Entrevista do Mês

Impulso à genética

Entrevista

Com duas décadas de atuação no mercado de genética, o engenheiro-agrônomo Márcio Nery assumiu a presidência da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). Na bagagem, traz 12 anos na direção-geral da ABS e um grande poder de articulação e relacionamento com criadores, empresas, indústrias e governo. Veja como ele pretende fomentar a genética e a pecuária brasileira no triênio 2019-2022

Thaise Teixeira
[email protected]

Revista AG – Você assume a presidência da Asbia com crescimento de 28% na venda de sêmen para gado de corte e 7% na venda de sêmen para gado de leite no primeiro semestre deste ano. O que isso reflete na prática?

Márcio Nery – Isso significa que o pecuarista acordou para o impacto da genética. É um crescimento forte, vigoroso. É importante ressaltar que não é o primeiro semestre de crescimento. Esse cenário já vem se desenhando nos últimos anos. O pecuarista, finalmente, acordou para o impacto que a genética pode produzir na lucratividade, na rentabilidade e na sustentabilidade do seu negócio.

Revista AG - Frente a esse cenário, quais serão suas principais metas no comando da Asbia no triênio 2019-2022?

Márcio Nery – Além de continuar o bom trabalho feito pelo Sérgio Saud e pelo Carlos Vivacqua, que estiveram à frente da entidade nas duas últimas administrações, minha principal meta à frente da Asbia é fazer com que a associação se torne cada vez mais relevante e que represente o setor, não só em genética, mas em tudo que é ligado ao tema. Isso tem acontecido nos nossos canais de comunicação com as associações de raças, com o Ministério da Agricultura (Mapa), em questões de importação e exportação de material genético, questões legais etc. Inclusive, recentemente, conseguimos derrubar uma lei que impediria a inseminação artificial na Paraíba, o que poderia ser replicado em todos os estados. Impedimos que essa lei fosse para a frente. Então é a Asbia trabalhando em prol do setor. Estamos atuando em várias frentes, mas a representatividade da Asbia é cada vez mais visível e importante, e é nesse sentido que vamos continuar trabalhando.

Revista AG – Como você acha que a entidade pode contribuir para que a prática da Inseminação Artificial (IA) seja disseminada a um maior número de pecuaristas brasileiros?

Márcio Nery – A entidade vai trabalhar mostrando o que tem feito, o que tem produzido de bom, todos os trabalhos realizados em defesa do produtor. O relatório da Asbia é o nosso principal produto, e uma das nossas metas é fazer com que não seja produzido só em nível de estado, mas que possamos estratificá-lo até o nível de município. Essa é a nossa proposta, e estamos trabalhando forte para que isso aconteça já a partir do ano que vem, no primeiro trimestre. Essa estratificação é muito importante para o setor, para as prefeituras de todo o Brasil, para as entidades de defesa sanitária de cada estado e para o Mapa.

Revista AG – Qual é a sua percepção para o crescimento neste mercado (Brasil) no próximo ano?

Márcio Nery – Primeiro, levando em consideração os seis meses dos relatórios do ano de 2019, estamos focados na busca por manter esses aumentos de vendas de 28% no corte e de 7% no leite, e parece que isso vai se confirmar. Teremos, nos próximos dias, o relatório do terceiro trimestre de 2019. Para 2020, pretendemos fazer crescer o mercado total, em torno de 12%, o que já é um bom nível de crescimento. Se continuarmos nesse ritmo, nos próximos quatro anos, o Brasil chegará forte com 25 milhões a 30 milhões de doses de sêmen produzidas e comercializadas dentro do País.

Revista AG – Quais as raças de corte que estão puxando esse número e por quê? Devem se manter para o próximo ano?

Márcio Nery – Em relação ao crescimento do corte, todas as raças têm dado a sua contribuição. Quando se fala sobre percentual, existem raças que vendem um volume menor, mas estão crescendo acima de 20%. Então, na verdade, o crescimento é de todas elas. Mas, em relação às que vendem mais sêmen, não é segredo para ninguém, existe uma dominância muito grande do Angus, do Nelore e de tudo o que circunda essas duas raças, como Brangus, Nelore Mocho e Tabapuã. Elas são as que dominam o mercado na área do corte.

Revista AG – Como você avalia o uso da genética brasileira no mercado internacional?

Márcio Nery – A genética brasileira é a melhor genética tropical do mundo para leite e corte. O mundo tropical não é autossuficiente em leite, existem muitos países na faixa tropical que precisam melhorar a produtividade e a genética. É nesse sentido que estamos trabalhando junto ao Mapa e a diversas associações de raça para ampliar os nossos mercados e criar protocolos sanitários que nos permitam exportar cada vez mais material genético – sêmen e embriões – de forma legal.

Revista AG – Quais são seus planos para o fomento do uso da genética brasileira? Em quais países em potencial e por quê?

Márcio Nery – O nosso principal mercado, hoje, é a América Latina – Central e do Sul. A Ásia e a África têm países onde aparecem cada vez mais possibilidades de se concluir protocolos sanitários para iniciarmos esse processo de exportação. Não podemos esquecer o volume enorme que a Índia consome, são mais de 70 milhões de doses de sêmen por ano. Já foram realizadas algumas exportações para lá, porém é um protocolo sempre difícil de atender. Não podemos deixar o país de lado, mesmo com todas as dificuldades, pois tem um potencial muito grande.

Revista AG – Quais são as principais dificuldades brasileiras para ingressar ou ampliar sua participação no mercado internacional?

Márcio Nery – As principais dificuldades são relacionadas a trabalhos que devemos executar, são protocolos sanitários que devemos concluir, chegar a um meio termo entre o que o Brasil pode fazer e o que os países que estão interessados necessitam. O México é muito difícil. Existe um grande potencial da genética brasileira para lá. Apesar de apresentar um grande potencial, o país pode encontrar problemas com os Estados Unidos, que mantêm suas barreiras sanitárias abertas aos mexicanos. Então é uma ques tão muito mais política do que sanitária. Mas vamos chegar lá também.

Revista AG – Como você pretende trabalhar com as autoridades brasileiras para que esses caminhos sejam abertos ou ampliados?

Márcio Nery – As autoridades brasileiras – em especial, as ligadas ao Ministério da Agricultura (Mapa) – têm um relacionamento com a Asbia que é fantástico, construído ao longo dos últimos anos e que demos continuidade nesses primeiros meses da minha administração. Estamos em contato frequente e temos ido a Brasília (DF) com regularidade. O Carlos Vivacqua, nosso gerente-executivo, está em constante contato com o Doutor Bruno Cota, do Mapa. Então estamos trabalhando 100% conectados quanto à certificação zootécnica para comercialização de sêmen, para elaboração de protocolos sanitários, e trabalhando uma via para a Asbia dar o primeiro passo na liberação de processos de importação de material genético, o que facilitaria muito a vida de todas as centrais do Brasil.

Revista AG – De que forma você considera que a IA pode contribuir para a implementação de uma pecuária mais sustentável?

Márcio Nery – Essa pergunta é muito importante. Estamos vivendo claramente uma era em que as palavras “sustentabilidade”, “proteção ao meio ambiente” e “respeito ao consumidor” são fundamentais. E a genética faz isso. Ao aumentar a produtividade dos animais, o produtor vai requerer três, quatro, cinco, até dez vezes menos terra para produzir a mesma quantidade de carne ou de leite quando se toma por base as médias brasileiras. Imagine o que significa isso – produzir mais com menos. Isso é fantástico. Animais com mais eficiência alimentar, com mais resistência a doenças, o que reduz ou zera o uso de antibióticos, em alguns casos, ou seja, essa sustentabilidade é importante para o produtor e exerce um impacto direto no seu bolso e na sustentabilidade econômica da fazenda. Essa visão de que precisamos contribuir para uma pecuária mais sustentável, uma pecuária de mais bem-estar animal e respeito ao consumidor, está na pauta do dia dos pecuaristas brasileiros, com toda a certeza, e a genética tem um papel fundamental a desempenhar nesse processo.