Feno & Silagem

A cultura do milho e os tipos de silagem

Feno

Vinicius A. Camargo*, Yago M. da Rosa**, Télis A. Cumbe***, Júlio O. J. Barcellos****

A silagem de milho é um dos principais componentes da dieta de bovinos devido à sua alta capacidade de produção de matéria seca e ao seu alto valor nutricional, quando comparada com outros materiais utilizados para produzir silagem. A busca pela melhoria na alimentação de bovinos e no aumento da eficiência demanda diferentes formas de produção de silagens, e utilizar um mate rial originado de uma mesma cultura agrícola, como é o caso do milho, pode ser uma estratégia.

Nesse sentido, este artigo aborda as principais formas de exploração da planta de milho para a produção de silagem (Figura 1, na página seguinte), considerando o local e o ponto de corte, sendo: silagem de planta inteira, corte alto, toplage (colheita da espiga e parte da planta), stalklage (apenas partes da planta), snaplage (grão, sabugo e a palha do milho), earlage (espiga sem a palha) e grão úmido.

A silagem de milho de planta inteira é a forma mais difundida na dieta de ruminantes, seja em confinamento ou em semiconfinamento. Isso se deve, primeiramente, ao potencial produtivo da planta de milho e, segundo, à oferta de energia e da qualidade da fibra, constituindo-se, em muitos casos, em uma dieta completa para os animais, dependendo de suas exigências nutricionais.

Além da qualidade bromatológica, essa forma de silagem permite custo baixo por tonelada produzida, justamente devido ao alto potencial de produção de forragem e da relativa facilidade do processo de ensilagem. Em relação à qualidade bromatológica da silagem de milho de planta inteira, ela é apenas limitada em proteína, como de resto quase todas as silagens de gramíneas.

Como uma opção para melhorar a composição nutricional da silagem de planta inteira, temos a possibilidade de manipular a altura do corte, a chamada silagem de corte alto. A diferença dessa forma de silagem está no aumento da altura do corte da planta que se situa ao redor dos 40 cm do solo ao invés dos 20 cm do corte tradicional.

Esse tipo de silagem reduz o rendimento por hectare, mas melhora a qualidade da fibra e a energia, por promover a maior participação de grãos em detrimentos de colmos e folhas senescentes mais presentes na base da planta e que possuem maior percentual de fibra de baixa qualidade, formando a massa ensilada mais digestível.

A silagem denominada snaplage é caracterizada pelo uso apenas de grãos, sabugo e palha, na qual de 75% a 80% do material ensilado são grãos. Essa forma de colheita da planta de milho favorece a composição da silagem no sentido de apresentar mais fibras digestíveis e maior concentração de amido quando comparado à silagem de planta inteira, portanto, maior a concentração de energia.

Quando comparada à silagem de grão úmido, essa forma de silagem apresenta valor nutricional muito próximo; no entanto, produz maior quantidade de matéria seca por hectare. A colheita do material para esse tipo de silagem deve ser feita por uma colheitadeira equipada com uma plataforma de moagem na qual a espiga é cortada em um comprimento curto e, então, moída por um processador de sabugo anexado à máquina.

Ainda com o foco na melhoria da qualidade do material ensilado e no aumento da capacidade produtiva dos animais, foi desenvolvido, pela Universidade de Wisconsin, um híbrido entre a silagem de corte alto e o snaplage (citado anteriormente). A essa nova forma de colheita foi dado o nome de toplage, que tem como objetivo melhorar a composição nutricional da silagem de corte alto, perdendo o mínimo possível em rendimento de matéria seca produzida por hectare.

Trata-se da colheita de espiga em algumas linhas e espigas mais a parte superior da planta (como na silagem de corte alto) em outras. Alternando a colheita de espiga e a planta, é possível manipular composição bromatológica da silagem, manipulando o conteúdo de fibra e de amido do ensilado.

A colheita da toplage é feita através de uma automotriz com plataforma de moagem modificada de maneira a realizar a colheita alternada. Para isso, a plataforma de moagem usa facas de corte de caule, utilizadas na colheita do girassol, realizando o corte logo abaixo da espiga principal em algumas linhas. Dessa forma, é possível alterar a com posição da silagem e a produção de MS/ha, aumentando ou diminuindo as linhas de corte na plataforma.

Em comparação com a snaplage, essa técnica proporciona um aumento de 22% no rendimento por hectare e uma redução de 13%, se comparada à silagem de corte alto, variando conforme a distribuição de cortes. Quanto à composição nutricional, estudos mostraram uma concentração de amido de 52%, contra 41% da silagem de corte alto, além de fibra bruta de 19%, contra 8% em snaplage, com fração digestível de FDN maior que as silagens de planta inteira ou de corte alto. Produz a mesma quantidade de amido por hectare que snaplage, mas com fibra de maior qualidade que as de corte alto, sendo uma ótima opção de volumoso de qualidade.

