Genética

PROMEBO: quase meio século de fomento à qualidade da carne

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Criado em 1974, o principal programa de avaliação genética de raças taurinas do Brasil renova-se constantemente para melhorar a qualidade do gado europeu e, agora, cruzado, no Brasil

O Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (PROMEBO) da Associação Nacional de Criadores (ANC) “Herd Book Collares”, é o primeiro programa de melhoramento genético para a pecuária de corte do Brasil. Mas este “senhor”, que nasceu em 1974 e completou 45 anos em agosto deste ano, não aparenta a idade que tem. Parece muito mais novo, dada avalanche provocada pela tecnologia no setor pecuário. PROMEBO: quase meio século de fomento à qualidade da carne Com, possivelmente, o maior banco de dados do país na área, renova-se a cada ano para atender às necessidades dos criadores e da indústria da carne, chegando, no final das contas, ao consumidor final. É esse consumidor que, atualmente, paga mais por uma carne macia, suculenta e marmorizada. E está motivando o interesse dos pecuaristas do centro do país e do exterior a investir nos cruzamentos industriais. Dados da Associação Brasileira de In seminação Artificial (Asbia) estão aí para confirmar que o DNA europeu respondeu pela maior parte das 3,76 milhões de doses vendidas para gado de corte no primeiro semestre deste ano ante 2018.

Não à toa o PROMEBO é o programa de melhoramento genético oficial da raça Angus, a campeã de vendas de sêmen de corte no Brasil. No caminho da expansão, também estão Hereford, Braford, Charolês e Devon. E é no caminho do cruzamento industrial com a raça Nelore que se concentram os esforços da ANC para modernizar o programa e adequá-lo à realidade. “O PROMEBO, apesar de ser muito antigo, está passando por um processo grande de renovação”, destaca o presidente da ANC, Ignacio Silva Tellechea. De acordo com ele, a meta é colocar a ANC como uma referência não só no Brasil, mas no exterior. “A gente se disponibilizou a criar uma nova ferramenta que permite ao criador acessar o serviço com independência e facilidade. Com isso, esperamos reduzir o custo de registro para estimular que mais pessoas registrem seus animais”, revela Tellechea.

Um dos projetos que deve ser apresentado em 2020 é um software que vai disponibilizar, em tempo real, as análises e as Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) para qualquer usuário. O projeto foi baseado no software da Associação Americana de Angus e já recebeu investimentos superiores a R$ 1 milhão nos últimos três anos. “A ferramenta está 80% pronta para que a gente possa estar alinhada com as melhores práticas de melhoramento do mundo”, adianta o presidente da ANC. O processo de finalização conta com a inteligência e a competência da Embrapa Pecuária Sul, que dá os últimos toques na parte de melhoramento genético. O software, que tem previsão de lançamento para 2020, deverá abranger toda a relação do criador com o PROMEBO, desde o serviço de registro até o banco de dados. “Poderemos disponibilizar uma DEP atualizada em tempo real de todos os animais que estão no banco de dados”, comemora Ignacio.

O PROMEBO também concentra esforços num projeto piloto – com dados já disponibilizados – para abastecer os criadores de informações sobre o desempenho dos animais meio sangue, que difere do gado puro. Grande demanda das instituições do setor, o projeto de avaliação de animais meio sangue, segundo a superintendente de Registro da ANC, Silvia Freitas de Freitas, visa conhecer o desempenho genético dos ventres e touros utilizados, considerando a habilidade de combinação dos pais europeus, específica para o acasalamento com vacas zebuínas no ambiente tropical. “Frente à tamanha importância deste projeto, o PROMEBO irá isentar as taxas de avaliação e manutenção de modo a acelerar a formação da população referência, para que, muito em breve, os usuários desta ferramenta tenham dados para selecionar suas matrizes e reprodutores a partir de resultados mais precisos, aumentem a lucratividade e o incremento de características desejadas para o seu rebanho”, completa ela.

Índice Bioeconômico de Carcaça

Uma das últimas inovações do PROMEBO foi o cálculo do Índice Bioeconômico de Carcaça. Desenvolvido em parceria com a Embrapa e a Associação Brasileira de Angus, a avaliação relaciona as características de crescimento e de ultrassonografia de carcaça dos animais com a chance de bonificação nas tabelas de premiação do Programa de Carne Certificada. Lançado no Sumário 2018/2019, publicado durante a 41a Expointer, o índice traz uma diferença esperada em reais para cada animal. “Isso facilitou muito o entendimento das pessoas. Hoje a DEP é expressa em reais para esse índice. Um touro +150, significa que a tendência é que a carcaça dos filhos dele vai render mais 150 reais em relação a um touro com índice zero”, explica Ignacio Tellechea, lembrando o árduo trabalho para organizar os dados de vários segmentos da cadeia produtiva, entrando, inclusive, no fluxo das propriedades, para poder apurar essa diferença.

Além do Índice Bioeconômico de Carcaça, as ponderações do sumário do PROMEBO contemplam as seguintes características: 1. Peso ao nascer (PN); 2. Conformação à desmama; 3. Precocidade à desmama, 4. Musculatura à desmama, 5. Tamanho à desmama; 6. Conformação ao sobreano; 7. Precocidade ao sobreano; 8. Musculatura ao sobreano; 9. Tamanho ao sobreano; 10. Área de Olho de Lombo (AOL); 11. Espessura de Gordura Subcutânea (EGS); 12. Espessura de gordura medida na picanha (EP8); 13. Gordura Intramuscular (GIM); 14. Resistência ao Carrapato; 15. Ganho de peso do Nascimento à Desmama (GND) Direto; 16. Ganho de peso do Nascimento à Desmama (GND) Materno; 17. Ganho de peso da Desmama ao Sobreano (GDS); 18. Ganho de peso do Nascimento ao Sobreano (GNS); 19. Índice Desmama (INDD); 20. Índice Final (INDF); 21. Índice Bioeconômico de Carcaça (IBC). 22. Índice Adaptação (INDA)

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Ignacio Tellechea, ressalta que novos projetos irão democratizar acesso a informações

Avaliações

Atualmente, o PROMEBO realiza a avaliação genética das raças bovinas Aberdeen Angus, Braford, Brangus, Charolês, Devon, Hereford, Murray Grey e Ultrablack, além de bubalinos Murrah e Mediterrâneo. O trabalho é realizado a partir de um meticuloso programa de controle de produção nas fazendas, incluindo identificação individual e única de todos os animais, controles de coberturas e avaliações de desempenho em épocas estratégicas.

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Silvia Freitas destaca projeto sobre o desempenho de animais meio sangue

As pesagens e avaliações visuais são realizadas pelos avaliadores credenciados do programa e acontecem em dois momentos: à desmama e ao sobreano dos animais. Nestas ocasiões, os avaliadores atribuem no tas para conformação, precocidade, musculatura, tamanho, racial, pelame, além do perímetro escrotal, que é avaliado somente ao sobreano, assim como a ultrassonografia de carcaça.

A geração e interpretação de imagens de ultrassonografia para características de carcaça (área de olho de lombo, gordura subcutânea e intramuscular) está sob responsabilidade de profissionais certificados por autoridade competente com reconhecimento internacional e pela ATUBRA – Associação de Técnicos em Ultrassom do Brasil, para que tenham qualidade inquestionável e possam ser usadas nas avaliações genéticas. Outra avaliação disponibilizada aos usuários e que está em constante aprimoramento, é a contagem de carrapatos a fim de conhecer as linhagens mais resistentes ao ectoparasita.

Ao receber as avaliações, a equipe do PROMEBO confere e cadastra as informações nos sistemas, que possuem ferramentas para impedir ou minimizar cadastramentos inconsistentes. Os dados, então, são processados pela Embrapa Pecuária Sul e disponibilizados aos criadores em forma de relatórios, um à desmama e outro ao sobreano dos indivíduos avaliados.

No mês de junho de cada ano, cada criador participante recebe o relatório de recursos genéticos, que apresentará os animais 20% ou 30% superiores geneticamente, de acordo com cada raça, da geração em questão. Todo ano, no mês de agosto, ocorre durante a Expointer, o lançamento dos Sumários de touros do PROMEBO. Nesta publicação os usuários conhecem os touros pais ordenados por índice final, touros jovens, touros líderes para as diferentes características avaliadas no programa, bem como as vacas superiores. Anualmente são produzidos aproximadamente 5 mil touros entre as raças avaliadas e touros jovens superiores para acasalamento.

Genômica

O programa também está investindo na genômica para o aprimoramento das DEPs.O processo de formação de uma população de referência para o Aberdeen Angus nacional começou em 2012 com um conjunto de projetos liderados pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Todos são focados na genotipagem dos principais animais que participaram do teste de eficiência alimentar da CRV-Lagoa em Sertãozinho (SP) e, em conjunto com a Embrapa, também usam animais com fenótipos para contagem de carrapato e quantificação da parasitemia para Babesia bovis (um dos agentes da Tristeza Parasitária Bovina), obtidos em rebanhos localizados no Rio Grande do Sul.

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Técnicos credenciados do PROMEBO coletam informações na desmama e ao sobreano dos animais

Até o momento, foram genotipados 1.465 animais, incluindo 253 touros-pais. Dois chips foram usados com 50.000 e 150.000 marcadores SNP. Também existem 190 fenótipos de eficiência alimentar, 1.203 animais com contagem de carrapatos e 637 com quantificações de B. bovis. Contudo, esses números ainda não são suficientes para se atingir predições genômicas precisas para a maioria das características. É necessária uma população de referência muito maior. Por isso, a Associação Brasileira de Angus, a ANC “Herd-Book Collares” e a Embrapa Pecuária Sul fazem um grande esforço atingir números mínimos (acima de 2.000 animais) que permitam iniciar o processo de incorporação da informação genômica no PROMEBO.

A ANC ressalta que o engajamento dos selecionadores de Angus nessa iniciativa é essencial e existem diferentes formas de participar, seja enviando amostras biológicas (sêmen, pelo ou sangue) de touros pais e fêmeas doadoras usados amplamente no seu rebanho; fornecen do genótipos SNP de seus animais (p.ex. avaliados por meio de testes genômicos comerciais); participando dos programas de contagem de carrapato e de coleta de dados de carcaça por ultrassonografia. As demais raças avaliadas pelo programa devem seguir o mesmo caminho.

De olho nas fêmeas

Percebendo as lacunas existentes no mercado quanto a informações reprodutivas para seleção, o PROMEBO também aposta suas fichas em outro projeto desenvolvido com a Embrapa Pecuária Sul . Desta vez, em um sistema de informação para o controle completo da performance reprodutiva do rebanho com a inclusão de avaliações reprodutivas de fêmeas. A ideia é incluir, por exemplo, as falhas na concepção e no parto, o número de tentativas feitas para a concepção por inseminação artificial, partos de animais não qualificados para registro, etc., para que todos os dados reprodutivos possam ser expressamente registrados e não inferidos através de deduções a partir dos dados dos filhos.

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Dados sobre os exemplares geneticamente superiores são enviados anualmente aos participantes

De posse dos dados, os criadores conseguirão gerar modelos mais eficientes com relação à baixa herdabilidade de características relacionadas à reprodução de fêmeas. E também conseguirão traduzir os dados binários, como prenhez identificada ou não, habilidade de permanência e intervalos entre partos. “Por isso, precisamos evoluir na questão de coleta de dados, aumentando o volume e medindo os dados longitudinalmente, ou seja, no mesmo animal, considerando, por exemplo, todos os partos de cada fêmea, e ao longo do tempo, como medida de repetibilidade”, diz Silvia.