Leite

Pastejo Rotacionado

Leite

Saiba qual forrageira utilizar visando à alta produção de leite nesse sistema produtivo

Juliana Santin* e Liziana Rodrigues**

Os sistemas de produção a pasto ainda representam uma boa parcela da produção leiteira no País. Uma dúvida frequente entre os produtores de leite é qual planta forrageira utilizar em um sistema de pastejo rotacionado que visa à alta produção. Existem várias forrageiras que podem ser escolhidas.

As mais comuns são Brachiaria decumbens (Braquiarinha), Brachiaria brizantha (Braquiarão), Brachiaria humidicola, Panicum maximum cv. Tanzânia, Mombaça e Aruana, Cynodon dacty lon cv. Coast-cross, Cynodon sp cv. Tifton 85, Pennisetum purpureum cv. cameroon (Capim-elefante) e Andropogon gayanus cv. baeti.

Apesar de existirem muitas opções, não há uma variedade que possa ser considerada “a ideal” para todas as propriedades. Quando se fala em sistema de pastejo rotacionado, deve-se sempre pensar em capins produtivos e resistentes às pragas e ao pastejo.

Condições edafoclimáticas e fatores relacionados à forrageira e ao manejo do pasto, como espécie, fertilidade do solo, frequência de pastejo e resíduo pós-pastejo, devem ser considerados na escolha da cultivar que melhor se adapte ao sistema.

Mas, afinal, qual forrageira garante maior produção de leite? Vários estudos foram feitos em busca dessa resposta. No entanto, quando comparamos a composição bromatológica e digestibilidade in vitro de diferentes espécies de gramíneas forrageiras, podemos observar que há pouca variação nas características químicas, como mostra a Tabela 1.

Dessa forma, se todas elas possuem valores semelhantes, seriam capazes de promover o mesmo nível de produção de leite? Isso vai depender de outros fatores, como produtividade, manejo e resistência de cada espécie ao pisoteio e ao consumo pelo animal.

Algumas forrageiras suportam mais animais na área, que, de fato, determina a principal diferença no sistema. Além disso, tudo depende do manejo e da capacidade de seleção por parte das vacas.

Plantio

Para haver produção e, consequentemente, correta utilização da pastagem escolhida, é fundamental que se estabeleçam, inicialmente, níveis de fertilidade adequados para cada forrageira em questão. São distintas as recomendações para cada planta, mas pode-se considerar que, para as forragens do gênero Panicum e Cynodon, os níveis de saturação por bases (V%), por exemplo, do solo, devem estar ao redor de 75%, enquanto que, para as Brachiarias, ao redor de 60%. Sendo assim, não podem, desde o início, ser consideradas iguais.

Entrada e saída dos piquetes

As alturas de entrada e saída dos piquetes são distintas para cada forrageira, e isso deve ser respeitado. O produtor deve atentar-se para uma forrageira adequada ao sistema de pastejo adotado, uma vez que, para sistemas que se utilizem do manejo rotacionado de pastagens, aconselham-se utilizar as pastagens mais produtivas – sendo elas as do gênero Panicum (Tanzânia) e Cynodon (Tifton e Coastcross).

As espécies de Brachiaria podem também ser utilizadas (sendo essas mais indicadas para sistemas de lotação contínua), porém apresentam menores produtividades e também podem acometer os animais com problemas de fotossensibilização.

Leite

Pastagem de Panicum maximum cv. Mombaça Altura de entrada (direita) e saída (esquerda) com período de ocupação de um dia

No caso da utilização de forrageiras Panicum em sistemas intensivos, o manejo será totalmente prejudicado, pois, quando consideramos que a forragem está fora do seu ponto ótimo de manejo, ela “passou do ponto”, e isso nunca deve acontecer. As forragens desse gênero lignificam muito o colmo (endurecem). No caso da Braquiária, isso ocorre em menor intensidade, e, com isso, tem-se o pastejo normal, caso ela passe do ponto, o que é uma vantagem quando de um manejo mal feito ou incorreto. O ponto ótimo de manejo da forrageira é um fator-chave para garantir seu desempenho ótimo.

Período de descanso

É muito importante considerar que cada capim possui um período de descanso específico (Tabela 2), que vai depender da relação entre produção e valor nutritivo.

Considerando que, ao longo do tempo, a produção de massa aumenta e o valor nutricional diminui, cada espécie forrageira terá um ponto específico necessário para o descanso entre períodos de pastejo. Esse período é importante para recuperação da pastagem, permitindo a rebrota e o crescimento adequado da planta. Assim, será possível maximizar a produção de leite, com quantidade adequada de massa de forragem e boa qualidade nutricional, sem afetar a persistência das plantas.

Por exemplo, se compararmos diferentes espécies de gramíneas com um período de descanso de 30 dias, o capim Coast-cross estaria “passado”, ou seja, fora do seu ponto ótimo de consumo. Nesse caso, a pastagem teria alta produção, mas com valor nutritivo mais baixo. Já o capim Tanzânia com o mesmo período de descanso, teria um alto valor nutritivo, mas uma baixa produção.

Período de ocupação

O período de ocupação deve ter a menor duração possível, podendo variar de um a três dias, garantindo, assim, melhor rebrota das plantas e facilitando o controle da lotação da pastagem.

O período de ocupação está relacionado com a espécie animal e seu objetivo de produção. O ideal é utilizar períodos de ocupação de um dia, mantendo as características nutritivas da planta mais uniformes e sem prejuízo à produção de leite.

Se o animal mantiver o pastejo por períodos longos, prejudicará a rebrota e, consequentemente, o pastejo do ciclo posterior. Chamamos de ciclo de pastejo, o tempo que o animal leva para voltar a pastejar o mesmo piquete dentro do sistema.

Uma alternativa para beneficiar a produção de leite é agrupar vacas de acordo com a produção, permitindo o pastejo de “ponta”, para que as vacas de maior produção tenham acesso a forragens de maior qualidade, e o “repasse” para vacas menos produtivas ou outras categorias que possam comer além da folha, o colmo da forragem de menor valor proteico.

Outro fator importante para o manejo em sistema rotacionado é a disponibilidade de piquetes. Para tanto, o número de piquetes em cada pastagem será em função do período de descanso (PD), que varia de acordo com a espécie forrageira utilizada e do período de ocupação (PO), que pode ser obtido pela equação: Número de piquetes = (PD / PO) + 1.

Assim, é essencial que se obedeça ao ponto ótimo de manejo de cada capim, a fim de se obter a melhor resposta dos animais em termos de produção de leite, ou seja, deve-se respeitar a fisiologia específica de cada capim. Isso porque o manejo dessas forrageiras é totalmente diferente, e é exatamente nesse ponto que surgem as diferenças, de fato.

Conclusões

A escolha da forragem que garante a melhor produção de leite depende de diversos fatores relacionados à região da propriedade, às características da planta, ao manejo realizado e ao objetivo de produção.

Não basta apenas fazer uma avaliação da composição nutricional da planta e comparar os resultados para que se decida qual é a melhor, assim como não há uma “forrageira ideal” para todos os casos.

É necessário o conhecimento do sistema e uma avaliação detalhada dos recursos disponíveis para a escolha da espécie que melhor se adapte às condições desejadas.

*Juliana é médica-veterinária e conteudista do EducaPoint **Liziana é doutora em Zootecnia e coordenadora de Conteúdo do EducaPoint