Outra forma de produção de silagem com a planta do milho é a stalklage, que é o termo dado à silagem do resíduo da planta do milho, parte inferior da planta após a colheita do grão ou após o corte da toplage. Essa prática surgiu como uma alternativa para aproveitar como alimento para o gado o material orgânico que normalmente acaba sendo incorporado ao solo.

Por ser uma silagem feita principalmente da porção inferior da planta, é exclusivamente fibrosa, de baixa digestibilidade e de conteúdo energético. Se torna uma opção de aproveitamento de um subproduto da colheita do milho como alternativa para aumentar a fibra efetiva de uma dieta de forma barata. A sua desvantagem é o maior grau de extrativismo do solo, já que a retirada do resíduo da planta pode acarretar perda da matéria orgânica e maior grau de compactação com o passar do tempo.

A confecção se inicia com a retirada do espalhador de palha da colheitadeira, o que proporciona o enleiramento. Após a colheita, essa palha é recolhida e ensilada. Obviamente, sua qualidade está diretamente relacionada ao estágio de maturação e à composição do resíduo cortado da planta. Quanto menor o percentual de umidade do grão, mais madura será a planta e pior será a qualidade da fibra. Além disso, quanto maior a quantidade das porções mais inferiores da planta, pior será a qualidade do ensilado.

Earlage é a silagem de milho caracterizada pela utilização de grãos e sabugo sem a palha, nesses casos, com os grãos constituindo de 85% a 90% do total do material ensilado. O processo de ensilagem assemelha-se ao de planta inteira, no qual é possível compactar o material em silo-trincheira ou outros tipos de silos já conhecidos.

A colheita para esse tipo de silagem deve ser feita quando a planta estiver entre 28% e 30% de matéria seca. Em função de grande parte do material ensilado ser constituído de grãos, o earlage só fica atrás em relação à energia, da silagem de grão úmido. Porém, em função dessa mesma característica, o material é pobre em relação à fibra, quando comparado à silagem de planta inteira e snaplage. Nesse sentido, é preciso tomar cuidados na utilização de forma exclusiva na dieta de bovinos, sendo necessária a inclusão de ingredientes capazes de aumentar a quantidade de fibra da dieta.

Um dos pontos positivos na produção desse tipo de silagem está na manutenção da qualidade do solo, em razão da grande parte de cobertura vegetal gerada pela planta, que não é utilizada para ensilar e é espalhada na superfície do solo. No sentido operacional, a earlage apresenta vantagens sobre a silagem de grão úmido, pois exclui a necessidade da etapa de moagem dos grãos, estando pronta para ser compactada.

Ainda como uma alternativa ao grão seco de milho, para aumentar a densidade energética da dieta, surge a silagem de grão úmido. Com uma composição bromatológica semelhante à do grão seco e redução de perdas pela forma de armazenamento, a silagem de grão úmido pode chegar a níveis de NDT de 90%. Nesse tipo de silagem, é desprezada a parte volumosa da planta, consistindo em ensilar apenas os grãos do milho com percentual de umidade próximo a 35%, em grau de maturação inferior.

A colheita é realizada de maneira convencional, da mesma forma que o grão maduro. Para o fornecimento aos bovinos, esses grãos devem ser quebra dos ou laminados, favorecendo o processo de compactação e fermentação. Como citado anteriormente, com a parte que sobra nesse processo, é possível, ainda, a produção de stalklage.

Nesse tipo de silagem, é ainda mais necessário que os grãos estejam sadios, evitando levar algum tipo de contaminação para dentro do silo. O controle de umidade do grão para a colheita está diretamente atrelado ao sucesso no processo de ensilagem, visto que grãos mais secos dificultarão esse processo e precisarão de uma moagem mais fina em relação aos grãos colhidos com a umidade correta, entre 30% e 35%. Quando comparado ao grão seco, é notável um aumento de até 11% na digestibilidade do alimento, melhorando a conversão alimentar e o desempenho dos animais.

Independentemente do tipo de silagem escolhido, é importante frisar que os fatores que mais impactam na produtividade e na qualidade da silagem são o ponto de corte (grau de maturação da planta), o híbrido utilizado e a época do plantio. Além disso, fatores como a compactação e a fermentação são de caráter fundamental para a manutenção da qualidade do ensilado e a redução de perdas.

Assim, cada sistema de produção, com base nos seus objetivos, na experiência do uso de silagem e no maquinário disponível, escolherá a forma mais adequada e o tipo da ensilagem que utilizará a partir da cultura do milho. Dessa forma, a otimização dos recursos alimentares para o aumento de produtividade será alcançada.

*Vinicius é veterinário e mestrando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS **Yago é zootecnista e mestrando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ***Telis é eng. agropecuário, Msc. e doutorando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS ****Júlio Barcellos é veterinário e doutor NESPro/UFRGS – [email protected]