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Controle da verminose Foco no hoje para garantir o amanhã (Parte II)

Passadas as indicações de complexidade intermediária, podemos continuar nossa conversa sobre a resistência parasitária e as práticas para mitigação de seus efeitos. Os criadores de ovinos são mais facilmente sensibilizados com o tema, pois veem a morte dos cordeiros. Os criadores de bovinos, por não “verem” os 15 kg ou 30 kg que os animais do desmame ao sobreano deixaram de ganhar, preocupam-se, principalmente, com carrapatos e moscas. Chegou o tempo de os pecuaristas adotarem práticas que retardem o surgimento de resistência na bovinocultura.

Monitore os rebanhos em busca de resistência. O teste de redução de contagem de ovos nas fezes (TRCOF ou FECRT, na sigla em inglês) compara o número de ovos de parasitas eliminados antes e depois do tratamento anti-helmíntico. Se a redução na contagem de ovos pós-tratamento for menor que 90%, ou se a eficácia estiver diminuindo ao longo do tempo, a resistência está emergindo.

Estratégias de controle não medicamentoso, como o manejo de pastagens, podem reduzir as populações de vermes, principalmente quando o uso do piquete é alternado com diferentes espécies animais, exemplo: bovinos e ovinos. A resistência parasitária provavelmente superará a introdução de novos produtos. A melhor estratégia é preservar a eficácia dos produtos existentes. O pecuarista que perde a eficácia de um produto e continua a utilizá-lo na propriedade tem prejuízo em dobro: com os custos do tratamento e com a perda no desempenho dos animais.

Tratar os bovinos com dois vermífugos de diferentes classes ao mesmo tempo maximiza a eficácia do tratamento e retarda o desenvolvimento de resistência, apesar de ser mais caro. É importante não misturar produtos antes da dosagem, mas administrá-los sequencialmente, seguindo as instruções de bula. Entretanto, a combinação de drogas deve ser implementada em conjunto com outras ferramentas para diminuição do uso de fármacos, como o tratamento seletivo do rebanho, pois seu uso indiscriminado pode aumentar o risco de desenvolvimento de resistência (paradoxos que não podemos fugir).

Gerencie a refúgia ou deixe alguns animais do rebanho sem tratamento (tratamento seletivo). Em suma, isso mantém uma população de parasitas suscetíveis às drogas. Na maioria dos rebanhos, os 10% a 20% dos bovinos que estão em melhores condições, na verdade, não se beneficiam dos tratamentos com vermífugos, pois albergam poucos parasitas. Resultados de pesquisa em pequenos ruminantes mostram que os fazendeiros podem implementar refúgios com pouca ou nenhuma perda de produtividade, enquanto diminuem drasticamente o desenvolvimento de resistência. Entre algumas opções: maior ganho de peso ou escore corporal; menor contagem de OPG; maior idade; estado fisiológico (vaca seca) e exames de sangue. A melhor forma de selecionar animais não tratados ainda não foi definida em bovinos de corte, mas essa prática retarda o aparecimento da resistência em uma população de parasitas.

Precisamos melhorar o controle parasitário em vários aspectos, como: (1) ferramentas de diagnóstico; (2) abordagens inovadoras baseadas em tratamentos não químicos, vacinas e seleção de animais resistentes e/ou resilientes; (3) uso sustentável de medicamentos existentes, incluindo o desenvolvimento de novos anti-helmínticos; e (4) integração de práticas de controle antiparasitário.

As fazendas do futuro (4.0 ou 5.0) trabalharão com pecuária de precisão e individualização do rebanho, e precisarão adotar métodos de controle eficientes e sustentáveis, integrando avanços científicos contínuos. Já existem sistemas de acompanhamento individual dos bovinos em tempo real para avaliação de temperatura, claudicação, movimentação, ruminação, entre outros. Novos sistemas tecnológicos para o processamento de amostras na detecção remota de parasitas foram desenvolvidos no exterior, tais como o FECPAKG2, que promete o processamento de amostras na propriedade, a identificação e a quantificação de ovos de nematódeos feitos on-line por pessoal treinado, que visualiza micrografias adquiridas digitalmente.

A pecuária é um negócio, portanto, fatores externos, como o preço da arroba e as demandas de mercado, assim como os custos de produção, influenciam a tomada de decisão. Essas escolhas racionais desempenham um papel importante, mas não são os únicos fatores decisivos. Muitas das adoções dependem da conscientização do pecuarista frente ao desafio da resistência parasitária na produção de bovinos hoje, a fim de garantir a produção do amanhã.

Alessandro Pelegrine Minho, médico-veterinário e pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste