Caprinovicultura

Carne de qualidade se inicia com animal bem nutrido

Alimentação adequada do nascimento à terminação colabora para aspecto sanitário geral dos cordeiros e para a oferta de um produto final aprimorado ao consumidor

Denise Saueressig
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Para alcançar bons resultados na produção e na venda, o criador deve trabalhar com atenção às diferentes necessidades do rebanho. Entre os cordeiros, categoria que oferece a carne mais valorizada do mercado, os aspectos nutricionais representam a base para um animal saudável e que, consequentemente, originará um produto de melhor qualidade.

Um animal bem nutrido tem um sis tema imunológico mais forte e consegue responder positivamente a qualquer desafio que o ambiente possa trazer a ele, observa a zootecnista Sarita Bonagurio Gallo, professora da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (USP). “Por exemplo, se o cordeiro está em um local com altas chances de adquirir doenças, mas estiver bem nutrido, muitas vezes, nem terá problemas. E, se ficar doente, terá uma velocidade de cura maior do que um animal que está debilitado”, conclui.

Doutora em Nutrição de Ruminantes, Sarita foi palestrante do 19º Seminário Paulista de Ovinocultura, no mês passado, durante a 32ª Expovelha, em Lençóis Paulista/SP. Na sua palestra durante o evento, a professora abordou a “Nutrição do cordeiro do nascimento à terminação”.

Nos primeiros dez a 15 dias de vida, a única fonte de nutrição do filhote é o colostro e o leite. É o período em que é perceptível a maior mortalidade de cordeiros, sendo que boa parte dessas ocorrências se deve a problemas de nutrição. Isso acontece ou porque a mãe não está produzindo leite suficiente, ou porque não produziu um colostro de boa qualidade que conferisse ao recém-nascido uma boa imunidade. “Por isso, é importante ressaltar que a nutrição do cordeiro começa antes de ele nascer, ou seja, quando a ovelha está preparando o colostro. É o momento em que o criador deve dar um bom suporte para as fêmeas prenhes. Se uma ovelha está doente ou subnutrida, não conseguirá produzir o colostro em grande quantidade e com boa qualidade”, observa a zootecnista.

Até as duas primeiras semanas de vida, o cordeiro ganha peso facilmente. São entre 200 e 300 gramas diários quando a mãe tem uma boa produção de leite. “Nos animais com os quais trabalhamos na universidade, conseguimos um quilo de peso em seis ou sete dias. É um bom índice, mas, dependendo do padrão genético do animal, pode ser alcançado em menos tempo”, explica Sarita.

A engorda dos cordeiros é uma ferramenta eficaz na gestão do rebanho. Ao pesar os animais até os primeiros 15 ou 20 dias de vida, o criador pode ter a percepção adequada do quanto de leite cada matriz está produzindo e, assim, selecionar as fêmeas para o posterior descarte daquelas que não apresentam índices satisfatórios. “Se queremos uma ovinocultura competitiva, não podemos manter no rebanho animais que não têm um bom desempenho”, conclui.

Quando a mortalidade de cordeiros é baixa, o custo de produção do animal varia entre R$ 5,00 e R$ 6,00 o quilo vivo. Mas, quando os índices de perda são altos, esse custo dobra. “Assim, para ter sucesso na ovinocultura, é fundamental investir na nutrição dos cordeiros, especialmente nos primeiros dias de vida, ou seja, na nutrição da matriz, porque ele depende da mãe para sobreviver”, salienta a professora.

Terminação precisa de um bom planejamento

Na maioria das raças, o cordeiro mama bem até os 60 ou 70 dias. No caso de animais Santa Inês e Morada Nova, esse período pode se estender até os 90 ou 100 dias. “É quando o cordeiro terá a mãe e os alimentos sólidos, que pode ser ou uma pastagem, ou uma silagem, ou grãos na forma de concentrado. É importantíssimo que, nessa fase, o animal receba sal mineral para evitar déficit de crescimento”, recomenda Sarita.

Também é o período em que podem ser utilizadas estratégias como creep-feeding (alimentação privativa) e creep-grazing (pastagem privativa). Segundo a professora, são ferramentas que ajudam os cordeiros a ganharem mais peso e a alcançarem uma terminação adequada mais jovens.

A partir dos 60 dias, quando o rúmen do animal já está desenvolvido, o produtor tem diferentes opções de manipulação da dieta. A terminação a pasto ou em confinamento vai depender dos objetivos do produtor e da capacidade que ele terá de pagar por uma alimentação administrada em confinamento, por exemplo. “Do ponto de vista zootécnico, o cordeiro tem uma capacidade impressionante para ganhar peso. Conseguimos, com nossos animais, chegar aos 130, 135 dias de vida com peso entre 40 e 42 quilos em um confinamento de 50 dias na terminação”, relata a zootecnista.

Em São Paulo, que representa um mercado importante para a carne ovina, a indústria vem trabalhando com o abate de animais com menos de seis meses de vida, admitindo fêmeas entre 38 e 40 quilos, e machos entre 40 e 42 quilos. “Normalmente, esse é o peso máximo. O consumidor paulista é bastante exigente e tem preferência por uma carne de sabor e odor mais suave, características que não serão obtidas em animais com gordura excessiva, mesmo quando jovens”, detalha a especialista. A diferenciação desse mercado também aqueceu o preço no estado. Atualmente, o quilo do animal vivo varia entre R$ 8,50 e R$ 12,00, com oscilações de acordo com a época do ano e a região de produção.

As definições sobre a terminação do cordeiro devem partir de um planejamento de longo prazo feito pelo criador. É natural que o custo do confinamento seja mais alto por dia, porque o animal vai ingerir um alimento de maior qualidade. “Se o cordeiro vai comer milho, soja ou até resíduos de indústrias – como polpa cítrica ou caroço de algodão –, será mais caro do que o pasto. O que é questionável é que, quando pensamos no custo de produção, precisamos considerar o valor da terra. No caso de São Paulo, o custo da terra é muito alto e, aí, é preciso pensar que terminar um cordeiro em pastagem leva muito mais tempo, e o custo do cordeiro também fica mais alto”, argumenta Sarita. Nesses casos, o valor gasto na pastagem e no confinamento acabam empatando. São situações em que pode valer a pena o produtor manter confinamento e liberar a terra para produzir outras culturas, obtendo então, mais uma fonte de renda.