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Facilidade de parto: uma nova preocupação?

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DEPs maternas em fêmeas precoces conferem papel principal aos touros no encurtamento de ciclo

Tiago Carrara*

Não existem dúvidas de que as fazendas brasileiras mudaram. E para melhor. Hoje, com áreas muito mais produtivas, os pecuaristas promovem uma verdadeira revolução no campo através do uso de tecnologias e de uma maior consciência que o resultado financeiro está atrelado à produção de arrobas por hectare.

Com isso, a chamada pecuária de ciclo curto ganha espaço, e práticas de aceleramento da produtividade têm sido adotadas. Nessa tendência, retirar de dentro do ciclo produtivo uma categoria inteira de animais é uma escolha óbvia para encurtar o tempo gasto para se produzir. Assim, diversos pecuaristas do Brasil passaram a selecionar animais cada vez mais precoces sexualmente, com capacidade para entrar em puberdade e emprenhar entre 12 e 16 meses de idade.

Essas fazendas buscam excluir de dentro do ciclo a categoria de novilhas entre 12 e 24 meses, que, no modelo antigo, ficavam nos pastos ganhando peso mais lentamente e aguardando sua puberdade. Agora, o ganho de peso é acelerado logo após o desmame, e, ao emprenhar jovens, essas fêmeas terão seu parto acontecendo entre 21 e 25 meses, um ano antes das fêmeas criadas em modelo convencional.

Contudo, os bônus colhidos com essa prática trazem também novos desafios e preocupações para o produtor. Um deles é o aumento de parto distócicos, em que o bezerro não consegue passar pela bacia por estar bloqueado fisicamente. A característica acomete, em maioria, fêmeas da categoria nulípara precoces (que não tiveram filhos). E, aparentemente, acontece por uma combinação entre diminuição do peso e da idade da fêmea ao parto com o aumento do peso de nascimento do bezerro.

Problemas no parto provocam aumento de custos dentro do sistema. Ainda, e mais importante, temos a interferência na produtividade, o que impacta diretamente no faturamento e na margem financeira do negócio.

Normalmente, partos distócicos estão associados a um aumento de lesões e mortes de animais (da mãe e do filho). Sem contar as matrizes estressadas pela maior probabilidade de rejeitar seus bezerros, a dificuldade de aleitar e, principalmente, de produzir um colostro de qualidade. Da mesma forma, bezerros filhos de partos distócicos são mais letárgicos e exigem mais atenção para conseguir mamar. Combinação essa que produz animais menos saudáveis, mais suscetíveis a doenças, de baixa produção e que não conseguem expressar seu potencial genético ao longo da vida.

Por fim, existem perdas significativas nas taxas reprodutivas, fêmeas que passam por parto distócicos estão mais propensas à retenção de placenta, ao prolapso uterino, entre outros. Também têm maior dificuldade na recuperação do parto e perdem mais escore de condição corporal, situações que dificultam o estabelecimento de uma nova prenhez. Lembrando que os piores resultados reprodutivos, normalmente, acontecem em primíparas, justamente a categoria com maior ocorrência de partos assistidos.

Uma faca de dois gumes

Para lidar com esta questão, que, em algumas fazendas, é responsável pela necessidade de auxílio em mais de 20% dos partos, o produtor segue a lógica e trabalha para ter uma fêmea precoce parindo com um melhor peso. Por outro lado, busca touros com DEP baixa para peso ao nascimento. Mas estudos e experiências em diversas raças mostram que este caminho não resguarda o sistema de todos os possíveis problemas. E, indo além, pode provocar um efeito crescente de problemas de parto para o futuro.

Aumentar o peso da fêmea até o parto requer uma melhor nutrição antes da estação de monta para que ela entre no período com um peso maior. Isso ajudará não só a ter fêmeas com melhor estrutura, como também a aumentar a taxa de prenhez em fêmeas precoces. Contudo, esse embalo pré-estação não é suficiente para garantir um peso ótimo ao parto. É necessário dar continuidade à suplementação das fêmeas durante a gestação de forma suficiente a favorecer o crescimento delas.

Devemos seguir com essa estratégia até o segundo terço da gestação. No último terço, é necessário haver uma readequação nutricional para impedir um crescimento exagerado do feto e de bezerros mais pesados ao nascimento. É nesse momento que a maioria dos produtores erra, pois opta por continuar suplementando no mesmo ritmo, favorecendo o crescimento da novilha e do feto.

Outro ponto de observação está na escolha dos touros com DEPs para baixo peso ao nascimento. A correlação entre pesos nas diversas fases da vida do animal é muito alta. Escolher animais de alto desempenho que otimizem a produtividade por hectare implica selecionar para animais com alto potencial de ganho em peso. E esse potencial – que é muito bem-vindo nas fases que impactam no faturamento do sistema –, como na desmama e no abate, também ocorre em momentos menos interessantes, como na fase adulta e na fase fetal. Ou seja, selecionar para animais altamente produtivos implica selecionar para maior peso ao nascimento.

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DEP materna minimiza interferências genéticas que aumentam a incidência de partos assistidos

E o contrário é verdadeiro. Ao selecionar para touros com baixo peso ao nascimento, estamos, na maioria das vezes, selecionando para animais de pior desempenho. É mui to provável que filhas de touros com baixo peso ao nascimento tenham maior desafio para chegar à estação de monta. E, ao corrigir um problema imediato, podemos aumentar a ocorrência de problemas a longo prazo, pois a fêmea com peso adequado pode ter menores taxas de prenhez e maior incidência de partos distócicos.

