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Abate ao vivo

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Criadores já podem vender gado pelo smartphone e acompanhar o abate dos lotes em tempo real por meio de um aplicativo

Lucas Borghett

Assim que um lote de animais chega ao frigorífico, avaliam-se, principalmente, idade do animal, espessura de gordura subcutânea e rendimento de carcaça. Principalmente em relação a estes dois últimos quesitos, pouco o pecuarista consegue acompanhar do abate de seus animais, a não ser que tivesse tempo de sobra para ir até o frigorífico, o que é cada vez mais raro nos dias de hoje. Em muitos casos, a desossa dos animais é realizada a 500 km de distância da propriedade.

Por conta disso, os frigoríficos têm investido em tecnologias que permitam Lucas Borghetti monitorar o abate on-line, iniciativa bemvinda do ponto de vista dos pecuaristas, que sempre cobraram maior transparência da indústria quanto à remuneração dos produtos fornecidos. A novidade nesse sentido são os aplicativos mobile capazes de permitir ao criador vender o gado pelo smartphone e também ter acesso ao romaneio em tempo real.

“Tem muita discussão em relação ao acabamento de gordura das carcaças, que é algo muito subjetivo. Muita gente discorda das avaliações que acontecem no frigorífico. Então essa é uma maneira de aproximar o produtor do frigorífico e dar transparência ao processo de abate, já que o produtor está vendo a classificação das carcaças em tempo real, bem como o peso de carcaça atingido por seus animais. Dessa forma, não há mais muito o que discutir em relação a isso, como acontecia antigamente”, observa Fernanda Costabeber, proprietária da Fazenda Pulquéria, de São Sepé/RS.

A pecuarista é usuária de um aplicativo recém-lançado pelo Frigorífico Silva, que desde o mês de junho oferece aos seus clientes o Portal do Gado, disponível para smartphones com sistema operacional Android e IOS. O app transmite imagens ao vivo da linha de produção do frigorífico por meio de uma câmera instalada no setor de toalete. O sistema foi desenvolvido com base em um serviço semelhante da empresa na web e é um exemplo das inovações que vem sendo adotadas na pecuária brasileira.

Portal do Gado

O projeto começou com o desafio de aumentar o conhecimento do produtor sobre os processos do frigorífico. “Hoje, quando a gente pensa em facilidade, significa trazer tudo para a palma da mão do criador, em um dispositivo móvel, seja ele um smartphone ou um tablet”, relata Lauro Strazzabosco Dorneles, sócio-diretor da Hotmedia, desenvolvedora da tecnologia junto com a empresa responsável pelo sistema de gestão do Frigorífico Silva, a consultoria Progepec.

Com sede em Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul, o frigorífico abate aproximadamente 700 cabeças de gado por dia e foi a partir do processo de compra da matéria-prima que, ago ra, as informações são compartilhadas com o produtor, a fim de facilitar a negociação. Após a criação do romaneio, os dados dos lotes são transmitidos em tempo real.

Como funciona

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Fernanda Costabeber foi uma das primeiras pessoas a utilizar o aplicativo

Dentro do aplicativo, o primeiro passo é criar o romaneio, documento inicial para o transporte de mercadorias e que define valores a serem pagos de acordo com a categoria animal como tipo do gado, peso e quantidade. Dessa forma, começa o negócio entre o produtor e o frigorífico, que analisa a proposta e aprova o romaneio.

Assim que é liberado, conforme explica Lauro Dorneles, o usuário recebe uma notificação tanto por e-mail quanto pela notificação push, uma espécie de aviso enviado pelo aplicativo, que aparece no parte superior do telefone. O produtor, então, gera um contrato no qual alguns dados já vêm preenchidos e outros para preenchimento manual após a impressão do documento. Em seguida são criados os lotes que serão recebidos e entrarão para fila de abate.

Depois disso, é só assistir a passagem dos animais pela linha de produção ao vivo. São transmitidas em tempo real todas as informações daquele lote que está sendo abatido. “Tão logo a desossa iniciar, o produtor recebe outra notificação Fernanda dizendo que o processo está para começar. Isso libera uma funcionalidade no aplicativo na qual é possível selecionar a opção de assistir o abate ao vivo por meio de uma câmera de alta definição instalada dentro da área de toalete do frigorífico”, explica Dorneles. Além disso, uma tabela informa o número de aviso de matança, a data e o horário em que começou o abate e outros dados como a classificação de gordura, a dentição e o peso da carcaça, informações importantes para o produtor.

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Lauro Dorneles é socio-diretor da Hotmedia, a empresa que desenvolveu o aplicativo Portal do Gado

Quando o abate é finalizado, já que frigorífico tem uma linha de produção constante, verifica-se o proprietário do lote seguinte. Se for do mesmo produtor, a imagem ao vivo é mantida e alteram-se as informações. Se o lote for propriedade de outra pessoa, o produtor é notificado e a transmissão, suspensa. Por último, o criador tem condições de consultar os resultados de abate. “São cerca de 70 informações disponíveis que constituem um resumo informando o peso total do lote, peso da carcaça fria, qual foi o percentual de perda e o valor a receber, entre outras informações”, informa o sócio-diretor da Hotmedia.

Diogo Soccal, diretor da Progepec, relata que já que existe uma adesão considerável dos produtores e o foco, agora, é disseminar a ferramenta. Segundo ele, mais de uma centena de produtores já aderiram aos serviços da ferramenta e o Frigorífico Silva contabiliza mais de 10 mil produtores cadastrados no Rio Grande do Sul.

Pecuaristas aprovam

Henrique Waihrich, proprietário da Agroviwa, de Júlio de Castilhos, foi um dos primeiros pecuaristas a utilizar a ferramenta. Uma história que merece ser compartilhada, segundo ele, aconteceu quando estava carregando um lote de animais, durante a primeira vez em que iria se utilizar do novo serviço. O proprietário observou um descuido com uma novilha que acabou sendo prensada contra uma cerca.

“Eu observei isso da minha casa e pude acompanhar através do aplicativo, a retirada, pelo colaborador do Frigorífico Silva, toda a parte lesionada. Eu tinha previsto que ia acontecer, então, na hora fiz um screenshot (print da tela) com a imagem da carcaça e do peso e mostrei para o funcionário”, relata Waihrich, que estima ter perdido cerca de 3 quilos de carcaça devido a este acidente. Segundo a avaliação do frigorífico e do próprio pecuarista, a experiência acabou sendo positiva, já que permitiu corrigir a maneira de manejar os lotes.

Programas de qualidade

Atualmente, o foco principal do Frigorífico Silva está na qualidade de carne, sendo que trabalha com os programas de certificação ligados às associações das raças Angus e Hereford. O produtor que insere seus animais nesse sistema é bonificado conforme o acabamento de gordura e a qualidade de carne e carcaça. O diretor comercial, Gabriel Moraes, observa que cerca de 80% dos animais abatidos nestes programas são jovens, de até quatro dentes.

Recentemente, a empresa ainda lançou uma nova marca, a Best Beef Black Label, uma linha de produtos nobres, que, na avaliação do diretor comercial, oferece a maior bonificação do País ao produtor. Com 1.300 funcionários, o frigorífico estima comercializar carne para 70 países. No Brasil, o frigorífico negocia sobretudo com estados do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, abrangendo, também, em menor proporção, o nordeste e o distrito federal.