Na Varanda

Como ter sucesso na sucessão?

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Há cerca de 20 anos, comecei a focar na questão da sucessão no campo. Calculei que, ao longo das décadas seguintes, poderia haver em torno de 20 mil propriedades rurais de porte médiogrande que passariam, a cada ano, de pais para filhos devido ao falecimento do patriarca. Naquela altura, o número de consultores especializados para atender os produtores na sucessão familiar estava bem abaixo dessa demanda crescente. Adaptei minha experiência com a transição geracional do setor industrial para a realidade peculiar do agro.

Em artigos, manuais, cursos e palestras, desenvolvi abordagens práticas para essa complexa e problemática questão. Com o avanço da tecnificação e da profissionalização do setor, tanto o perfil do produtor como o número e a qualidade de consultores especializados evoluíram. Agora, a oferta dos diversos serviços nessa área atende melhor à ampliação do segmento dos chamados “adultos+”. Trata-se de pessoas na faixa etária entre 65 e 90 anos.

Por outro lado, o perfil das soluções tornou-se mais sofisticado. Inicialmente, falava-se mais de herança e testamento. Mas logo percebeu-se que o assunto era muito mais complexo. A longevidade da população aumentou ano após ano. Isso exigiu o aprofundamento do tema para garantir o sustento do produtor e da sua família. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico no campo, desde soluções técnicas mais sofisticadas a novas práticas administrativas, fez com que a aplicação de uma parte crescente do lucro precisasse ser canalizada para investimentos na modernização contínua. E, hoje, enfrentamos três novas realidades no negócio bovino. A coincidência simultânea da redução de margens com a maior demanda por sustento da família cresceu, e a necessidade de investimentos para manter o negócio produtivo e competitivo obriga a redefinir o modelo de negócio da pecuária brasileira.

pliado na direção do conceito mais abrangente da “sucessão”. Ao mesmo tempo, a tradicional estrutura hierárquica ou patriarcal cedeu lugar a um conceito mais societário, no qual o filho sucessor e os outros herdeiros passam a ser incluídos na tomada de decisões estratégicas. Na gestão diária, a experiência e sabedoria do pai não é mais suficiente para produzir dentro dos padrões exigidos pelo mercado. A incorporação de novas tecnologias através de aplicativos abriu espaço para uma coexistência na gestão entre a geração do fundador e os filhos com conhecimentos técnicos avançados.

Com esse cenário mais complexo, temos de ampliar nossa visão da transformação geracional mais uma vez. O novo panorama se chama “cogestão”. Essa percepção dos desafios ultrapassa a simples questão da “passagem do bastão”. São vários fatores impostos pela nova realidade da pecuária competitiva que precisam ser sincronizados. A longevidade com sua demanda por sustentação durante muitos anos após a vida diretamente produtiva da atual geração dos donos, bem como a necessidade de incorporar constantemente novas tecnologias de produtos e processos apoiados por aplicativos, drones e máquinas autônomas, e, não menos importante, a maior mobilidade dos funcionários da fazenda, além de um consumidor cada vez mais interessado em saber onde, como e por quem seu alimento é produzido, ampliam o horizonte de todos os atores ativos do processo. Isso resulta num novo formato coletivo da produção no campo. Além do patriarca e de seus filhos sucessores ou herdeiros, os membros da equipe e os técnicos dos fornecedores de insumos colaboram nesse novo ambiente de participação multidimensional e interativa. Soa um pouco complicado, mas não temos como fugir dessa imposição administrativa do nosso negócio da carne bovina.

Os múltiplos aspectos do processo produtivo exigem a integração de todas as experiências e conhecimentos tanto da família como dos funcionários e dos especialistas fora da porteira. Pois as margens que passaram de 40%, nos anos 1970, para 12% a 14% atualmente tendem a diminuir ainda mais no futuro. Esses são números globais. Porém cada fazenda tem o seu próprio perfil de lucro. Para assegurar a demanda crescente por sustento da família que, hoje, gasta mais com seus membros do que na geração anterior, o negócio precisa crescer. Já falamos diversas vezes que o lema da pecuária moderna é produzir mais, melhor e em menos tempo, no entanto, por cima da mesma terra. Isso torna indispensável a aplicação de novas soluções técnicas, administrativas e de comercialização, bem como o envolvimento de todos que estão, direta e indiretamente, envolvidos em nosso negócio.

Só haverá sucessão num negócio saudável se este for construído em conjunto entre os atuais e os futuros interessados na perpetuação do legado familiar. Em outras palavras, sem sucesso não existirá sucessão, apenas partilha do patrimônio, que, ao longo do tempo, destrói a base econômica que gerações anteriores construíram com muito suor, coragem e sacrifício.

Essa é a essência do novo cenário. Enquanto o pai passa sua experiência e sabedoria para o sucessor, o jovem ensina as novas formas de gestão e comunicação ao pai. Não se trata mais de uma simples passagem de bastão. O novo modelo da sucessão economicamente sustentável assenta-se no modelo da parceria complementar entre o tradicional e o moderno. Os filhos passam do papel de sucessor ou herdeiro para a função do sócio com papéis, direitos – e deveres – novos. A empresa rural precisa adotar novas soluções e práticas de gestão para continuar produtiva, rentável e competitiva. A nova fórmula de negócio da carne é um composto integrado dos conceitos “sucesso”, “sucessão” e “sustentabilidade”. Esses três pilares serão as fundações do novo modelo de negócio da agropecuária 4.0.