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EFICIÊNCIA AMPLIADA

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Diagnóstico de gestação por meio de análise leiteira diminui o manejo e o estresse das vacas se comparado a métodos tradicionais

Dr. Carlos Bondan1, Dr. João Ignácio do Canto2, Me. Joseane Bressiani3

A evolução da pecuária leiteira tem se caracterizado pelo rápido progresso no desenvolvimento de novas tecnologias que garantam sua viabilidade econômica. A geração de dados precisos e rapidamente disponíveis representa uma importante ferramenta na gestão da propriedade, devendo ser o manejo reprodutivo do rebanho devidamente orientado, buscando a maior produtividade e sustentabilidade do negócio leiteiro.

A eficiência reprodutiva dos rebanhos leiteiros impacta consideravelmente na sustentabilidade da fazenda e deve ser avaliada utilizando vários parâmetros como eficiência na detecção de cio, dias do parto ao primeiro serviço, taxas de concepção, doses de sêmen por prenhez e intervalo entre cios, sendo o principal deles o intervalo entre partos.

Considerado ideal para maximizar a eficiência produtiva e de bezerros, o intervalo entre partos não deveria ultrapassar 12 meses, pois, com intervalos de partos reduzidos, as vacas terão maior número de crias e maior produção de leite na sua vida útil, podendo trazer maior retorno econômico à atividade leiteira.

O diagnóstico precoce de gestação realizado aos 28 dias após a inseminação artificial ou a cobertura, independentemente da forma como é realizado, é uma informação de grande importância na tomada de decisões dos produtores, sendo essencial a rápida identificação das vacas vazias com o objetivo de antecipar o próximo serviço e reduzir o intervalo parto/concepção. No caso de vacas diagnosticadas precocemente como positivas (gestantes), o diagnóstico precoce, isoladamente, não deve ser considerado como definitivo, sendo necessário o monitoramento gestacional continuado, pelo menos até os 60 dias, considerando a elevada ocorrência de perdas gestacionais precoces, como destacaremos a seguir.

Pode-se dizer que o sucesso no processo de desenvolvimento gestacional ocorre pelo somatório de uma série de eventos anteriores ao momento da concepção e do desenvolvimento embrionário precoce, sendo, portanto, aspectos críticos na manutenção e pleno desenvolvimento do produto em toda a sua vida intrauterina e que devem ser bem compreendidos.

Considerando que técnicos e produtores buscam maior agilidade e precisão no diagnóstico de gestação, que nos poderá ser fornecido por diferentes métodos de diagnóstico, nossos esforços devem se concentrar em prevenir transtornos que venham a prejudicar o desempenho reprodutivo dos nossos rebanhos leiteiros, buscar maiores taxas de concepção e redução de perdas embrionárias, associados à utilização de métodos de diagnóstico de gestação precisos e precoces.

Perdas embrionárias representam uma das principais causas de falhas reprodutivas em bovinos, constituindose, portanto, em um aspecto fundamental a ser considerado na implementação rotineira do diagnóstico precoce de gestação. A palpação por via retal é o método mais antigo e largamente utilizado em vacas de leite, sendo que outros métodos têm sido propostos e aplicados nas últimas décadas com diferentes peculiaridades, como, por exemplo: verificação visual de retorno ao cio após cobertura (de 18 a 24 dias) com auxílio de diferentes dispositivos de detecção (tinta, patches, rufião, radiotelemetria etc.), ultrassonografia (US) em modo B para verificação da vesícula coriônica e batimentos cardíacos do concepto (de 28 a 32 dias), prova do beliscamento por palpação transretal (a partir de 35 dias), US com doppler para avaliação da irrigação do corpo lúteo possivelmente gravídico (21 dias). Embora diferentes métodos possam ser utilizados no diagnóstico de gestação em bovinos, as glicoproteínas associadas à prenhez (GAP) e microRNA específico da gestação são biomarcadores que podem ser usados antes de 30 dias de prenhez.

Considerando os protocolos reprodutivos, atualmente muito empregados para ampliar as taxas de serviço em rebanhos cuja detecção do cio é um fator limitante, cabe destacarmos alguns aspectos relevantes, que acabam por interferir nas taxas de concepção e eventuais perdas gestacionais, que são verificadas tão precocemente quanto os atuais métodos de diagnóstico de gestação nos permitam.

