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MELHORAMENTO GENÔMICO DE PLANTAS

Pesquisa genética avança no combate à cigarrinha-das-pastagens, praga que ameaça a produtividade do rebanho de gado brasileiro

Peter Moon

Cerca de 95% do rebanho bovino brasileiro (218 milhões de cabeças, em 2018) é criado solto no pasto. São 170 milhões de hectares cobertos por gramíneas forrageiras, em sua imensa maioria (de 80% a 90% dos pastos, segundo a Embrapa) capim braquiária (Urochloa decumbens). O capim braquiária é uma pastagem tropical de origem africana, que foi introduzida no Brasil a partir dos anos 1970 e que aqui se aclimatou com enorme sucesso.

“Tamanha é a dependência da bovino cultura brasileira do capim braquiária que qualquer praga que ataque essa forrageira trará enormes consequências econômicas”, explica a geneticista Anete Pereira de Souza, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“A cigarrinha-das-pastagens (Notozulia entreriana) é a pior praga dos pastos no Brasil”, diz Souza. O inseto deposita seus ovos sobre as folhas do capim. As cigarrinhas vivem, na fase adulta, na parte aérea dos capins. Suas ninfas, uma fase jovem do inseto, ficam sempre protegidas na base das plantas por uma espuma branca. Durante o período seco, os ovos do inseto permanecem no solo e com o início das chuvas, eclodem. “Após eclodir, as larvas sugam a seiva da planta, que seca completamente e morre”, diz Souza.

Atacado pela praga, o capim começa a amarelar, seca e perde o vigor, abrindo espaço para o estabelecimento de plantas daninhas, o que torna a pastagem degradada. O problema reduz a capacidade produtiva da pastagem, compromete a alimentação bovina e gera queda no peso do animal, com prejuízos para os pecuaristas, mas pode ser controlado com métodos químicos ou biológicos.

Cientistas investigam genes de resistência à cigarrinha em variedades de capim

A identificação dos focos iniciais do inseto é fundamental para evitar a sua proliferação e garantir forragem de qualidade para o gado. O controle das pragas nas pastagens é apenas biológico. O controle biológico, por meio de aplicações utilizando o fungo Metarhizium anisopliae, pode ser realizado com uso de pulverizadores, tratores ou aviões, sem a necessidade de retirar os animais da pastagem.

Uma das principais vantagens desse método é que o fungo não prejudica o meio ambiente nem é nocivo à saúde humana. Além disso, o fungo pode permanecer na pastagem por um tempo maior, desde que não haja dias ensolarados e secos até o seu estabelecimento.

Outra alternativa de controle da cigarrinha-das-pastagens seria o controle químico, mas a adoção desse método exige a retirada do gado da área a ser tratada.

Uma terceira opção de combate à cigarrinha é via seleção de novas variedades resistentes às pragas. “Mas não se conhecem, até o momento, variedades de braquiária que sejam resistentes à cigarrinha-das-pastagens. É impensável o uso de agrotóxicos nos pastos, dado o risco de contaminação da carne”, explica Souza, que é especialista no melhoramento genômico de plantas.

Esse quadro pode estar com os dias contados. Uma equipe de pesquisadores da Unicamp liderada por Souza conseguiu identificar regiões no genoma do capim braquiária que contêm genes de resistência à cigarrinha-das-pastagens.

“É a primeira vez na história que se consegue encontrar genes de resistência à cigarrinha-das-pastagens em gramíneas forrageiras”, afirma Souza.

O trabalho começou há muitos anos, em colaboração com a Embrapa Gado de Corte, que fica em Campo Grande (MS). Como o capim braquiária é originário do continente africano, é lá que se encontram variedades selvagens que podem esconder genes que forneceriam resistência ao ataque das cigarrinhas. O banco de germoplasma da Embrapa possui amostras de variedades africanas de capim braquiária.

Em Campo Grande, entre 2011 e 2013, foi realizado o cruzamento entre duas variedades de capim braquiária. A partir desse cruzamento, foram cultivados mais de 300 híbridos, dos quais foram selecionadas dezenas de plântulas para a realização dos testes de resistência. No interior de grandes estufas, as plantas foram expostas à ação das cigarrinhas-das-pastagens para verificar a suscetibilidade de cada uma delas.

Após o estabelecimento das plântulas, cada indivíduo foi infestado com cinco ovos de cigarrinha-das-pastagens. A seguir, acompanhando a infestação, os pesquisadores avaliaram qual foi a porcentagem de sobrevivência ninfal (número de ninfas que atingiram a fase adulta, em porcentagem).

De acordo com Souza, foram identificadas muitas variedades totalmente suscetíveis à cigarrinha-das-pastagens, que morreram, bem como aquelas poucas variedades com pouca ou com maior resistência. Nestas, apesar de o inseto ter depositados seus ovos, as larvas não chegaram a se desenvolver, e as plantinhas não morreram.

Uma vez identificadas as plantas resistentes à cigarrinha, deu-se início à parte genômica do trabalho, para a identificação de quais seriam os genes responsáveis que estariam conferindo resistência à praga.

“Conseguimos identificar três regiões do genoma do capim braquiária onde há genes de resistência à cigarrinha-das-pastagens”, explica a geneticista Rebecca Caroline Ulbricht Ferreira, primeira autora do trabalho que saiu publicado em fevereiro na revista científica Frontiers in Plant Science (https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpls.2019.00092/full).

O trabalho abre a possibilidade da seleção, no médio prazo, de variedades de braquiária que sejam resistentes à cigarrinha-das-pastagens. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Encontrar no capim braquiária genes de resistência contra a cigarrinha pode vir a contribuir no desenvolvimento de variedades de outras espécies de capins forrageiros resistentes a outras espécies de cigarrinhas.

Os capins braquiária, humidícola, tangola e a grama-estrela-roxa são atacados por espécies denominadas Notozulia entreriana e Deois flavopicta. Esses insetos, de coloração preta ou marrom, são menores e apresentam listras brancas nas asas. Já os capins brizantão, xaraés (MG-5), tanzânia, mombaça, tangola, BRS zuri e BRS piatã e a grama-estrela-roxa são mais susceptíveis ao ataque da Mahanarva tristis, espécie de tamanho maior.

A diversificação das pastagens com o uso de diferentes tipos de capim e o consórcio com leguminosas como amendoim forrageiro e puerária são alternativas eficientes para reduzir os danos causados pela cigarrinha-das-pastagens.

Outro procedimento importante é evitar a formação de grandes touceiras de capim, por meio do pastejo sistemático da área. O rebaixamento das forrageiras facilita a passagem de luz para o solo com maior intensidade, aspecto que reduz a umidade e as condições de proliferação do inseto.