O Confinador

SEJA UM SEQUESTRADOR PROFISSIONAL

O

Maurício Velloso

Calma, não se assuste! A ação proposta é lícita, e não de polícia. A sugestão é de técnica pecuária. Chama-se “sequestro” o trato do rebanho (ou parte dele) em substituição à pastagem, obedecendo a um programa intensivo e estratégico de arraçoamento.

Em praticamente todo o território nacional, a pecuária sofre os efeitos da sazonalidade, menor oferta de forragem durante um determinado período. Esse fenômeno, natural e tão antigo quanto o mundo, é o que dá origem ao “boi sanfona”, aquele bovino que engorda nas águas e emagrece na seca. Isso deveria ser capítulo histórico dos idos da pecuária, mas, infelizmente, ainda é matéria atual. Portanto, deve ser encarado e resolvido, e essa modalidade de confinamento vem bem a calhar, superando vários desafios ao mesmo tempo.

Partindo do pressuposto que dieta de gado é folha de capim, presume-se que, para ofertá-la quando não é produzida, é preciso fazer um planejamento para sua produção, sua colheita e seu armazenamento. Várias são as forrageiras que se prestam a essa estratégia. Desde o simples diferimento até a ensilagem ou fenação. Uma ou todas elas juntas forma o melhor dos “seguros pecuários”, que é garantir comida ao rebanho durante todo o ano. Apenas recordando, esse foi um dos conselhos do Dr. Fernando Penteado Cardoso à abertura da Expopec 2018 aos pecuaristas à guisa de uma pecuária lucrativa: “Garanta comida e água de qualidade ao rebanho durante os 365 dias do ano”.

Pode até parecer óbvio, mas não é. Muitos – mas muitos mesmo – ainda se omitem desse cuidado básico, alimentando um ciclo de perdas sucessivas e permanentes. O segundo conselho do Dr. Cardoso, à época, foi para os pecuaristas aprenderem a adubar as pastagens. Conselho que nos traz de volta ao planejamento da comida necessária ao rebanho durante o período de sazonalidade.

O melhor momento para refletir e decidir sobre essas medidas é justamente o início das águas. Deve-se, então, aproveitar a vacinação de novembro e, o quanto antes, enquanto a totalidade do rebanho passa pelo curral, pesá-lo e fazer uma projeção do destino de cada classe animal no ano vindouro. Junto ao profissional da sua confiança, zootecnista, agrônomo ou veterinário, fazer o cálculo de ganho de peso, ajustar a oferta ao consumo (ou vice-versa) e proceder, então, à intensificação necessária e suficiente para cumprir a estratégia planejada. Ou simplesmente planejar um ajuste de lotação, programando as vendas para ajustar o rebanho ao período seco vindouro.

O crucial, indispensável e insubstituível é que haja as duas coisas: planejamento e estratégia. Quais animais deverão ter o ganho de peso intensificado nas águas? Afinal, é justamente aí que reside o menor custo de produção da @: na suplementação das águas. Qual será o melhor ganho de peso econômico e pretendido (e estratégico)? Que animais podem ser terminados a pasto? Quantos precisarão ingressar em semiconfinamento? Quantos ainda deverão ser “confinados a pasto”? E, depois que acabar a oferta de folhas (ainda que secas), quantos deverão entrar no confinamento convencional? Todas essa perguntas precisam ser feitas e respondidas rapidamente para que cada classe animal, de acordo com o peso e a consequente apartação, já ingresse no seu projeto específico. As mesmas perguntas devem ser feitas para as desmamas, para as novilhas com vista ao abate ou à reprodução, e também às vacas.

Até agora, só falamos do rebanho e da sua estratégia de condução nas águas e na seca. Vamos, então, abordar outra parte importantíssima – e esquecida: a passagem da pastagem da seca para a das águas. Quando começa a chover, a palhada é jogada ao chão, acaba, e o verde parece nunca mais chegar. Esse é o momento mais delicado da pecuária, a passagem da seca para as águas. E esse é, também, o maior e melhor benefício do sequestro. Nessa hora, quando a chuva “molha a terra”, é a “hora H” de tirar todo o rebanho das pastagens. Todo mesmo! Tudo e todos: gado, tropa, égua carroceira, carneiros etc. Enfim, pasto livre para rebrotar! Essa hora é mágica para o capim. Nesse rebrote, as primeiras folhas atendem à reconstituição do sistema radicular, e este, recuperado, emite maior quantidade de perfilhos, conferindo à pastagem densidade e vigor, e impedindo ou dificultando a infestação de invasoras. É quando, além de manejarmos positivamente o rebanho, manejamos também o pasto, deixando-o pronto e apto à exploração racional.

Afinal, não podemos perder de vista que o melhor período para lucrar na atividade pecuária é justamente nas águas, através da dieta de pastos de qualidade e bem colhidos, aliada à suplementação de precisão e aos protocolos sanitários necessários. Do que se conclui não haver uma única ferramenta salvadora, mas sim um conjunto de ferramentas, de tecnologias, que devem ser usadas em conjunto e sempre de forma estratégica.

A prática do sequestro exige planejamento, visão de futuro, projeção e cálculos. É a negação definitiva à adivinhação e ao achismo, uma mudança inescapável de rumo em direção à pecuária de precisão. E o sentido dessa prática, com todas as suas modalidades, é justamente eliminar o risco, conferindo máxima previsibilidade e renda ao sistema de produção dentro da porteira.