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ANCP estuda DEP para facilidade de parto direta e materna na raça Nelore

Novidades à vista

Estudos realizados nos Estados Unidos e publicados pela American Angus Association e pela Red Angus Association apontam que o melhor caminho para evitar problemas de parto é olhar com mais critério para a fêmea, e não só para o touro, como muitos pecuaristas fazem. A matriz explica dois terços das ocorrências de parto, dando ao touro um papel coadjuvante neste tema. Essas pesquisas apontam que 60% dos problemas de parto estão associados ao peso do bezerro e os outros 40%, a outras questões genéticas e ambientais, como partos gemelares, anomalias fetais, conformação do bezerro, período de gestação, conformação pélvica e tamanho da vaca, entre outros.

O peso do bezerro ao nascimento possui uma herdabilidade ao redor de 50%, ou seja, 50% dele é responsabilidade da expressão de seus gens e os outros 50%, de questões ambientais, como nutrição da mãe, tamanho do útero, doenças que interferem na gestação, entre outros. Dos 50% genéticos, devemos lembrar que metade são gens que vieram da mãe e a outra metade, do pai. Sendo assim, touros com altas DEPs para peso ao nascimento, realmente, têm maior possibilidade de produzir bezerros com pesos altos e, com isso, maior incidência de partos assistidos. E, nesse sentido, não podemos ignorar que essa afirmação também é verdadeira para as vacas, ou seja, matrizes com alta DEP para peso ao nascimento terão maior probabilidade de passar por um parto assistido.

Uma nova DEP

Na balança entre produzir mais com alto potencial de ganho de peso e maior incidência de partos assistidos, ou diminuir a incidência desse problema, mas também o potencial produtivo como consequência, a American Angus Association decidiu por selecionar uma nova DEP – a de facilidade de parto, mesmo caminho adotado pelas associações de diversas raças no mundo.

Essa DEP é calculada a partir de dados coletados no momento do parto. São definidos escores visuais para classificar os partos entre: sem assistência, assistência leve, assistidos, assistidos com cirurgia e partos anômalos, desconsiderados neste cálculo. O sentido de seleção é a busca por touros com menores ocorrências de assistências.

Por englobar todos os possíveis efeitos causadores de partos assistidos, e não somente o peso ao nascimento do bezerro, essa DEP é muito mais completa e segura para o processo de seleção. Contudo, como o fator peso ao nascimento é responsável por uma grande parcela desses efeitos, selecionar para facilidade de parto direta (diretamente medida nos filhos dos touros) poderá livrar os bezerros de problemas, como baixo peso ao nascer, baixo potencial de ganho de peso, dificuldade para alcançar peso e tamanho adequado para entrar em estação de monta e no momento do parto. Portanto, essa DEP deve ser observada apenas para cruzamentos terminais, nos quais as fêmeas nascidas não serão utilizadas para reposição dentro do rebanho.

Para fêmeas que serão utilizadas na reposição, a solução passou a ser a DEP facilidade de parto materna, que mensura a facilidade de parto que as filhas dos touros possuem na hora de parir seus netos. Essa DEP utiliza os mesmos dados coletados para medir a facilidade de parto direta e não gera um manejo de coleta de dados extra dentro da fazenda.

Com a DEP materna, evitamos as correlações entre o baixo peso ao nascimento, os pesos de interesse produtivo e o peso adulto, e seus efeitos cascata nas gerações futuras. Assim, buscamos fêmeas com boa habilidade de parir, sem necessidade de assistência. Essa DEP também tem a vantagem de ser um olhar global sobre a situação do parto, cobrindo praticamente todas as interferências genéticas que aumentam a incidência de partos assistidos.

Ao utilizar essa ferramenta de seleção, a raça Angus, nos Estados Unidos, diminuiu o número de partos assistidos para 9% em novilhas com parto por volta dos 24 meses. Destas, 6,9% tiveram assistência leve e apenas 2,1%, assistência efetiva ou necessidade de cirurgia – mostrando alta resposta à seleção.

DEP para Nelore

Inspirados por estudos como esses e preocupados com o aumento de ocorrências em fazendas que selecionam fêmeas precoces na raça Nelore no Brasil, a Alta Genetics, a consultoria Melhora Mais e a Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores (ANCP) se uniram para multiplicar seus esforços em torno da coleta de dados sobre a necessidade de assistência em partos em mais de 50 fazendas voluntárias em todo o Brasil e na Bolívia. Esses dados serão trabalhados pela ANCP para construir DEP para facilidade de parto direta e materna, bem como para subsidiar diversas pesquisas sobre o assunto.

Estudos preliminares a partir de dados oriundos de fazendas pertencentes à Genética Aditiva e à Chácara Naviraí já mostraram a variabilidade genética entre touros e a importância da genética da fêmea dentro desse contexto. Também auxiliaram na identificação dos primeiros marcadores moleculares para facilidade de parto na raça Nelore, o que viabilizará, no futuro, o cálculo de DEPs genômicas para essa característica.

*Gerente de mercado da Alta Genetics