Em extenso trabalho de pesquisa com rebanhos leiteiros, envolvendo quase 7,5 mil animais, estudiosos analisaram o efeito da manifestação de cio nas taxas de concepção (32 dias) e perdas embrionárias (60 dias), nas vacas em lactação submetidas a protocolos de inseminação artificial em tempo fixo (IATF) e transferência de embriões em tempo fixo (TETF), tendo concluído que vacas que manifestaram cio apresentaram melhores resultados em ambos protocolos avaliados, ou seja: na IATF, concepção de 38,9% (com cio) vs. 25,5% (sem cio) e perdas embrionárias de 14,4% vs. 20,1%; e, na TETF, concepção de 46,2% vs. 32,7% e perdas embrionárias de 18,6% vs. 22,7%. Esses dados demonstram claramente a importância da reavaliação periódica de vacas precocemente diagnosticadas como prenhes, caracterizando a necessidade de um acompanhamento veterinário continuado, sendo o diagnóstico de gestação no leite, uma ferramenta a mais que vem a garantir o crescimento na cadeia produtiva.

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Professor Bondan coordena o laboratório que realiza análise leiteira para diagnóstico precoce de prenhez

Indicadores de gestação

fazendas, o diagnóstico precoce da gestação é feito por um veterinário habilitado, seja por palpação via retal ou US do útero. O diagnóstico da gestação pode ser um problema para os produtores de leite em áreas nas quais o apoio veterinário é limitado. A abordagem alternativa é utilizar detecção de gestação através de técnicas laboratoriais. Nos anos 1980, várias empresas comercializavam testes de progesterona de leite, que possibilitavam aos fazendeiros a conveniência de coletar amostras de leite e obter os resultados imediatamente. No entanto, a progesterona é um indicador indireto da gestação.

As vacas podem ter altas concentrações de progesterona por razões além da gestação. Por esse motivo, a tecnologia foi muito eficaz na identificação de vacas não gestantes (> 90% de precisão), mas menos para as vacas gestantes (< 80% precisão – Nebel, 1988). A adoção dessa tecnologia era muito baixa para permanecer economicamente viável, e, em 2002, testes de detecção de gestação baseados na medição de glicoproteínas associadas à gestação (PAG) tornaram-se disponíveis para os produtores de leite. O ensaio inicialmente foi limitado ao soro ou ao plasma obtido do sangue centrifugado e analisado em laboratório.

As PAG pertencem a uma grande família de proteínas aspárticas inativas expressas pela placenta de ruminantes domésticos, incluindo vacas, ovelhas e cabras. As concentrações médias de PAG no gado estarão aumentadas de 15 a 35 dias após a concepção da gestação; no entanto, a variação da PAG entre as vacas impede que o teste seja confiável até o 28º dia de gestação. Apesar de bem-sucedida, essa tecnologia estava limitada pela exigência de coletar amostras de sangue.

Recentemente, a Idexx Laboratories Inc. (Westbrook, ME) desenvolveu um teste de detecção de prenhez baseado na medição de PAG no leite. Bradley et al. (2014) testaram a presença da PAG no leite e concluíram que esse teste foi tão preciso quanto a detecção da presença de PAG no sangue. O ensaio utilizando amostras de leite fornece uma alternativa precisa para os produtores de leite que têm acesso limitado a um veterinário para detectar prenhez nas vacas.

O diagnóstico de gestação utilizando amostras de leite diminui o manejo e o estresse das vacas comparado aos outros métodos tradicionais, pois não necessitam ser separadas das demais vacas do rebanho nem ser contidas para que o veterinário possa executar as técnicas de diagnóstico. O leite pode ser coletado em qualquer ordenha do dia, ou, ainda, a mesma amostra utilizada para análise da composição química e contagem de células somáticas pode ser utilizada para determinação da prenhez.

1Professor FAMV/UPF e coordenador do Sarle/UPF; 2Dr. João Ignácio do Canto, professor FAMV/UPF; 3Me. Joseane Bressiani, responsável técnica Sarle/UPF


RECOMENDAÇÕES TÉCNICAS APÓS A INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL:

Na Universidade de Passo Fundo, Serviço de Análises de Rebanhos Leiteiros (Sarle) oferece o diagnóstico de gestação através do leite desde o início de 2019, e as recomendações técnicas para a utilização dessa ferramenta diagnóstica são as seguintes:

• 28 dias após a IA: coletar leite para diagnóstico de gestação. Vacas vazias (não gestantes) deverão ser avaliadas por um médico-veterinário;

• 42 dias após a IA: as vacas deverão ser reavaliadas. Essa avaliação poderá ser feita através do leite ou por um médico-veterinário que, com a utilização do ultrassom, poderá determinar a sexagem fetal nas vacas prenhes. As vacas vazias deverão ser avaliadas pelo médico-veterinário, que adotará a estratégia que melhor possibilite uma concepção no menor tempo possível;

• 60 dias após IA: as vacas deverão ser reavaliadas. Essa avaliação poderá ser feita através do leite ou por um médicoveterinário. As vacas vazias deverão ser avaliadas pelo veterinário, que adotará a estratégia que melhor possibilite uma concepção no menor tempo possível;

• aos 220 dias de gestação, antes do período seco, as vacas deverão ser reavaliadas. Essa avaliação poderá ser feita através do leite ou por um médico- -veterinário, através da palpação via retal.