Manejo

CRIA
O RETORNO ÀS PRÁTICAS FUNDAMENTAIS

Manejo

Júlio Barcellos*, Marcela Kuczynski da Rocha** e Julia Abud Lima***

O manejo da vaca de cria, no calendário anual, destinado à obtenção de elevadas taxas de prenhez, parição e desmama, está alicerçado em dois conjuntos de técnicas: processos e insumos. Entende-se por processo aquelas tecnologias que dependem mais da gestão, do uso do conhecimento, da ação dos recursos humanos e que, de certa forma, denominamos de manejo.

Em realção às tecnologias de insumos, a própria denominação remete ao uso de um insumo, normalmente comprado e introduzido no sistema de cria. Aqui, as questões relacionadas ao custo-benefício são fundamentais para a decisão de usá-las ou não.

Em cenários favoráveis à cria, em geral com altos preços pagos pelo bezerro, as tecnologias de insumos são introduzidas em larga escala, pois geralmente são viáveis economicamente. Vale dizer que, nessa conjuntura, os sistemas de cria são intensificados pelo uso acentuado de insumos.

Em contrapartida, as tecnologias de processos – menos atraentes e de resultados mais lentos – ficam em segundo plano e passam até por um desconhecimento por parte de técnicos e produtores. Por essa razão, no cenário atual, no qual a cria ainda não recuperou seus preços e enfrenta dificuldades, surge a necessidade do uso de processos, geralmente de custos inferiores aos insumos e que reúnem conhecimentos sólidos no emprego.

A operacionalização de uma tecnologia considera o fluxograma da atividade, e, a partir dele, têm-se os estágios de inclusão conforme o nível de impacto esperado. Em um sistema de cria, é necessário considerar o conjunto de tecnologias de processos e de insumos.

O exemplo clássico de uma tecnologia de insumos é a agricultura, na qual o crescimento na produtividade é resultado de uma meia dúzia de insumos, em geral, resultantes dos avanços científicos – sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas e implementos agrícolas – os quais têm uma capacidade inquestionável de mudar, rápida e economicamente, os níveis de produtividade.

Das tecnologias desenvolvidas para a cria com impacto na taxa de desmama e na eficiência da vaca, poucas são recentes e inovadoras quando analisadas isoladamente. Desmame precoce, desmame interrompido, uso de estação de monta, uso da condição corporal da vaca, seleção, touros férteis, sincronização de cios e cruzamentos são tecnologias que têm mais de 30 anos.

Portanto, na pecuária de cria, as tecnologias estratégicas são aquelas relacionadas com a gestão do conhecimento e dos processos, como um ajuste na temporada de acasalamento, desmame na idade correta, na estratificação dos lotes de matrizes conforme suas necessidades alimentares pontuais, controle dos nascimentos, genótipo adaptado ao ambiente e carga animal compatível com o meio.

Todas essas tecnologias – e muitas outras em uso – somente são efetivas quando manejadas em conjunto. Isso é denominado de tecnologia de processos, portanto compreender sua operacionalização é fundamental.

Uma cria eficiente, obrigatoriamente, necessita de um conjunto de processos básicos nos quais está alicerçada a introdução de qualquer outra ferramenta mais avançada. Esses manejos básicos, os quais podem ser denominados de tecnologias de processos, exceto aquelas ligadas à sanidade e à suplementação mineral, são essenciais e, quando bem gerenciados, podem resultar em uma cria eficiente e econômica.

Claro que, nesse caso, sempre haverá uma variação nos resultados pelo “efeito ano”, quando outras tecnologias de estágios mais avançados não são empregadas. Portanto, a cria eficiente se inicia com raças ou biótipos de vacas adaptadas ao ambiente de produção, uma estação de acasalamento e parição que respeitem as exigências nutricionais da vaca, com a disponibilidade e a qualidade dos pastos naturais da região.

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Também necessita de um rebanho bem estruturado em termos da participação de cada categoria (não mais que 15% de primíparas), uma seleção e descarte rigoroso de vacas com problemas reprodutivos e de baixa produtividade, e um programa sanitário preventivo das principais doenças ligadas à reprodução e ao controle estratégico de endo e ectoparasitas.

Tudo isso alicerçado em uma carga animal que respeite o potencial de crescimento dos pastos e as exigências alimentares da vaca conforme o estágio de produção (pré-parto, lactação, desmame), adicionado de um programa de suplementação mineral específico. Acrescente-se a isso touros aprovados em programas de seleção e de habilidade reprodutiva certificada.

Esses procedimentos para produção também devem ser combinados com recursos humanos treinados, pois a base dessa estratégia é o conhecimento, e não o insumo. Assim, pessoas comprometidas, que identifiquem problemas na origem, conheçam o tratamento de anomalias, registrem dados e fatos, e atuem com metas, conhecendo a missão bem definida na empresa, completam a arquitetura do processo produtivo.

Manejo estratégico

A partir do momento em que uma empresa de cria utiliza os recursos básicos, já discutidos, está disponível um conjunto de tecnologias para neutralizar variações climáticas, questões estruturais da propriedade e consequências de inúmeros problemas intrínsecos da cria.

Todas essas tecnologias se caracterizam pelos pequenos investimentos financeiros e nos insumos. Novamente, a grande vantagem desse grau de incorporação tecnológica é a apropriação do conhecimento de organização, manejo e gerenciamento de recursos básicos.

A finalidade desse conjunto de técnicas é complementar as estratégias primárias aplicadas na cria. É evidente que, para introduzir essas técnicas, são necessárias condições de infraestrutura, como o número de potreiros, que permite separar as vacas conforme a categoria durante o parto e o acasalamento.

