se preparar para um agronegócio cada vez mais tecnificado.

Sempre participei ativamente na formação de agrupamentos femininos do setor, pois estava prevendo uma ascensão da mulher em posições de comando em todos os segmentos. Afinal, as mulheres representam 51% da população, e o mesmo vale para futuras herdeiras de propriedades rurais. Assim, nada mais natural que repetir na gestão de negócios o que observamos nas faculdades de Agronomia, onde, hoje, mais da metade dos estudantes é mulher. O interessante é que a maioria dessas jovens não tem origem no campo. O que será que as motiva?

Como já avaliamos diversas vezes, estamos no século do conhecimento e da mulher. Nada melhor do que começar a estudar o fenômeno da maior representatividade feminina em todas as áreas e, assim, também no agro. Durante o Congresso foi lançado um livro – que recomendo a todos. A obra “Mulheres do agro – Inspirações para vencer desafios dentro e fora da porteira” retrata a trajetória de 50 fazendeiras, profissionais e representantes de entidades rurais numa visão integrada do setor. As quatro autoras, executivas bem-sucedidas em diversos domínios do mercado, conseguiram retratar os principais elementos que as tornaram vencedoras em suas áreas de atuação em diversas regiões do País. Não falta nenhum aspecto, desde questões jurídicas contratuais e direito familiar (sucessão) até marketing digital, investimentos e blindagem de riscos. Um verdadeiro “compêndio do agro”.

E quais são os principais ensinamentos desse trabalho de pesquisa e da observação do cenário da ascensão feminina no agro? Primeiro, devemos entender por que só agora herdeiras e profissionais ocupam postos mais destacados de gestão. A explicação é uma combinação de vários fatores. Hoje, as famílias têm menos filhos, mais eletrodomésticos, muitas vezes, dois carros, laptops e smartphones para cada um dos pais e filhos. Isso, juntamente com o acesso igual a formações profissionais e estudos universitários, o que faz com que a mulher possa desenvolver talentos e habilidades, cenário que, antes, não era possível, num mundo tecnicamente e socialmente mais simples. Partindo do princípio de que homens e mulheres possuem estatisticamente potenciais profissionais iguais, temos que passar para o próximo patamar de reflexão.

Quais foram as características, habilidades e posturas do produtor rural na geração anterior e o que mudou no cenário atual? Em todas as áreas de produção industrial, rural e até de serviços, houve uma mudança do “físico” para o “intelectual” e “sistêmico”. Após a evolução das máquinas na era do domínio do hardware, estamos, hoje, num ambiente cada vez mais tecnificado com aplicativos, ou seja, movido pelo domínio do software. Tudo é mais complexo, mais dinâmico, mais integrado. E a diferença está mais na habilidade das pessoas do que na capacidade dos equipamentos – que são iguais para todos. Por consequência, são – e serão cada vez mais – as pessoas que fazem a diferença. Dentro dessa perspectiva, quando se trata de avaliar, capacitar, orientar e motivar pessoas na fazenda, é bem provável que a antiga “dona de casa” esteja bem preparada. Pois é ela que, em grande parte, gerencia a logística e o orçamento familiar, orienta os filhos ou constrói o diálogo confortante num eventual evento de conflito entre parentes. Dessa forma, ela possui uma disposição psicológica bem preparada para a gestão holística da fazenda moderna, que tem por objetivo otimizar o cuidado de plantas, animais, máquinas e das pessoas no campo num sistema que avança em direção de mais e melhores safras dentro do conceito ILPF.

Voltando à questão inicial, podemos constatar que o “boi” já evoluiu muito tanto na genética como no manejo. O desafio, agora, é a capacitação contínua do “peão”, que deve evoluir para a função de “operador de sistemas”. Ele terá que integrar os aspectos físicos da terra com opções técnicas de processos e alimentar a rede de comunicação com as equipes dentro e fora da porteira. Quem está mais bem preparado para promover esse salto qualitativo é a mulher, que está entrando no setor com largos passos. Quando tivermos dúvidas se tudo isso realmente está acontecendo, devemos lembrar como a produção bovina era em 2000 e como ela será em 2030 com rastreabilidade total, necessidade de aprendizado contínuo, inclusão cada vez mais intensa dos colaboradores no modelo de negócio da pecuária de precisão e muitos outros desafios. Chegou a hora de olhar com mais atenção para as mulheres!