Pratique o sequestro

Sequestrar todo o gado ou parte dele exige, antes de tudo, que se conheça a quantidade de forragem necessária para tanto. Mas como planejar? Cada propriedade, inserida em características particulares de clima, solo, rebanho, objetivo e gestão, precisa de um diagnóstico exato da sua capacidade de oferta e demanda de forragem.

Mais do que essa capacidade estática, é preciso o cálculo dinâmico dessa capacidade, ou seja, projetar o desenvolvimento do rebanho no correr das águas, os descartes e o desenvolvimento pretendido das reses remanescentes no correr da estação seca, principal e finalmente, atendendo à projeção realizada, ter o cálculo do peso e do consumo dessa população remanescente (2% do peso vivo em matéria seca), que deve ter ganhado (e continuar ganhando) peso durante o ano. Esse é o cálculo dinâmico.

Definida a quantidade demandada, X toneladas de matéria seca (ou verde), o passo seguinte é escolher a matéria-prima: silagem (capim, sorgo, milho, milheto, cana...), feno, palhada (soja, milho, sorgo, feijão, cana...), raspas de mandioca e outros tantos subprodutos. Caso a opção se dê pelo silo de capim, é preciso escolher a área e definir se ela está apta, se carece de cuidados (algum nível de recuperação) ou, ainda, de reforma. Áreas com tocos, valas e cupins devem ser sistematizadas sob pena do momento da ensilagem tornar-se uma via crucis.

A Braquiaria brizanta, a mais comum no território nacional, produz silagem excelente. Apresenta teor de proteína bruta de até 14% e produção de matéria seca entre cinco e 28 ton/ ha/ano. Essa imensa variação de produtividade, em qualquer variedade escolhida, deve-se às diferenças de fertilidade do solo, fotoperíodo, chuvas (ou irrigação), temperatura, luminosidade e adubação.

Panicuns como o Mombaça, Quênia ou Zuri produzem silagem de excelente qualidade e quantidade, com teores de proteína bruta variando entre 12% e 16%, e produção de matéria seca entre seis e 44 ton/ha/ano. Essas forragens devem ser cortadas verdes, porém nunca com menos de 30% de matéria seca. O ideal é que o capim esteja entre 30% e 35% de MS.

O corte deve ser rápido, não rente ao chão, com partículas não inferiores a 1,5 cm. As facas de corte devem receber atenção, ao menos, duas vezes ao dia. A compactação é um capítulo separado, de maior cuidado e capricho, sem esquecer da aplicação de inoculante, fundamental para o sucesso da silagem.

Todas as Cynodon prestam-se também ao processo de ensilagem e com muita qualidade. A escolha recairá sobre a conveniência e a aptidão de cada propriedade. O importante é não haver erro no cálculo da comida armazenada (se bem compactada, por volta de 500 kg por metro cúbico) e das bocas a comê-la. Como o risco de haver perdas é grande, superestime o cálculo de consumo entre 20% e 30%. Acredite, é melhor sobrar do que faltar.

Finalizando, a escolha da área e da forrageira pode ser em pastagem existente (recuperação) ou em reforma (capim solteiro ou em consórcio com milho/sorgo/milheto). O que importa mesmo é fazer.

O sequestro deve se iniciar às primeiras chuvas “molhadeiras”. O início da brotação do capim anuncia o momento de retirar as reses dos pastos para que eles possam regenerar o sistema radicular, revigorar e perfilhar o pasto. Além de garantir desempenho preciso à reprodução, recria ou engorda, garante densidade e vigor à forrageira e uma redução no uso de herbicidas de até 85%.

Considere a prática do sequestro como um investimento em que você, ao fim do pagamento, recebe juros e dividendos assombrosos. Seja você também um sequestrador feliz!

O

Maurício Velloso é presidente da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (ASSOCON) e da Comissão de Pecuária de Corte da Federação de Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg)


Prática torna-se indispensável na Pró-Raça Agropecuária

O

Na Pró-Raça Agropecuária, propriedade localizada em Porangatu (GO), o sequestro de bovinos passou a ser uma prática indispensável no seu sistema de produção desde 2010. Segundo Frederico Stecca, zootecnista e proprietário da Pró-Raça, essa é a forma mais segura e rentável que encontrou para ajustar a lotação das pastagens e garantir as metas de produção. “Fazendo o sequestro dos animais no início das águas, consigo diminuir em 80% o uso de herbicidas e garanto, no mínimo, 1 @ a mais por animal/ano”, revela.

O processo tem furação de, aproximadamente, 40 dias após o início das águas. A partir daí, a totalidade do rebanho, ou parte dele (em função da oferta de forragem das pastagens), é mantida em remangas, piquetes, parcela de pastos ou mesmo em áreas de confinamento convencional. Durante esse período, alimentam-se de silagem de capim – à vontade – com suplemento mineral proteico (0,1% PV). Geralmente, o criador usa o mesmo suplemento que o gado estaria consumindo no período da seca.

Com isso, diz Stecca, em um período em que os animais estariam perdendo peso por conta da rebrota das pastagens, passam a ganhar. “E com o benefício insubstituível de promover a recuperação ideal das pastagens”, completa.