Primíparas devem parir e ser mantidas em potreiro exclusivo todo o período reprodutivo subsequente. Secundíparas, em alguns casos, quando fêmeas ainda jovens em crescimento, também necessitam manejo semelhante, embora em uma carga maior que primíparas.

Matrizes adultas podem ser mantidas juntas, mas em lotes não superiores a 150 vacas. Já as de última cria e que não serão postas em reprodução devem permanecer em outro potreiro, pois suas exigências nutricionais são menores.

A organização dos partos por períodos ou subépocas, constituindo lotes de vacas para serem manejadas independentes, também tem sido uma tecnologia de baixo custo e ligada ao processo. Ela está baseada na identificação do bezerro ao nascer com um sinal correspondente ao período de nascimento ou pela simples formação do grupo de vacas que pariram dentro de um determinado período.

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Isso permite manipular a carga em cada potreiro, pois cada grupo de vacas, conforme a sua subépoca de parição, possui uma exigência nutricional durante o acasalamento e, portanto, uma carga animal correspondente.

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Desse modo, são estabelecidas prioridades pela lotação ou pela escolha de potreiros específicos. Vacas com partos no início da parição, de modo geral, sempre apresentam altas taxas de prenhez, independentemente de manejo diferenciado.

A manipulação da estação de parto e acasalamento tem sido uma grande ferramenta para potencializar a taxa de prenhez. A flexibilidade operacional de movimentar os 60-90 dias da estação para mais cedo ou mais tarde dentro do ano, quando ocorrem eventos climáticos importantes, é uma alternativa tecnológica estratégica.

Além disso, nos anos de invernos menos rigorosos e de um histograma de partos com mais de 40% das vacas concebendo nos primeiros 21 dias, surge a oportunidade para que o entoure seguinte seja antecipado em, no mínimo, 20 dias.

Isso se destina a aproveitar vacas que estão ciclando cedo e aumentar o número de partos no início da temporada no próximo ano. Portanto, são resultados que vão sendo capitalizados anualmente.

O ajuste no percentual de touros conforme o mês de entoure, a categoria de vaca e o tamanho do potreiro pode gerar resultados complementares na cria. Trabalhar com 4% a 5% de touros, de maneira geral, é o recomendado, mas é necessário ajustar ao tamanho do lote de vacas.

Por exemplo, 100 vacas com quatro touros respeitam a proporção de 4%. Mas, muitas vezes, esse critério precisa ser flexibilizado; 130 vacas (4% = 5,2 touros; 5% = 6,5 touros) devem ser acasaladas com seis touros, para respeitar sempre a maior exigência.

Por outro lado, quando a despesa com touros é alta e a participação nos investimentos é o principal centro de custo, será importante ajustar o percentual de touros com a condição corporal da vaca (é um indicador de porcentagem de ciclicidade). Assim, é possível trabalhar com percentuais de reprodutores inferiores a 3% e aumentando na medida que as matrizes vão recuperando ECC e ciclando. Do mesmo modo, à medida que as vacas vão se tornando prenhas, é possível reduzir a relação touro:vaca.

A possibilidade de utilizar uma segunda estação reprodutiva, em especial, na redução da idade ao primeiro acasalamento das novilhas, agora aos 18 meses, no período verão/outono, pode reestruturar o rebanho, tendo uma menor participação de primíparas na estação convencional de primavera, e, como consequência, reduzir a demanda de nutrientes nessa estação, com maiores chances de prenhez no rebanho como um todo.

No que diz respeito a cessar temporariamente a lactação, pelo desmame interrompido com tabuleta por sete dias ou em currais por 48 horas, a prática novamente tem demonstrado que a eficácia de ambos depende, exclusivamente, do escore de condição corporal e da avaliação da atividade ovariana.

Somente respondem ao método vacas que apresentem um anestro superficial e um ECC entre 3,0-3,5. O custo de ambas as técnicas é relativamente baixo, e, como consequência, seus resultados também são moderados.

A bioestimulação também é uma tecnologia que afeta o eixo endócrino-reprodutivo, sendo pouco utilizada nos sistemas de cria. Seus resultados são de menor magnitude que a interrupção da lactação, porém suas finalidades são outras.

É destinada a antecipar a puberdade nas novilhas antes do primeiro acasalamento e para reduzir o intervalo parto-primeiro cio em vacas com cria ao pé. Se esses resultados aumentam a probabilidade de prenhez dentro da própria estação reprodutiva, os ganhos contabilizados são maiores, pois, novamente, os resultados esperados virão no ano seguinte.

A disponibilidade tecnológica para a pecuária de cria é ampla e tem relativa viabilidade operacional de aplicação. Resta, ainda, um melhor entendimento dos seus resultados dentro de uma visão sistêmica. Assim, a escolha tem sido pontual e desprovida de análises mais detalhadas, o que, muitas vezes, faz com que o usuário não acredite naquilo que foi utilizado ou ainda questione a validade científica.

O empirismo dá lugar ao profissionalismo, e, para isso, está à disposição dos pecuaristas um moderno sistema de apoio para uma decisão mais acertada sobre a tecnologia que mais convém ao sistema em questão. Assim, recuperar todo o conhecimento acumulado sobre as principais tecnologias de processos é imperioso para melhorar a competitividade da cria na conjuntura que ora se apresenta.

*Júlio Barcellos é médico-veterinário e doutor – NESPro/UFRGS [email protected] **Marcela é médica-veterinária e doutoranda do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ***Julia é graduanda em Medicina Veterinária, BIC-CNPq – NESPro/UFRGS